Tu te tornas responsável pelo que cativas…noooot.

Antes de tudo eu quero dizer que nunca li “O pequeno príncipe” e muito mal e mal eu vi o desenho animado, por isso a minha noção da obra consiste em saber que um garotinho morava numa luazinha, conversava com uma florzinha, viajava em cometinhas e influenciou misses de todo o mundo, algo assim. Ainda que eu desconfie que usei diminutivos demais. Daí toda a minha facilidade para, sem conhecer direito o contexto, dizer que “tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas” é uma das frases mais…como dizer…bestas que eu ouço as pessoas repetindo por aí.

Primeiro porque, bem, ela não faz sentido. Você não se torna responsável (muito menos eternamente responsável) pelo que você cativa, pelo menos não no sentido que a frase quer fazer parecer. O fato de alguém gostar de você não te torna necessariamente responsável por aquele sentimento, tenha sido ele gerado de forma voluntária ou não. Afinal, quantas vezes você já não gostou de alguma pessoa e ela não havia feito absolutamente nenhum tipo de esforço nesse sentido? Ela só estava lá, sendo ela mesma, totalmente na dela, vivendo sua rotina normal, basicamente ignorando os traços mais básicos da sua existência e mesmo assim você passou a gostar dela, criando por ela afeto, amizade ou paixão. E que culpa ela pode ter nisso? Ela pode ser responsabilizada por ser divertida? Bonita? Inteligente? Ficar bem nas fotos? E por…bem, ok, vou parar por aqui, você entenderam.

Ao mesmo tempo veja o outro lado. Quantas vezes as pessoas não criaram afeto em relação a você sem nenhuma boa explicação, apenas porque simpatizaram com a sua cara e decidiram que você era uma pessoa legal para se estar perto? Quantos de nós não tiveram ao menos uma vez aquele amigo inexplicavelmente apegado que nos chamava pra tudo e que, mesmo diante do nosso total desânimo e de respostas como “pô,cara, não posso, tenho aula de tiro com rifle d’água hoje na piscina da minha avó, fica pra próxima”, continuavam sempre presentes e empolgados? De onde vem a responsabilidade nisso?

E mesmo falando sobre casos em que a pessoa foi cativada voluntariamente, isso não se justifica, sério. Afinal, você cativou a pessoa, ok, tudo bem, eu entendo que isso te dê um certo “débito moral” com ela, aceito. Mas negue que esse tipo de argumentação é usado basicamente por ex-namorados que não aceitam o final do namoro, amigos que venderam seus móveis enquanto você viajava ou garotas que ficaram contigo uma vez e mandam um caminhão entregar os pertences dela na sua porta no dia seguinte? Você tem um nível de responsabilidade com as pessoas que se importam contigo e querem o seu bem, mas daí a concluir que você é eternamente responsável pelo que cativa existe um salto argumentativo bem grande.

Desconfio que a frase faz tanto sucesso e é tão repetida porque ela mexe com uma coisa da qual todos nós gostamos num certo grau: reciprocidade. É bom saber que a pessoa que nos fez ficar apaixonados tem algum tipo de “vínculo” com a gente, que aquele amigo de quem a gente gosta pra caramba realmente tem que apresentar uma contrapartida. Claro, tem o lado ruim de que também somos responsáveis por ex-namoradas que ouvem vozes e deixam ursinhos de pelúcia esfaqueados em nossa porta ou pelos colegas de trabalho que se convidam pras festas em nossas casas, mas acho que as pessoas não gostam muito de pensar nesse lado quando sustentam essa teoria.

Em suma, eu acho que essa é uma daquelas frases como “a sua inveja faz a minha fama” ou “guiado por mim e rastreado por fofoqueiros” que realmente não fazem muito sentido pra mim em termos de lógica e racionalidade. E sério, o fato de saber que ela foi dita por uma raposa falante para um garoto que tinha perdido uma rosa não colabora muito não.

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19 Comentários

Arquivado em Crônicas, Desocupações

19 Respostas para “Tu te tornas responsável pelo que cativas…noooot.

  1. Fran

    Dessa vez preciso descordar de voce, menino João.
    O Pequeno Principe, é sim um ótimo livro. é um livro infantil, desses que já não se faz mais…assim como os desenhos da turma dos Smurfs.
    É um conto de fadas, com uma lição de moral, e o que diferencia ele das simples “fairy tales” é que a lição não vem no fim e sim durante todo o livro.
    Claro que os clichés são sempre superutilizados por todos. Principalmente os que são relacionados com sentimentos.
    Acredito que o responsável, nesse case, deve-se apenas ao fato de que voce (eu ou qualquer outra pessoa) não tem o direito de magoar alguém que gosta de voce. Por isso ser responsável e, mesmo que o sentimento não seja reciproco, ser minimamente gentil.
    Claro que eternamente é muito tempo, e nisso não há duvidas que é uma superestimação, mas enquanto estiver vivo, seja responsável.
    Lógico que é uma frase de efeito, daquelas que muitas pessoas não fazem ideia do que elas querem dizer, mas é tão bonitinha!
    O livro tem muitas outras frases e nuances que merecem atenção, e por mais infantil que seja, acho que voce deveria ler.
    Nem que seja pra dizer “Eu já sabia…”

    Bjaos

    Francielle (aquela que te salva do chefe na sexta-feira…srrs)

  2. Cara, Pequeno príncipe é um ótimo livro. Sério. Digo com a sinceridade de alguém que nunca se candidatou a miss nada. O fato dele ter sido usado exaustivamente pelas Forças do Mal em sua tentativa de transformar a humanidade numa grande novela mexicana não invalida sua qualidade. Por isso acho que você devia ler.
    Eu concordo com o que você expôs, mas devo dizer que ler a frase nesse sentido é entendê-la segundo a compreensão de misses peitudas e adolescentes espinhentas e, provavelmente, não segundo o que ela realmente quis dizer dentro do contexto.
    A questão está na palavra cativar. Tornar cativo, domesticar, prender, aprisionar.Tudo isso exige ação. Não é algo que acontece passivamente. Seu exemplo foi bem elucidativo: num amor platônico, a menina inatingível não tem nenhuma responsabilidade para com você ou seu sentimento. Claro,ela não te cativou. Você é que se entregou de mão beijada. No livro, a raposa era um animal selvagem que foi conquistado pelo Príncipe. Não era um gatinho que veio pedir leite. Ou seja, eu imagino que o significado mais acertado da frase seria algo como: você deve responder pelas coisas que conquista. E aí tudo muda de figura, eu acho. Droga, odeio comentários enormes.

    • João Baldi Jr.

      Fran e Zé:

      Bem, o conceito do post diogomainardizado é algo no nível de pegar um assunto que eu não conheço e que eu realmente não pesquisei e dar sobre ele uma opinião totalmente superficial que pode ser refutada facilmente, além de angariar a antipatia das pessoas. Eu admitidamente sou bom nisso (Veja, isso foi uma deixa, sério)

      Eu realmente entendo que existe um sentido mais profundo, como o que disse o Zé (“você deve responder pelas coisas que conquista” é bem melhor, fato) mas eu sempre me incomodei exatamente com a leitura superficial da coisa e o uso indiscriminado da frase pra justificar certas cobranças emocionais um tanto quanto babacas. A leitura mais contextualizada (como a apresentada por vocês) não chega a me incomodar e realmente faz sentido, mas ela representa…sei lá…0,5% das vezes em que eu ouço essa frase.

      Em suma, vocês dois tem razão e tem argumentos bem embasados em seus pontos de vista, ainda que eu continue tão receoso dessa frase quanto das frases “temos que ter um papo sério” e “eu e sua mãe temos que te contar uma coisa”.

      (E vou realmente pensar sobre a possibilidade de ler o livro, nunca se sabe)

  3. ThiagoFC

    Ao ler o texto, os comentários e, principalmente, sua tréplica, cheguei a uma conclusão: você é muito bom em diogomainardizar! O próprio Mainardi teria orgulho de você (principalmente se você usasse essas técnicas para falar mal do Lula).

  4. Ai, João, não faça isso… O Pequeno Príncipe é o livro mais doce de todos os tempos. Você precisa ler. Sério. Eu não acho que ele seja infantil at all… pelo contrário, acho que só se consegue entender de verdade depois de adulto, desde que ainda exista dentro de você um lado criança, por assim dizer. Não dá pra ‘diogomainardizar’ com ele! É um livro para ser ‘sentido’, e não debatido, dissecado etc…
    O mundo seria um lugar triste – ou pelo menos eu seria uma pessoa bem mais triste – sem ‘O Pequeno Príncipe’. E que se explodam as misses e pessoas idiotas em geral!

    Um menino que escreve um conto como aquele da ‘mulher de franjinha’ não pode falar assim do Pequeno Príncipe, entende?! ;)

  5. TG

    … ou o livro trata dos delírios de um aviador perdido no deserto, com sol rachando na cuca e sem água. Raposa falante, menino de outro planeta que cuida de uma rosa, de uns vulcões e de baobás… oras…

  6. sheila

    meu mundo tb seria mais triste sem opequenopríncipe, mas mesmo assim concordo com vc. afinal, mesmo que vc tb gostasse do livro, teria o direito de discordar da frase, né não? tb nunca me apaixonei por essa frase em especial… mas tb nunca tive nada forte contra ela. só ignorava mesmo. agora q vc falou é que realmente não faz mto sentido… mas talvez o significado mais próprio seria o de “tratar bem” aqueles que gostam de vc, tratar com mais cuidado, mais carinho… afinal, tadinhos, eles gostam de vc! mas aí eu poderia tratar mal os que não gostam de mim? hm, acho que sim!!

  7. Juninho

    Pequeno Príncipe é muito bonitinho, interessante e “cativante”, meu pequeno amigo judeu…

    Você deveria mesmo ler esse épico dos contos pseudo-infantis, porque eu concordo com a Érica, só se pode entendê-lo na fase mais adulta com aquele resto de criança que mora dentro da gente.

    E, quem sabe, você até se candidata a Miss Jerusalém!

  8. Elisa

    Eu nunca li Pequeno Príncipe também. E esses dias encontrei o Gustavo nas Lojas Americanas a tempo antes que ele comprasse um DVD do Pequeno Principe para mim.

    “Olha.. Estou levando de presente para você.”
    “Que bom que não levou ainda. Vamos trocar!”

    Preguiça. Um dia ainda leio, talvez, quem sabe, pode ser…

  9. Ula

    O planeta Zorbi é legal mas ele caiu!

  10. A cadeira é legal!
    a cadeira caiu

  11. Então…
    Quer saber? A frase soa como se fosse uma ameaça. Por isto não gosto dela.
    #prontofalei

  12. Clara

    Como não leitora do livro, concordo com cada palavra dita pelo João. E compreendo a leve “indignação” causada nos leitores e fãs do clássico infantil. O problema aqui é a utilização da frase que se tornou clichê por não conhecedores do seu real sentido e sem ao menos interpretá-la antes de sair por aí dizendo que as pessoas são responsáveis por coisas sentimentais. Tudo bem, às vezes são mesmo. Mas a vida é assim. Se você não é capaz de superar uma dor, não devia estar nesse mundo.

  13. Daniela

    Considerando que “O Pequeno Príncipe” é o segundo livro mais traduzido do mundo, não creio que outras muitas pessoas compartilhem da opinião do sir João.
    E definitivamente, o fato da pessoa em questão não ter lido o livro, anula quaisquer possibilidade que haveria de se considerar sua crítica em relação à tal frase que é nada menos o marco de um dos maiores clássicos de todos os tempos.
    Como já dito por alguém acima, existe todo um contexto que deve ser considerado. É lógico que levando a frase ao pé da letra, sem conhecer a história do livro e/ou do autor, pode-se julga-la infantil ou uma desculpa pra alguma relação mal resolvida, mas, qualquer pessoa inteligente não critica o que não conhece.
    E o fato da raposa ser a “autora” da frase no livro não dá a ninguém o direito de desconsidera-la, pois se assim fosse, as fábulas não existiram ou simplesmente careceriam de qualquer mínima lição pelo simples fato de ter os animais como personagens e inspiradores de grandes lições de moral.
    O “Pequeno Príncipe” é sim um tesouro literário, e não é uma opinião sem base que vai balançar sua estrutura. Só entende e sente quem leu.

  14. Paulo Roberto

    Vejo que sua análise é um tanto quanto possessiva, não sou pisicólogo e nem pretendo entender as pessoas, falo de minha vivencia.
    Digo que as pesoas necesitam de incentivos e motivações, comentários como os que você postou não deixam as pessoas refletirem sobre as diversas possibilidades de entendimento do nosso mundo,
    ser cético não desacreditar nas pessoas e no mundo que nos rodeia, ser cético não é promover uma avalanche de depreciações ou incredulidades sobre este ou aquele tema.
    Acho, em minha humilde opinião, que as pessoas necessitam de alternativas.
    Ter opção de escolha, vejo em seu comentário que você não deixa entendimento alternativo para sua colocação, simplemente “passa um rolo compressor corrugado” em cima de opiniões e sentimentos.
    Acho que isto o distanciará das pessoas e o tornará uma pessoa difícil e sem amigos, pois haverá sempre aquele que pensará diferente de você e, sabendo que você, da forma como escreve, não adimite outra opinão que não seja a sua própria, que por vezes não será unisônica, difultará uma aproximação ou convivencia.
    Li a obra e entendo que ela nos faz um chamemento para reflexões sobre a vida e as pessoas, em diversos momentos de nossa existêcnia terrena.
    Desejo-lhe felicidades e saúde…
    Paulo Roberto Ribeiro

  15. Pingback: ANDERSON SILVA, O PEQUENO PRÍNCIPE E O CACHORRO NO CAMPO |

  16. Daniele

    Discordo plenamente desta frase. O máximo que posso fazer é despertar algum tipo de sentimento no outro se esse outro se permitir, ou seja, apenas sou responsável pelos meus sentimentos, pelo que eu sinto. A partir do momento que vc cria uma expectativa sobre alguém, a responsabilidade é sua sobre esse sentimento. Então eu crio expectativas, essas expectativas não são realizadas da maneira como imagino e a culpa é do outro?

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