Book Review #1

Johnny Vai à Guerra

Dalton Trumbo

Publicado originalmente em 1939

Cotação: 6/8

A vantagem de se escrever um livro sobre os problemas da guerra é que dificilmente você vai ficar anacrônico ou datado. Afinal, junto com os polegares opositores, os iogurtes reguladores de intestino e o orgasmo simulado, o conflito armado sem razões lógicas é uma das coisas que diferencia a humanidade do resto dos habitantes do planeta. E “Johnny got his gun”, escrito pelo norte-americano Dalton Trumbo em 1938 e publicado em 3 de dezembro de 39 (dois dias depois da guerra realmente começar para os americanos) é, mais do que um livro sobre a guerra (ou como classifica a própria editora, sobre “pacifismo”) um livro sobre deixar que cada um de nós tome suas próprias decisões e defina o rumo de sua vida.

O livro conta a história de Joe Bonham, um jovem norte-americano do interior convocado para lutar na Primeiro Guerra Mundial e gravemente ferido em uma das ações de seu pelotão. Por gravemente ferido leia-se: totalmente amputado em relação a braços e pernas, sem audição, sem boca, sem rosto, sem olhos e tendo que ser alimentado por um tubo. É, esse não é um livro alegre, se você chegou a pensar nisso.

A história começa com Joe voltando a consciência em um hospital, sem lembranças nítidas do que aconteceu, se recordando de momentos desconexos da sua vida. O que seguimos deste momento em diante é o protagonista percebendo passo a passo todas as mutilações que sofreu, sentindo cada pedaço de si e de sua vida sendo perdido, assim como seus sonhos e projetos para o futuro, ao mesmo tempo que recorda de momentos importantes do seu passado.

Trumbo constrói (e reconstrói) esses momentos de perda da forma mais dolorosa possível, intercalando recordações doces como uma noite com a namorada, uma lembrança de felicidade num jantar de família, com a percepção da perda de uma perna e da impossibilidade de algum dia falar novamente. Vemos a luta de Joe para conseguir coisas simples como marcar o tempo ou tentar se comunicar com o mundo exterior, enquanto reflete sobre o próprio estado e tenta saber se está realmente consciente ou não (pense em como seria complicado apreender a realidade sem boa parte dos seus sentidos.)

O autor se concentra menos em descrever como a guerra é terrível e se foca mais nas perdas que ela causa. Isso fica claro pela quase ausência de “cenas de guerra” propriamente ditas, descrições de campo de batalha, missões e outros desses momentos comuns em livros sobre conflitos armados.E essa estratégia funciona, tanto que as reflexões de Joe, os resultados que a guerra causa nele, cada momento de perda e cada percepção de sofrimento e derrota, causa mais choque do que qualquer descrição de granadas explodindo ou tiros de metralhadora, porque afeta o leitor em qualquer situação. Você pode nunca ir a uma guerra, nunca nem passar perto de uma, mas ainda assim a idéia de uma mutilação ainda pode povoar seus pesadelos.

A mensagem principal, mais do que pacifista, se refere ao direito de cada um de definir seus objetivos, de decidir se e pelo que lutar. O problema talvez não seja a guerra, o conflito em si, mas o poder que permite a outros decidir quem luta pelo que, usando vidas como fantoches e mandando para o front pessoas que vão morrer por conceitos abstratos usados como bandeira para interesses políticos e financeiros. Ou seja, nada parecido com qualquer coisa que possamos ver hoje em termos de política internacional.

O livro segue, apesar de seus quase 70 anos de idade, como uma boa obra para qualquer um que deseja compreender os horrores da guerra e a crueldade de mandar jovens para o campo de batalha. Ou apenas deseja arrumar uma boa desculpa pra não se alistar. Excelente livro, ainda que pouco divulgado no Brasil (sua segunda edição nacional foi lançada em 2003), “Johnny vai à Guerra” é definitivamente um livro a ser lido. Mas não antes de embarcar naquela missão para a África, claro.

Em outras mídias:

– “Johnny vai à Guerra” já teve duas adaptações cinematográficas, uma em 1971, dirigida pelo próprio Trumbo e outra em 2008. Que evidentemente não foi dirigida pelo próprio autor. O protagonista dessa nova versão é Benjamin Mckenzie, o Ryan da finada série “O.C.”

– Em 1940 o livro foi adaptado pela rádio NBC com produção e direção de Arch Oboler. James Cagney fez a voz de Joe.

– O livro também foi adaptado para o teatro e vem sendo representado desde 1982, tendo Jeff Daniels como um dos atores que já interpretaram o papel principal.

– No clipe de “One” do Metallica, são usadas cenas da versão de 1971 do filme

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5 Comentários

Arquivado em Book Review

5 Respostas para “Book Review #1

  1. ThiagoFC

    Metallica rules!!!

    * Tá, admito: só li a última linha do seu texto (mas foi uma ótima linha, se isso te serve de consolo!). Prometo que leio tudo depois.

  2. ThiagoFC

    Eu já tive a impressão que a música do Metallica era sobre solidão. Talvez pelo verso “Now the world is gone, I’m just one”… Não deixa de ser uma face meio claustrofóbica do horror

  3. Eu li todo o texto. E agora quero ler o livro porque ainda tô confusa (sempre fico confusa quando tento imaginar coisas que estão fora da minha realidade… tipo tentar pensar numa cor que não existe e que não se parece com nenhuma das outras cores).

    Tentei achar o livro na biblioteca. Tem um livro do Dalton Trumbo, mas não dá para saber qual (ou isso, ou eu nunca aprendi a procurar livros na biblioteca)

    http://alexandria.cpd.ufv.br:8000/cgi-bin/gw_46_4_2/chameleon?host=alexandria.cpd.ufv.br%2b1111%2bDEFAULT&search=KEYWORD&function=INITREQ&SourceScreen=INITREQ&sessionid=2008070216331722490&skin=default&conf=.%2fchameleon.conf&lng=pt&itemu1=1003&scant1=TRUMBO%20DALTON&scanu1=1003&u1=1003&t1=%0199462&elementcount=3&pos=1&prevpos=1&rootsearch=3&

  4. Eu li todo o texto. E agora quero ler o livro porque ainda tô confusa (sempre fico confusa quando tento imaginar coisas que estão fora da minha realidade… tipo tentar pensar numa cor que não existe e que não se parece com nenhuma das outras cores).

    Tentei achar o livro na biblioteca. Tem um livro do Dalton Trumbo, mas não dá para saber qual (ou isso, ou eu nunca aprendi a procurar livros na biblioteca).

  5. Nunca ouvi falar neste livro. Mas achei interessante o assunto, porque esses dias estava assistindo Boardwalk Empire e tem uma cena (no 7° episódio) em que um médico conversa com um cara que lutou na 1a Guerra e fala sobre uns testes realizados pelo governo, para saber a condição em que esses soldados voltaram da guerra. Um deles não tinha o olho esquerdo, uma coisa assim, bem tensa!

    Achei interessante o fato de o autor ter escrito, também, Spartacus e A Princesa e o Plebeu!

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