Mini-conto #19 – “Sobre a terceira temporada de Fringe”

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Na chamada Terra #2 eles não se conheceram. Os pais dela tinham ido pra outros país a trabalho, ele quase nunca saía do interior, se cruzaram uma vez num aeroporto, ele teve a sensação de que aquela garota era familiar, de um jeito esquisito, mas não se preocupou muito.

Na Terra #4 eles se conheceram uma noite numa festa, ela era namorada de um amigo do irmão, ele era o cara contrariado bebendo drinks com guarda chuvinha. A festa não foi boa, duas garotas passaram mal, um amigo vomitou num chapéu, dois caras foram colocados pra fora. Pessoas se perderam no estacionamento, no final os dois acabaram tendo que dividir um táxi. Ele achou que ela era bonita, ela achou que ele era engraçado, ele pensou em pedir o telefone dela, ela pensou que, se ele pedisse, ela não poderia dar. Se despediram um pouco sem graça, ela deixou dinheiro a mais na parte dela da corrida, ele só notou depois, se sentiu culpado. Nunca mais se viram.

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…e agora, para algo completamente diferente #89

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E nessa semana não temos texto novo no blog mas sim uma participação especial no Papo de Homem falando sobre o processo lógico das teorias da conspiração, o que elas dizem sobre a época em que vivemos e o fato de que se você escreve um texto dizendo que teorias da conspiração estão, em 99% das vezes, absurdamente equivocadas, cerca de 90% dos comentários vão ser de pessoas dizendo que seu texto é parte de alguma conspiração pra que as pessoas não saibam da verdade.

 

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Problemas práticos do romantismo teórico – XXV

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Poucas coisas são mais complicadas quando se trata de relacionamentos humanos do que conseguir dimensionar corretamente a impressão que você deixou em alguém. Não existem indicadores claros, não existem regras de proporcionalidade, não existe nenhuma sistemática que oriente ou regule o quanto você lembra de alguém em relação ao quanto essa pessoa se lembra de você.

Pessoas que você se esforçou por anos pra esquecer em quinze dias nem lembravam mais o seu nome, aquele telefonema que você lutou contra si mesmo durante meses para não fazer mas acabou realizando num momento de bebida e fraqueza é respondido com um “mas marcos? qual deles? o da academia?” e você ficou sabendo através de amigos que aquela garota que na sua cabeça está indexada como “a garota que foi embora” se refere a você em eventos sociais como “o carequinha que falava engraçado”.

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Três ideias para programas de televisão que eu estou considerando se ofereço ou não para o canal Multishow

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Sentimento e Consideração com João Luis
– Um programa de entrevistas onde eu recebo celebridades para um bate papo descontraído com o plot twist de que meia hora antes das gravações tanto eu quanto a equipe e os entrevistados começamos a beber copos de cerveja e shots de tequila. Com isso o que antes era um papo superficial sobre carreira e o mundo do entretenimento se transforma numa conversa verdadeira sobre sentimentos profundos, amizade, gritos de “te considero pra caralho” e “se eu fosse travesti, eu queria que meu nome fosse joycy, com dois y, porque joy é alegria, sabe?”. No segundo bloco entraríamos numa profunda espiral de sentimentos, que envolveria telefonemas para a ex-namorada do convidado, ideias do tipo “sério, a gente tem que colocar fogo em alguma coisa” e culminaria num quadro externo em que sairíamos do estúdio pra confrontar meu pai sobre meus traumas de infância, talvez gritando com ele pelo interfone e dizendo “você nunca me amou de verdade”. No terceiro bloco retornaríamos ao estúdio, bateria a ressaca, o clima ficaria péssimo, ninguém nunca mais ia se falar. Não sei ainda se teria uma banda acompanhando ou não.

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Pequenas neuroses instáveis de relacionamentos de maior estabilidade

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o problema da divisão de problemas – e ela é a pessoa com quem você mais quer falar sobre toda e qualquer coisa, e isso inclui seus problemas. mas ao mesmo tempo, por ela ser a pessoa com quem você mais quer falar sobre toda e qualquer coisa, você sente um certo ímpeto de não gastar o tempo de vocês dois – que poderia ser gasto falando sobre toda e qualquer coisa – falando sobre os seus problemas. mas uma parte importante de ter alguém com quem você quer falar sobre toda e qualquer coisa é dividir os problemas, e se você não falar pra ela sobre esses problemas, se você omitir essa parte, ela deixa de ser a pessoa com quem você pode e quer falar sobre toda e qualquer coisa. e ela provavelmente vai ficar chateada contigo. e aí nessa divisão entre a vontade de falar com ela sobre as coisas que te matam de raiva mas não querer jogar em cima dela as coisas negativas da sua vida, você acaba criando frases como “hoje eu tive o dia mais merda de bosta que um maldito de um corno mal-pago pode ter naquela caralha daquela empresa de merda que só tem filho da puta…” e quando ouve o silêncio preocupado do outro lado da linha, complementando com “…mas de um jeito legal, sabe? tipo, não tão ruim e tal. e quando eu disse caralha eu queria dizer ambiente propenso ao crescimento, eu sempre me confundo com essas palavras”.

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Sobre o terror primitivo do falo conceitual voador

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Ainda que poucas pessoas costumem notar, de todos os xingamentos e praguejares existentes na língua portuguesa – uma língua rica em possibilidades de ofensas, que vão desde menções a genitais peludos como forma de extravasar raiva até informações sobre as opções vocacionais da mãe do outro como meio de ofensa – um dos mais graves, aterrorizantes e sinistros é o interiorano, comum e primariamente inocente “caralho de asa”.

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Mini-conto #18 – “Submarino”

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Primeiro eu tinha que esquecer o seu sorriso. Esquecer a sua boca, esquecer as covinhas do seu rosto, esquecer o jeito como a sua franja caía pela sua testa, como você prendia o cabelo atrás da orelha. Depois esquecer a sua risada, esquecer o som da sua voz, esquecer o seu jeito de cantarolar, esquecer o sotaque que você achava que tinha perdido mas eu notava, esquecer o jeito como você piscava pra mim quando achava que ninguém estava olhando.

Depois seriam as coisas maiores. O seu jeito de encostar os pés nos meus na cama, o gosto da sua boca, a sensação da sua cabeça no meu ombro enquanto a gente assistia algum filme chato no sofá, as suas mãos debaixo da minha camisa pra se esquentar quando sentia frio. Os abraços quando a gente se encontrava, os beijos quando a gente se despedia, você apertando a minha mão quando alguém estranho passava do nosso lado na calçada.

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Sobre barbas, onças e um certo senso de suspense e trauma matinal

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Você estava saindo do apartamento, mais ou menos numa boa. Nesse dia não estava atrasado, nesse dia não tinha reunião, a ida pro trabalho poderia ser tranquila e sem solavancos, era só deixar uma caixa com o porteiro e pronto, dali pro metrô, do metrô uma tranquila caminhada pro trabalho, o clima parecia até ameno.

Aproximou da bancada da portaria, deu aquele bom dia. O porteiro, o mais idoso dos que revezavam na portaria, respondeu bom dia. Deixou a caixa, explicou que iam recolher naquele dia ou amanhã, ele disse que tudo bem, você disse que eram uns óculos que você tinha pedido e que deixavam provar em casa, ele disse que tudo bem, você falou que era porque o seu já tava ficando meio esquisito, ele disse que tudo bem, você agradeceu de novo, ele disse que tudo bem, você se perguntou porque sempre se explicava demais pras pessoas, imaginou o porteiro mentalizando um “tudo bem, cara, meu deus, tudo bem”. Já ia se despedir, tava dando a volta, quando ouviu a voz do porteiro te chamando. “Seu João, tava aqui com uma dúvida. Quanto tempo o senhor aguenta barbudo sem tirar?”.

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Da irracionalidade esportiva coletiva que chamamos de quarta-feira à noite

Como boa parte da população brasileira eu sou apaixonado por futebol. Fui educado jogando e acompanhando o esporte, cresci completando álbuns de figurinhas da copa, me tornei um homem adulto que freqüenta estádios, paga mais caro para ver jogos em hd na televisão e briga com outros homens adultos por causa de pontuação em fantasy games de futebol – o que talvez seja uma boa razão para repensar o número de vezes que eu disse “adulto” nesse último parágrafo.

Mas mesmo sendo apaixonado por futebol e tendo essa paixão como uma coisa natural pra mim, conforme eu fui crescendo e levando uma vida mais e mais “adulta”, eu comecei a notar que para uma parcela também significativa da população o futebol não apenas não tem nada de natural como também representa um transtorno constante, interminável e contra o qual eles vêem impotentes, já que bem, não chamam o Brasil de país do futebol pelo fato de que tratamos a bola rolando como um hobby e a gente pega super leve com essas coisas.

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Algumas grandes pessoas imaginárias que em algum dado momento você inventou para fugir de algum compromisso, convenção social ou evento familiar, devido ao fato de que você é muito tímido para dizer não e inseguro demais para contrariar abertamente seus amigos e conhecidos

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a garota muito gata em quem você tava chegando: eles insistiram demais. você disse que não no bar, mas ele perguntaram de novo no outro dia, você falou que não podia pelo facebook mas te mandaram mensagem no whatsapp, você desligou o celular mas telefonaram no fixo, você tirou o fixo do gancho e no mesmo instante a campainha tocou e era só o cara do delivery mas mesmo assim. ficou o susto e a comidinha chinesa desceu com gosto de terror. você já tinha tentado ser sincero antes mas não tinha rolado – “quem fica em casa vendo buffy num sábado a noite, cara, que isso”. você já tinha tentado mentiras mais sutis mas não tinha rolado – “a gente não se importa se o campeonatinho do modo ultimate do fifa que vale mais pontos acaba em doze horas, fera”. você já tinha apelado até mesmo para desculpas que numa época mais antiga tinham dado certo, mas sem sucesso – “tu disse que sua mãe tava doente mas ela tá postando no facebook foto na praia, joão, que doença é essa?”. mas nada disso funcionou e você decidiu apelar. “cara, não posso, vou sair com uma gostosa” – “opa, a gente conhece?” – “não…não conhece…ela…ela…é de macapá. tá no rio de passagem, tem que ser hoje” – “e tem amiga?” – “não tem, nunca teve…quer dizer, veio sozinha” – “que beleza, se rolar depois encontra com a gente então”. você fica em casa mas gasta 2 horas da sua noite escrevendo uma espécie de bio da menina imaginária, envolvendo interesses (“gosta de cinema europeu, cachaça da roça, programa roletrando”), passado (“trancou a faculdade de sociologia no meio pra mochilar pelo estado de goiás”) e hábitos (“uma vez ela quis chutar um chihuahua e eu tive que impedir”). no dia seguinte ninguém te pergunta nada sobre o encontro imaginário e você se sente um pouco rejeitado.

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