Breves soquinhos que a vida dá na sua autoestima enquanto ela está distraída: casos #55 e #56

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a moça hostil do caixa: quase sempre tudo começa com alguém trabalhando muito feliz. é a moça do caixa, é a recepcionista do médico, é a vendedora da loja, é a garçonete do bar. ela atende animada o velhinho que tem cachorro, ela fala que não tem problema nenhum o rapaz ter vindo sem a carteirinha, ela garante que vai achar o tamanho certo do calçado, ela serve o suco de laranja com carinho e ainda oferece chorinho – “bebe rápido que tá transbordando e ainda tem mais aqui na jarra”. você nota que ali tá uma pessoa que tá tendo um dia bacana, que tá feliz de trabalhar, que tira satisfação da sua atividade, que mesmo na dureza do capitalismo ainda rima mais valia com alegria. a fila vai indo, os clientes vão passando, mas a felicidade continua, o ânimo persiste, o clima é de alto astral e parece que nada vai abalar a paz de espírito daquela pessoa no trato com os clientes naquele dia. até, é claro, que chega a sua vez.

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Da mecânica quântica do “você tá meio esquisito”

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poucas frases, na vida da pessoa adulta, são mais aterrorizantes do que o “tô te achando meio esquisito”. claro, existe o pânico clínico de um “os resultados dos exames chegaram”, existe o abismo primordial prático de um “quando terminar isso aí pode passar na minha sala” e existe o nível sádico de tortura emocional de um “preciso conversar uma coisa contigo mais tarde mas agora não posso falar” seguido de seis horas de espera, mas poucas construções tem tanto potencial pra abalar a psique humana da mesma maneira que um “você tá meio estranho hoje, não tá não?”.

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Dois novos referenciais de desconforto profundo na relação com outras pessoas

pivot
o paradigma da carona
: daí que você pediu um favor. não é um grande favor. você não pediu um órgão pra transplante, não pediu pra pessoa cuidar dos seus filhos enquanto vai pra uma guerra, não pediu pra um plebeu que é impresionantemente parecido com você fingir ser rei enquanto você vive como um camponês pra conhecer melhor seus súditos. não, você pediu uma coisa simples. uma carona, um lugar pra dormir durante a noite, uma ajuda pra montar um guarda-roupa. e a pessoa, gente boa, amiga, prestativa, aceitou, claro, eu ajudo, que isso, a gente é bróder, aqui é parceiragem, é parceria + caradagem. e tudo começa bem. a carona chegou na hora, o sofá é bacana, a pessoa trouxe até a própria chave de fenda. você tá agradecido, você tá feliz, você tá fraterno.

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Mini-conto #22 – “Quatro momentos em que Adolfo queria dizer alguma coisa para Patrícia e acabou não dizendo, porque vocês sabem como são essas coisas″

capa blog
era novembro, era o segundo encontro, era ela rindo com o copo de cerveja na frente do rosto. ela era linda, o sorriso era lindo, a cerveja parecia mais gostosa, o bar parecia melhor, as buzinas do trânsito pareciam tocar uma canção, a vida era tão parecida com uma produção da disney que ele estava surpreso de nem ele e nem ela terem como amigo um animal falante. ela ajeitou o cabelo, olhou pra ele, perguntou se estava tudo bem. ele queria dizer que estava tudo ótimo. ele queria dizer que tudo estava muito ótimo. ele queria dizer que na verdade ele nem tinha ideia do quão não-ótimas as coisas estavam antes porque ela tinha criado pra ele um novo referencial de ótimo, e agora ele teria que recalcular tudo que ele já havia considerado ótimo baseado no quão ótimo aquele momento era e ele desconfiava que nenhum outro momento já havia sido tão ótimo porque nenhum outro momento tinha tido ela, tinha tido aquele sorriso, tinha tido aquela ajeitada de cabelo, tinha tido aquele nariz tão pertinho do dele. ela perguntou de novo. “tá tudo bem?”. ele respondeu “opa, sim, tinha engasgado aqui com a espinha do peixinho”. eles tavam comendo batata frita.

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Breve adendo ao dicionário de situações chatas que a gente vive por tabela

todd bojack

sempre acontece de madrugada. você tá ali no intervalo de um filme triste da sandra bullock, na pausa de um momento triste do desenho bojack horseman, no final de uma partida triste do pes 2015 (como são ruins os gráficos do pes 2015, meu deus do céu). tira o celular do bolso casualmente enquanto pega uma água, dá aquela conferida no instagram, passada de olhos no facebook, desiste do whatsapp porque no grupo da pelada ressuscitaram o vídeo em que um peixe pratica sexo oral num cara e você não tá vivendo um momento emocional que te permita assistir essas imagens outra vez. chega no twitter, puxa a barrinha pra baixo, e lá está, aquela cena que é tão clássica pra virada de sexta pra sábado na internet quanto a origem do batman é pra uma hq da dc, quanto o “ganhar da argentina é sempre mais gostoso” está pras eliminatórias sulamericanas: a gatinha pagando de carente na rede social.

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Sobre duas lições aprendidas em um voo da Tam, o pior ser humano do mundo e a webcelebridade Inês Brasil

old plane

lição #1: nunca acredite que ja viu de tudo sobre um certo tema, conceito ou situação.

daí que você viaja bastante de avião. tem namoro à distância, tem viagem de trabalho, tem parente fora, tem férias, graças a deus que tem férias, tem bastante viagem. e daí você acha que já acostumou com aeroporto, já pegou as manhas do avião, já se ligou no mistério no que tange ao transporte aéreo no brasil. só vai pra perto do portão quando o voo tá confirmado, tem malinha do tamanho exato do bagageiro, sabe que a pressão funciona tanto com um funcionário da gol quanto propostas de acordo do prometor funcionam com um integrante da cosa nostra.

ao mesmo tempo, pelo tanto de viagens que já fez, você também começa a achar que já viu tudo de escroto que pode acontecer num aeroporto. o cara tentando entrar no avião com uma pizza pronta, o cidadão fumando na poltrona, a senhora que vomitou do seu lado, mudou de poltrona, você tentou mudar de poltrona, a comissária não deixou, você viajou cheirando vomitinho, o campeão tentando colocar uma prancha de surfe no compartimento de bagagem, o passageiro que incentivava o filho a chutar mais forte a poltrona da senhora da frente. na sua cabeça filhadaputice era cambalhota e você era o cinegrafista do cirque du soleil. não tinha como te impressionar. Continuar lendo

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Mais dois momentos de saturação das redes sociais que testam um pouquinho demais o nosso caráter

dinesh

o elogio negativo: você tava até com uma certa vontade de assistir o filme. tinha visto o trailer, achado bacana, pinta de ser interessante. quando o primeiro amigo falou bem, você pensou aquele “ah, é bom mesmo então, né?” mas naquele sábado tava ocupado, não deu pra ver. na semana seguinte mais amigos elogiaram, cada vez com mais ênfase e você ficou “eita, mas deve ser top demais nesse caso”. mas os compromissos foram se emendando, o tempo foi escasseando, e os elogios tomaram também as redes sociais, cada vez com mais intensidade. “um filme que todo mundo devia ver”, “o melhor filme do ano”, “muito melhor que o filme x ou y”. você, que gostava do filme x ou y, que acha que o ano ainda tá muito no começo, começa a pensar que “ok, não tem como ser tão bom assim”. quando alguém diz que é um filme “obrigatório” e que “se você não gostar você não sabe o que é cinema”, você sente a sua curiosidade rapidamente se transformando num napolitano emocional com os sabores birra, antipatia e desconfiança, tudo servido numa taça com confeitos e até mesmo calda quente. quando começam a sair os textões no facebook, as resenhas emocionadas, as pessoas no twitter trocando o user delas pra nome de personagens do filme, você já está tão contra o filme que quando finalmente vai ao cinema pra assistir precisa comprar duas entradas, uma pra você e outra pra sua má vontade, que já assumiu um corpo sólido e ainda come quase toda a pipoca. você, claro, gosta do filme, era bom mesmo, mas nunca admite abertamente e evita discussões sobre o assunto por uns dois anos.

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Mais dois intensos adendos ao intenso catálogo pessoal de momentos de frustração intensa

bruce

# na linha das grandes palavras de consolo que não servem exatamente pra te consolar, junto com “gosto de você, mas como amigo” e “poderia ter sido nos dois braços, né?”, o famoso “o senhor tem razão mas não podemos fazer nada” tem a intenção de atenuar uma verdade profundamente negativa – não poderem fazer nada – com uma informação que em tese deveria ser positiva – você ter razão. o problema principal com essa lógica, a de que você se sentiria menos chateado de ter ido ao banco pra nada/pago em dia e ainda assim cobrarem juros/ter ficado uma hora no telefone pra não resolver seu problema, é que nesse tipo de situação ter razão não é um atenuante mas sim um agravante para o quão louco das calças você vai ficar com essa palhaçada. 

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Você não é o que você ouve (ou lê, ou assiste) ou “Rob Gordon estava meio errado”

falamsana

Seres humanos são criaturas complicadas. E não falo apenas por todos os momentos em que você vê alguém fazendo algo absurdo, inexplicável ou apenas constrangedor e se vê coçando a cabeça e dizendo “é, complicado…” mas porque somos realmente complexos, em qualquer nível de análise.

Temos traços de personalidade conflitantes, atitudes contraditórias, um processo de comunicação cheio de sutilezas e nuances, uma variedade de características positivas e negativas imensa demais para ser realmente catalogada. Como eu já disse, somos complicados.

E por isso um recurso que sempre usamos, pra lidar com as outras pessoas e com toda a complexidade que elas representam, é a generalização, a simplificação, que é a nossa maneira de deixar de lado toda essa complicação e tirar daquela pessoa uma sinopse, uma imagem aproximada, sem ter que navegar em todos os detalhes que formam aquela personalidade. Por exemplo, Pedro não é “um cara tímido porém carente que lida com suas inseguranças usando o humor como escudo”. Pedro é “metido a engraçadão”. E pronto.

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Uma coisa que aconteceu comigo semana passada no metrô e que, se eu fosse convidado pra participar de uma dessas coletâneas do tipo “I love rio” seria a trama do meu segmento

city of god

daí que eu tinha saído do futebol lá na tijuca e entrei no metrô. no rosto aquele cansaço e aquele desespero que apenas o atleta de meio de semana e o jogador profissional márcio araújo conseguem demonstrar, o corpo como uma imensa pokebóla contendo dentro dela um pokemon chamado “dor” que falaria apenas “dor dor dor dor…arrependimento!”.

por ser a primeira estação as cadeiras tão vazias, sem aquele dilema moral de sentar ou não, então pego uma cadeira perto do final do vagão, me sento, coloco minha mochila do lado, vou dar aquela respirada funda que apenas pessoas cansadas e psicopatas de filme dão, e o metrô vai chegando na segunda estação. logo após ele chegar, eu, já respirando normalmente, decido pegar um livro na mochila e começo um elaborado processo de busca arqueológica porque apenas vou jogando as coisas lá dentro, sem muito critério. Continuar lendo

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