Sobre Flashpoint, soft reboot, robins estagiários e porque super-heróis deveriam ser coisa de criança

E então começou Flashpoint, mais um dos clássicos mega-eventos reunindo vários super-heróis e que prometia mudar tudo que nós sabíamos sobre os personagens da DC. Teríamos viagens no tempo, teríamos universos paralelos, teríamos o Flash Reverso zoando pesado e teríamos uma versão da família Marvel que não envolveria tigres e coelhos falantes, o que na minha opinião seria uma pena. Mas com o tempo descobrimos que, mais do que as mudanças padrão das mega-sagas americanas de verão (alguém morre, alguém muda de poderes, seis meses depois alguém volta da morte e volta a ter os mesmos poderes) Flashpoint iria marcar o fim do universo DC como nós – ou alguns de nós, ok – conhecíamos e o início de um novo universo que teria versões mais jovens, icônicas e desprovidas de cronologia mas cheias de gola alta daqueles mesmos antigos personagens. Em suma, teríamos um reboot.

Mas por que um reboot? Bem, pela única razão possível: baixas vendas. Com a baixa do mercado norte-americano de quadrinhos, que até hoje não tinha conseguido voltar ao patamar de vendas dos anos 90, e num contexto de mercado em que os encadernados pareciam colocar em risco as tiragens mensais, a DC Comics resolveu, em um movimento arriscado, operar ao mesmo tempo o reboot e uma atuação maciça no mercado digital, lançando os títulos simultaneamente de forma impressa e virtual. A intenção: aumentar o público e trazer para os quadrinhos novos leitores e recuperar fãs antigos que tivessem se perdido pelo caminho.

Isso, na minha cabeça de leitor freqüente, parecia significar uma série de coisas: adeus a cronologia antiga, que muitas vezes intimidava os novos leitores; busca por novos autores, que diversifiquem o conteúdo produzido; maior variações de gêneros entre os títulos da editora, abordando vertentes como humor, faroeste, terror, etc e principalmente quadrinhos para todas as idades, aquelas histórias que tanto você quanto seu sobrinho de 8 anos podem ler e que não envolvem sexo, mortes, desmembramentos e o Batman gritando palavrões para crianças pequenas que acabaram de perder os pais. Não era o que eu queria, não era o que eu esperava, mas era um movimento de mercado compreensível para uma indústria que se via em perigo e estava cada dia tentando vender mais títulos para menos leitores. E ainda que me partisse o coração pensar que a Liga da Justiça Antártida nunca ia ter existido ou que eu nunca mais ia ver o Garth Ennis escrevendo um título regular, eu estava disposto a aceitar, pelo bem dos personagens que tanto me divertiram durante tantos anos.

E aí e veio o reboot. E mais do que as mudanças esquisitas de status quo (o Aquaman agora é fodão, Super-Homem está solteiro); as retificações confusas de cronologia (nenhuma das grandes crises aconteceu, os super-heróis só existem há cinco anos e o Batman teve nesse período mais Robins do que eu tive namoradas) ou a idéia de buscar inovação criativa com diversos autores que já eram repetitivos em meados da década de 90, uma coisa me deixou realmente confuso: o fato de que esses quadrinhos pós-reboot são exata e totalmente iguais aos que vinham sendo feito antes.

Continuamos não tendo histórias para todas as idades – Mulher-Gato e Batman transam em uma edição, Estelar é uma ninfomaníaca em outra, Lanternas Verdes são eviscerados em uma terceira – continuamos não tendo uma cronologia clara e compreensível, já que as histórias da Liga da Justiça se passam no passado, as do Batman no presente, as do Super-Homem em Action Comics também no passado e por aí vai; além de tematicamente tudo continuar como antes, com os títulos centralizados em super-heróis clássicos e no máximo uma hq de western e outra de guerra (sendo o que a de guerra já passa perto do cancelamento).

E com isso acaba parecendo que o reboot – ainda que seja um sucesso pelo número de edições esgotadas nos EUA e o volume de vendas digitais – não vai conseguir alcançar o que possivelmente seria o seu principal objetivo, ou ao menos o mais importante no médio e longo prazo: formar novos leitores. É, pegar aquele garoto ou garota que saiu das histórias infantis, dos livros escolares ou dos desenhos animados e fazer com que ele se envolva com os personagens, crie vínculos com as histórias e se torne um jovem leitor, um adolescente consumidor e um adulto que algum dia vai gastar valores significativos da sua renda pessoal em encadernados e anéis do Lanterna Verde na Amazon.com. Não que eu esteja sendo autobiográfico.

Isso porque os quadrinhos de super-heróis, com o passar do tempo, ainda que continuem sempre ligados a infância por nascerem de conceitos e fantasias básicos e que qualquer garotinho pode entender – identidades secretas, super-poderes, salvar o mundo – acabaram, na caminhada em busca do respeito intelectual e de degraus mais altos em termos criativos, deixando pra trás aqueles que foram os responsáveis pelo seu surgimento e florescimento, ou seja, o público mais jovem. Tramas mais violentas, histórias mais complexas, abordagens mais soturnas, acabaram alienando o público infantil que, mesmo quando através de desenhos e filmes desenvolve a simpatia pelos personagens acaba encontrando nas HQs versões mais sombrias, violentas e complicadas daqueles personagens que na TV ou no cinema eram mais simples e divertidos.

Com isso os quadrinhos de super-heróis, talvez de propósito, acabaram se tornando, de uma forma meio confusa, “coisa de adulto”, sendo escritos por homens barbudos que cresceram lendo quadrinhos para outros homens barbudos que cresceram lendo quadrinhos, com toda a masturbação intelectual, reciclagem de conteúdo e obsessão pela cronologia que apenas uma indústria em processo de retroalimentação poderia ter. E claro, com níveis perigosamente baixos de expansão ou renovação de público. Afinal, se você notar que em 1995 a idade média dos leitores da DC era de 29 anos, 92% deles eram homens e mais de 60% eram solteiros, você nota que, até mesmo biologicamente, os quadrinhos são uma indústria que corre riscos. E eu digo isso de forma séria, até eu fiquei preocupado lendo esse lance agora.

O futuro? Mais do que buscar o digital – um passo essencial para permitir que qualquer um, em qualquer lugar, possa ter acesso a qualquer edição, gerando pontos de entrada para novos leitores e permitindo que em teoria seja tão fácil entrar no meio de uma série de HQs quanto de uma série de TV – é expandir os horizontes dos super-heróis e dos títulos das grandes editoras como um todo. Histórias para todas as idades, variados gêneros e grupos étnicos representados, diferentes gêneros e temas, diferentes criadores, opções de títulos que consigam ir desde o Batman do Frank Miller até o Homem-Borracha do Kyle Baker, passando por histórias da Mulher-Maravilha que suas filhas possam ler sem que acabem topando com sadomasoquismo a cada duas páginas e histórias do Super-Homem que você não precise ter terminado semana passada seu mestrado em Sociologia e religiões comparadas para entender. E claro, o retorno dos animais falantes da família Marvel. Sério, DC, sem eles essa coisa de quadrinhos perde pelo menos metade da graça.

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9 Comentários

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9 Respostas para “Sobre Flashpoint, soft reboot, robins estagiários e porque super-heróis deveriam ser coisa de criança

  1. #FORAQUESADA
    #BALDIJÁ

  2. “Aquaman sucks” – Dr. Rajesh Koothapalli, pHd.

  3. Como quadrinhos não são minha especialidade, eu tenho dificuldade em compreender a existência de uma família Marvel na DC. É como se “Família Restart” fosse o nome de um fã-clube do Sepultura.

    • Isso é um rolo que remete aos anos 50 e 60. Inventaram o capitão Marvel em uma editora qualquer. Ele fez muito sucesso. A DC compra os direitos sobre ele. A DC dá um pulo do gato confundindo alguns leitores da Marvel que acham que estão comprando HQs da Marvel – ok, essa parte não ocorreu realmente, mas seria muito engraçado se fosse.

      A marvel fica de mimimi com o nome e o Capitão Marvel passa a se chamar Shazam, às vezes.

      • joão baldi jr.

        É isso aí mesmo. Quando po Super-Homem começou a fazer sucesso apareceram um monte de novos super-heróis inspirados nele e o mais bem sucedido foi o Capitão Marvel, da Fawcett Comics (lembrando que nessa época a Marvel ainda se chamava Atlas e o Stan Lee nem tinha criado o Quarteto Fantástico).

        O problema é que o Capitão fez tanto sucesso que chegou a superar o Super-Homem e ter a revista mais vendida na época, além de seriados, spin-offs e todo o resto do pacote. Com isso a DC subiu nas tamancas e decidiu processar a Fawcett por plágio, ganhando o personagem na justiça e encostando o coitado.

        Aí então a Marvel, vendo que o nome estava “de bobeira”criou o seu Capitão Marvel e registrou o nome, fazendo com a DC não possa ter uma revista intitulada “Capitão Marvel”, ainda que o personagem continue tendo esse nome. Aí quase sempre as revistas usam o nome Shazam (que é o nome do mago que dá os poderes ao Capitão).

        E sim, o espaço da minha memória que é usado pra armazenar essas informações poderia sim ser dedicado a trabalho, utilidades domésticas ou nunca mais combinar uma coisa com a minha namorada e ficar confuso depois.

  4. Concordo com sua análise. É compreensível o reboot analisando o mercado, entretanto pegaram pessoas daquela época horrível de 90 responsáveis por vários títulos(cof cof Jim Lee e Liefeld). Não li todos, mas fazendo uma análise tosca, de 10, 3 são boas e o restos dispensável.
    A DC até tentou fazer uma linha para atrair o público jovem, como Static Shock, mas acho que não dará muito certo.

  5. rene

    Até hoje compro hq formatinho em sebos do rio de janeiro,a minha mina de ouro é logo ali em madureira,consigo encontrar várias hqs para as minhas madrugadas incansáveis a procura de aventura…x-men a divisão com a equipe azul e dourado complicado de acompanhar,homem aranha com os seus conflitos juvenis e os clones que apareciam,super aventuras marvel com a do justiceiro(diário de guerra) e do demolidor,as estórias secundárias era um lixo,só o meu irmão que se amarrava em ler ‘cardiaco’,um herói com problemas no coração.E a DC comics, não sei por que ora bolas eu comprava super boy…batman era maneiro,quando ele ficou paralisado e os sumiços das crianças do rio,aventuras fantásticas…

  6. isso não é um post, é um tratado comercial e intelectual que deveria ser encaminhado com urgência à DC Comics. até eu me senti responsável pela “quase-morte” desta indústria, agora.

  7. João o importante nisso tudo é saber que ainda há esperanças para o mercado de quadrinhos pois o Liefeld anunciou que todos os seus personagens da Image voltarão a ter histórias.

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