Book Review #2

Tarja Preta

Coletânea de Contos

Publicado em 2005

Cotação 4/8

Bem, como todos sabem existem várias coletâneas temáticas de contos. Na verdade eu não consigo pensar em muitas agora, assim de cabeça, mas eu imagino que devam existir… “Tarja Preta” é uma delas e fala basicamente sobre as drogas medicamentais mais pesadas, ou seja, os remédios de “tarja preta”, e suas implicações e funções na vida das pessoas. Lançada em 2005 ela mistura autores que podemos considerar “pops” como os roteiristas Adriana Falcão e Jorge Furtado, com autores respeitados nas rodinhas, como Luiz Rufatto e Márcia Denser, além do inclassificável (seja isso bom ou ruim) Jorge Mautner. Ah, e tem o Pedro Bial também (“Mas como assim, Bial?”).

O primeiro conto “Frontal com Fanta”, de Jorge Furtado, conta a história de um jovem que já na pré-adolescência começa a usar remédios tranqüilizantes e descobre a sensação de ficar invisível. O personagem é acompanhado durante internações, pirações,mistura de remédios com refrigerante de laranja e seu período em uma clínica de recuperação onde (*clichê mode on*) ele descobre o amor. Uma história simples, bem contada por Furtado, sem maiores pretensões, com alguns bons momentos, principalmente durante os surtos de “invisibilidade”.

“Serial Killer” de Adriana Falcão é provavelmente o melhor conto do livro, com uma discussão entre uma mulher que abusa de remédios, álcool e drogas, e seu cérebro, que paga o pato por cada problema e sofrimento da dona, com a morte de milhões de neurônios a cada surto depressivo ou briga com o ex. A autora consegue pegar um assunto que tem tudo para soar depressivo/mala e transformar em um texto leve, divertido e que acaba exatamente na hora certa. Me deu vontade de ler “A Máquina”, pra saber se ela escreve sempre assim.

Já o conto de Luiz Ruffato, “Sem Remédio”, se tornou realmente um marco pra mim em termos de literatura. Afinal, pela primeira vez na minha vida eu desisti de ler um conto depois de apenas 13 linhas. Sim, eu, que ainda que não seja um leitor criterioso, sou um leitor paciente, consegui ficar de saco totalmente cheio da história em menos de 15 linhas, um novo recorde para alguém que se divertiu lendo “A Cidade e as Serras” e acha “A Montanha Mágica” um livro emocionante (e porra, é mesmo, Hans Castorp é o cara!). Me deu vontade de ler “O Mundo inimigo” para descobrir se ele escreve sempre assim, e se ele escrever, nunca mais ler nada escrito por ele.

Isa Pessôa, a estreante do livro com “A Noite”, apresenta a história de uma editora de fofocas num jornal carioca que, após uma perceber que não consegue se lembrar de nada do que aconteceu na noite anterior vai tentando reconstruir seus passos em busca dessas memórias, sendo isso o gatilho para que ela relembre de vários outros momentos da sua vida. Se não for o melhor conto que você vai ler na sua vida, pelo menos é algo capaz de prender a sua atenção e te fazer sentir algum interesse real pela personagem. Ou seja, vamos dizer que é “legal”, e isso hoje em dia é muita coisa.

E aí vem o Bial, com “Dondon Experiência”, um conto envolvendo futebol de botão e marcas de remédios. O mais curto do livro, mostra um lado do autor/jornalista/apresentador/fanfarrão/narrador de clipe de auto-ajuda que eu nunca pensei que existisse: um lado bom. Uma boa história, bem contada, e pô, fala sobre futebol de botão, tem como não gostar?

“O Quinto Elemento”, de Márcia Denser, parece mais um trabalho memorialista do que um conto propriamente dito. Ou não. Se foca em um período específico da carreira da autora (ou não), quando ela tentou abandonar seu emprego para se dedicar totalmente à literatura. Ou não. O que, se você pensar que quase todos os grandes escritores clássicos eram ricos ou funcionários públicos, evidentemente não era uma boa idéia. (Ou era). E bem, ela descobriu isso. Denser é uma das escritoras clássicas da renovação setentista/oitentista da literatura nacional e, ainda que o tempo tenha passado, é uma mulher a ser lida. Ah, e tem umas anfetaminas ao fundo pra justificar a inclusão do conto no livro.

E o que dizer de Jorge Mautner? O seu “A Química da Ressurreição” é um exemplo clássico da literatura mautneriana: você basicamente fica o tempo todo sem entender nada. Eu sinceramente não sei quando ele está sendo irônico ou falando sério, não sei quando ele está escandalizado ou emocionado, eu apenas e simplesmente não entendo o homem. Exemplo: “O par de namorados enamorados que não se cansavam de ouvir a canção de Carlinhos Brown que tem os azuis de todos os blues maracatus na voz e que tem esta frase: “A namorada tem namoradao enamorado!”. Ele está brincando? Ele está falando sério? Eu sou burro demais pra notar a diferença? Eu devia ter fumado um antes de ler? (Bem, fumar eu não vou, tenho medo de ficar “despersonalizado”).

No todo, a coletânea tem seu valor, apesar de algumas inclusões “forçadas” como a de Márcia Denser e do meu momento de emoção com Luiz Ruffato. Recomendável, principalmente se você puder ler o conto do Mautner e me explicar aonde ele queria chegar com aquilo.

10 Comentários

Arquivado em Book Review

10 Respostas para “Book Review #2

  1. ThiagoFC

    Eu ainda fico impressionado com o fato da nota máxima da sua escala ser OITO….

    Mas a pergunta que não quer calar é: Quando VOCÊ vai publicar a sua coletânea de contos? (E lembre-se: “Na União Soviética, a coletânea de contos publica VOCÊ!!”)

  2. ThiagoFC

    Tá, eu juro que tentei… Mas mais uma vez eu escrevo um comentário aqui, e nada!

  3. O Mautner é incrível…

    Eu não entendo as músicas do Mautner, os livros do Mautner, as peças do Mautner…

    Eu não entendo o que ele fala, o que ele está pensando, as entrevistas…

    Ou ele é um gênio e a humanidade é muito burra pra ele (sinceramente, quem entende o Mautner) ou ele é simplesmente um maluco despropositado!

  4. Onde eu escrevi “…(…quem entende o Mautner)…” leia “quem entende o Mautner???????”.

    Ai, ai… Adoro meu jeito de pontuar as frases!

  5. João Luis Jr.

    Yuri, eu queria ver você conversando com o Mautner pelo msn.

  6. Pode colocar o Saramago junto, Jão?

  7. E coloco também o Eduardo, o gago digital. Ele digita repetindo sílabas…

  8. Sim, Eduardo, o único gago de MSN!!!

  9. É como se ele transcrevesse o meu jeito de falar. É medonho.

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