Song-Book Vol. 1 – Yesterday

Ele precisava compor uma música. Uma música romântica, no caso. Uma balada, daquelas emocionantes, como as que essas bandas de metal lançam, todo mundo ouve e depois a banda fica arrependida porque a imagem de grupinho meloso acaba arruinando todo o conceito metaleiro que eles tinham. Mas não saía nada. Quer dizer, na verdade saía sim. Ele se sentava, pegava o violão, papel, caneta, e em cinco minutos tinha composto duas músicas do CPM 22. Era quase assustadora a facilidade com que as palavras surgiam, sempre rimando “alguém” com “também” e “perder” com “você”. Mas ele queria uma coisa diferente, uma coisa legal. Afinal, a Taís merecia.

Analisando mais friamente, na cabeça dele Taís merecia tudo. Não era por ser o primeiro, mas era o melhor namoro de todos: a garota mais linda da série, tinha um Play 3 em casa e, em dois meses, ele já tinha tocado nos peitos dela por debaixo do soutien! Pra um cara que até 3 meses atrás não tinha beijado ninguém, aquilo era sensacional. Era uma clara promessa de que, com sorte, antes do final do ano ele teria realizado dois sonhos, o de transar e fechar God of War antes da galera. E tudo isso com 15 anos.

Mas que música era boa o bastante? Aquele era o festival de final de ano da escola e ele queria fazer uma surpresa, queria dar uma música de presente pra Taís. Estava sentado a horas e não conseguia escrever nada que não soasse emo, gay ou emo e gay. Pensou em como os caras do Pink Floyd tinham feito pra compôr “How I wish you were here” e quase sentiu vontade de montar uma banda pra que um integrante pudesse sair e ele tivesse inspiração pra uma música legal como aquela. Mas não vinha nada. Depois de uma tarde inteira trancado no quarto conseguiu alguma coisa. Rimava Taís com feliz? Sim, mas ainda tinha uma certa graça, uma certa coisa que estava mais pra Los Hermanos e Paralamas num dia ruim do que pra Fresno num dia bom. Em suma, era uma droga, mas era o que ele tinha. E a graça era o presente, não a qualidade.

Estava feliz, a música pronta, pensou em aproveitar que a namorada não estava em casa pra jogar um pouco de Play3 com o irmão dela. O garoto era mala mas tudo bem, ele tinha 13. Todo mundo é mala com 13.

Chegou, cumprimentou o porteiro e entrou no condomínio. Foi caminhando, passou pelo playground e decidiu dar uma olhada na piscina antes de ir, provavelmente o Alex ia estar por lá e eles subiam juntos. Mas ele não estava. Na verdade a própria Taís estava lá, se pegando com o Rogério, um cara do segundo ano. E que provavelmente já tinha fechado God of War.

Andou até em casa meio sem rumo, pegou o violão e ficou sentado na cama. Ficou assim até pegar no sono e acordou no dia seguinte com a cara toda amassada, além de uma grande dor nas costas. Tomou um banho e saiu pro colégio. Era o dia do festival e ele ainda estava dormindo quando a professora mandou subir no palco e deu o violão na mão dele. Sentou, olhou para aquela semi-multidão composta por praticamente todo do colégio e antes de dar a primeira palhetada conseguiu notar Taís na platéia. Fixou o corpo, olhou pra frente e começou com “yesterday, all my troubles seemed so far away”…

Era um clichê, mas ele achou que tinha o direito. Foi então que veio a lata de coca-cola, de lá do fundo, meio cheia, na cabeça dele. Caiu desacordado, com um talho enorme na testa. Ninguém mais gosta de um clássico hoje em dia. E todo mundo se considera crítico…

Duas semanas mais tarde ele se juntou com Alex, irmão da Taís, e montou um grupo emo.

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7 Comentários

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7 Respostas para “Song-Book Vol. 1 – Yesterday

  1. ThiagoFC

    Na hora em que eu li que ele estava indo à casa da Taís sem ela estar lá, só pra jogar vídeo game, eu saquei que garota tava chifrando ele (sim, hoje em dia todo mundo se considera crítico).
    E minha noção de “Fresno em um dia bom” é eles todos decidirem cometer suicídio.

  2. Ah, eu sou previsível, nem tento mais disfarçar…Claro, não é um previsível “Gabriel Garcia Marquez”, mas é aquele conceito de que as coisas ruins acontecem, é óbvio que elas acontecem e bah, tá na cara que elas vão acontecer.

  3. Ah, sei lá, nem acho God of War tão bom…

  4. Se eu coloco Elifoot todo mundo ia achar que é auto-biográfico, Yuri.

  5. ThiagoFC

    Não quer colocar Elifoot? Disfarça e coloca o Championship Manager!

  6. Nathália

    Nossa… nunca tinha parado pra pensar nesse rima “perder” e “você”.
    Impressionante.

  7. É, cada um tem o fim que merece…

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