Sobre aceleradores de partículas e convites de casamento

Essa última semana foi uma daquelas esquisitas pra mim. Fatos confusos na vida pessoal, tensão no trabalho e dois eventos que mesmo sem nenhuma relação entre si e até mesmo com pouquíssima relação comigo, acabaram me fazendo pensar em um monte de coisas e mudar minha postura em relação a outras.

O primeiro foi o início do funcionamento do LHC, o maior acelerador de partículas do mundo. Além da minha natural curiosidade como fã de física teórica (sim, e daí?), uma outra coisa que me deixou fascinado foi o risco que vários físicos associam ao processo. Nem tanto pelos afamados buracos negros que o acelerador poderia criar, mas sim os “strangelets”, partículas exóticas que não existem em condições normais, mas poderiam surgir durante as experiências. Essas partículas têm a capacidade de, quando tocam o núcleo de um átomo normal, converter o átomo em “strangelet”, num comportamento “cancerígeno” da matéria, que levaria a uma reação em cadeia que consumiria o planeta todo. Legal, não?

O outro fato foi receber meu primeiro convite de casamento de uma pessoa da mesma geração que eu. Não que os noivos fossem exatamente os meus dois melhores amigos, mas são duas pessoas de quem eu gosto e com quem eu tive bastante convívio nos tempos do colégio (ainda que eu tenha ficado meio chocado por terem lembrado de mim pra cerimônia) e por serem da mesma idade que eu, o casamento me deixou bastante impressionado.

Mas qual a relação entre as duas coisas? Bem, a relação é que são duas provas de que o tempo está passando, terminando. Primeiro porque as coisas podem sim acabar de uma hora pra outra, seja por causa de um “câncer sub-atômico” corroendo o mundo, seja por causa de um atropelamento, seja por um pedaço de comida preso na garganta, seja por uma jaca que me acerte na cabeça. E depois porque o tempo está passando e eu às vezes não noto. Tenho 23 anos, estou prestes a chegar no duplo 12, ou seja, já vivi mais de um quarto da minha vida e fiz muito pouco do que eu esperava ter feito nesse tempo. Um trabalho do qual eu não gosto, um livro que nunca fica pronto, uma beliche na casa da minha mãe e todas as frustrações adolescentes, que vão desde não ter aprendido a tocar gaita até nunca ter ficado com uma ruiva e ter só um livro do Nick Hornby na estante.

Isso me fez ficar, como as pessoas mais próximas já notaram, ansioso. Eu passei a ter pressa. Não sei quanto tempo essa sensação vai durar, talvez apenas até semana que vem, quando eu vou deixar isso tudo de lado e a calmaria vai voltar, mas eu agora estou apressado, tentando correr. Não aceito mais demoras, não quero mais protelar decisões, não tenho a mesma paciência para as esperas. Acho que escrevi essa semana mais páginas do no último mês inteiro, vi mais filmes nos dois últimos dias do que na última quinzena e voltei a malhar, dormir nas horas certas e ler os livros que eu peguei na biblioteca. Resolvi algumas questões pessoais de forma totalmente forçada, com a sutileza de uma foice, tanto em família quanto fora, deixando um rastro de destruição estilo Braddock pelo caminho. Estou realmente resolvendo as coisas com pressa.

Como eu disse, não sei se isso é passageiro ou uma nova postura de vida (eu chutaria opção a, cravado), tanto que eu duvido que vá continuar escrevendo nesse ritmo, continue malhando por mais de dois meses, consiga ver tantos filmes sem ficar cego ou vá me tornar o terror das ruivas, mas admito que fazer as coisas me deu uma sensação de progresso que eu sinceramente não tinha faz tempo, ainda que eu saiba que é bastante falsa. Mas eu estou tentando aproveitar o ímpeto e não pensar tanto assim nisso. Nem que seja só pra chegar animado no casamento e tentar terminar esse bendito livro até o meu aniversário.

Mas independente do resultado, é legal ver as coisas acontecendo. E sempre posso culpar os malditos “strangelets” e o acelerador de partículas.

Anúncios

7 Comentários

Arquivado em Vida Pessoal

7 Respostas para “Sobre aceleradores de partículas e convites de casamento

  1. Cara, eu acho que eu tenho bastante propriedade pra dizer o que vou dizer. Então lá vai.

    Se você achou uma motivação (ou desculpa…) pra resolver assuntos pendentes na sua vida, ótimo. Pode ter sido um empurrão que faltava, mas provavelmente você poderia chegar “de A a B” sem isso.

    Por que se a aceleração de partículas for mesmo destruir o mundo, que diferença faz? E se não destruir (o que eu acho provável), ótimo, vc está se mexendo. Mas como já disse: dava pra vc se mexer sem o pretexto.

    Agora, quanto ao convite de casamento… Já tem várias pessoas da minha geração casadas e/ou com filhos. Da turma da faculdade já sei de 3 que casaram, e uns outros 3 com filhos (e não são as mesmas três pessoas). Dia desses fiquei sabendo q um ex-colega do colégio se casou, alguém q eu não tinha notícias faz tempos (e a última notícia era q o pai dele tinha morrido). Às vezes você ver o tempo passar e bate uma sensação de que está todo mundo progredindo, menos vc. Todo mundo se casa, tem filhos e arranja bons empregos, menos vc.
    E com o perdão do clichê: uma hora vc vai se assustar e ver que chegou sua vez. Sim, e isso vai assustar, mas não vai demorar mto até vc perceber que as mudanças foram pra melhor.

    Keep on rockin’ in a free world.

  2. Ah, e quando chegar a sua hora, vc vai ver que todas as gaitas, ruivas e livros do Nick Hornby têm menos importância (exceto Alta Fidelidade!). Só os filmes do Kevin Smith nunca perdem importância!!!

  3. Ei, e não é que eu acabo de ver no orkut q outra ex-colega de colégio se casou? E olha q essa ex-colega de colégio foi ser professora da minha irmã na faculdade….

    É um mundo louco..

  4. Sem análises comportamentais, discussões sobre o futuro ou reclamações sobre nossa pobre existência atual…

    Eu já fui padrinho de casamento 3 vezes… ESTE ANO!!!

    E pronto…

  5. Cara, acho que essa preocupação é similar para todos na nossa idade. Temos tanto a viver e ainda assim parece tão pouco. Não será na quantidade de filmes e livros que você devorar que a vida fará sentido. Mas na certeza, a cada noite, que você aproveitou aquele dia da melhor forma possível, mesmo que isso signifique 12 horas de Super Mario World no Super Nes.
    Enquanto você puder ter certeza de ter aproveitado o dia, que se foda os próximos 50 anos.
    Que se foda se amanhã eu farei o mesmo. O lance é agora cara.

  6. Bem… Ao contrário do Thiago FC, eu não tenho autoridade nenhuma nesse assunto. E, sinceramente, acho que nunca vou ter. Nunca vou ter feito tudo o que eu esperava ter feito porque eu sempre vou querer coisa demais.

    De qualquer forma, na escala de ‘deveres cumpridos’, eu tô muito pior que você. Não comecei a escrever um livro ainda (nem tenho um tema), também não comecei a monografia ainda (mesma coisa do anterior). Nunca beijei uma ruiva e não sabia quem era Nick Hornby até procurar no wikipedia e descobrir que ‘em seu trabalho ele utiliza frequentemente esportes, música, e as personalidades obsessivas de suas personagens principais.’ (e também depois que eu vi nos comentários que ele que escreveu Alta Fidelidade).

    (Eu adoro personalidades obsessivas… por que eu nunca li Nick Hornby?)

  7. Hum… Mas meu ponto não era esse. Ah sim! Meu ponto é que eu estou mais ou menos na mesma fase que você (mais uma vez… isso acontece com frequencia, né? Qual o seu signo?).
    Semana passada entrei na academia, decidi que eu ia resolver algumas questões pessoais que eu achava que não ia conseguir resolver, decidi que quero aprender fotografia direito e talvez até trabalhar com isso e consegui um estágio novo (que já mencionei) sendo que até janeiro eu não me julgava qualificada o suficiente para ser paga por qualquer trabalho e achava que não iam querer me dar um estágio nem se eu trabalhasse de graça.

    Daí fiz uma retrospectiva na minha vida e notei um padrão. Desde sempre, eu tive fases de atitude que iam evoluindo para uma fase de acomodação que evoluiam para uma fase de preguiça que evoluiam para uma fase de ‘como você pode ser tão inútil?’ que evoluiam para uma fase de ‘por que as pessoas convivem comigo? Eu sou um verme!’ que, por questões de sobrevivência, voltava desesperadamente para as fases de atividade que são realmente muito produtivas e das quais eu me orgulho bastante…

    E aí eu penso: por que eu não posso ser essa pessoa ativa e bem disposta e eficiente o tempo todo? Simples. Porque essa pessoa não existe sem a fase de desespero, sem o tempo para pensar em coisas que eu poderia estar fazendo, que eu tenho que fazer…

    Sei lá. Acho que são as minhas fases improdutivas que me dão algum rumo.

    Também não sei se eu fiz algum sentido. Mas viu que eu tô falando pra caramba? Normalmente, eu não falo tanto. Hoje eu puxei assunto com testemunhas de jeová que vieram me dar uma revista sobre as malícias da internet e sobre como eu poderia dar uma doação pra eles sem me sentir pressionada (ela segurou o envolope rosa no alto e ficou me encarando em silêncio depois que mencionou a doação).

    Tá!!!! Parei de falar!!!!

    Boa fase produtiva para nós!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s