Crônicas da ex-adolescência

3/20

“A garota da gaita”

Eu nunca me dei muito bem com as mulheres, fato. Não sou bonito, não tenho papo, sou meio gago e totalmente desprovido de qualquer senso de oportunidade, o que me torna um predador tão perigoso quanto a doninha, o hamster e um porquinho da índia cansado. Então eu, desde o começo da adolescência, me acostumei com a idéia de que eu provavelmente iria sobrar com freqüência nas festinhas, noitadas e shows e não foram muitas as  noites que fugiram a essa regra nada animadora.

Não que eu nunca arrumasse nada, claro. Em várias noites, fosse por sorte (muita), por mérito da bebida (muita) ou por se tratar de uma daquelas ocasiões em que até um panda verde com um saco de papel na cabeça conseguiria “pegar alguém”, eu até me saía bem, ainda que nada que me permitisse ter muitas histórias pra contar nas rodinhas ou motivos pra tirar onda. Em suma, eu sempre fui aquele cara que, assim como vários zagueiros clássicos, jogava totalmente na sobra. Se todo mundo conseguisse eu provavelmente (com alguma sorte, claro) iria conseguir, mas se alguém tivesse que ficar sem, pode apostar que seria eu. A não ser, claro, na noite da garota da gaita.

Tempos da faculdade, festinha. Eu solteiro (o que foi raro nos tempos da faculdade). Showzinho rolando, uma daquelas bandas B5, totalmente sem futuro. A bebida corria como o leito do São Francisco e as pessoas perdiam a razão rapidamente. Um amigo meu estava sem camisa no alto do balcão do bar, os outros todos chegando em alguém e eu lá, cara de paisagem, copo de cerveja na mão, contando com a idéia de que uma garota (assim como um soco numa briga dentro de um ônibus ou algo do tipo) iria acabar sobrando pra mim.

No canto, fazendo uma cara que variava entre o nojinho e o “me sinto como Flash Gordon no planeta Mongo”, estava uma garota branquinha, baixinha, cabelos castanhos, magrinha, o tipo que seria descrita como “gatinha”. E claro, em torno dela, a clássica roda de caras que “chegam chegando”. Eu, que não tinha nada melhor pra fazer e gosto de ver a vida pessoal dos outros como se fosse o Discovery Channel, fiquei encostado na bancada, reparando ocasionalmente na situação. E os caras foram chegando, chegando, chegando, e sendo repelidos um a um, sem nem mesmo poder começar um papo. Incluindo, claro, os meus amigos.

Chegamos num ponto em que as únicas pessoas da festa que não tinham chegado na garota eram as amigas dela, o baixista da banda (que era gay, acho) e eu. Surgiu então, como nos velhos tempos da sexta série, uma pressão idiota/sádica entre os meus amigos pra que eu tentasse algum tipo de abordagem, apenas pelo fato de que eu não parecia empolgado e a idéia era daquelas que nem a pau ia dar certo. E começou a chateação, a insistência, a pentelhação, o peteleco na orelha e as insinuações sobre eu ter uma opção sexual “discrepante”.

Eu, claro, fiquei rapidamente de saco cheio e disse que ok, ia lá falar com ela, tomar um corte brusco e voltar pra gente ir pra casa. Como eu estava com pressa, eu decidi que iria ser o mais idiota possível, pra ela me descartar rápido e todo mundo ir embora. Me preparei, respirei fundo, esbocei um sorrisinho de canto e mandei o que de pior minha mente podia oferecer.

“Oi, sabia que eu toco gaita?”

Disse isso e me preparei pra escutar um monte. Mas nada me prepararia para aquilo. Nada. Ela piscou algumas vezes, me olhou fixamente, sorriu e falou uma frase que eu acho que nunca vou esquecer.

“Sério? Cara, eu adoro gaita, qual é o seu nome? Vem cá pra gente conversar!”

Nessa hora eu fiquei estático. Primeiro porque eu não estava preparado pra conversar, depois porque nada daquilo fazia sentido e em último lugar porque, claro, eu não toco gaita. Fomos pro canto e ela desandou a falar sobre gaita, afinação de gaita, grandes gaitistas e coisas do tipo, enquanto eu abobado, replicava com o pouco que eu sabia sobre o assunto. Depois de sei lá quanto tempo de uma das conversas mais aterrorizantes da minha vida, ela disse que precisava ir pra casa, me deu um beijo no rosto, falou que foi um prazer me conhecer e me passou o telefone dela.

Voltei, orgulhoso (e sabendo muito mais sobre gaitas) para perto do meu círculo de amigos. O respeito nos olhos deles era evidente, assim como o total e absoluto choque diante da falta de sentido da situação, e enquanto entrávamos no carro ficava claro que eu teoricamente era quem tinha saído ganhando na noite (desconsiderando meu amigo que transou com uma mulher debaixo de uma mesa). É, era uma que eu tinha ganho. A noite da garota da gaita.

P.S: Eu é claro, perdi o telefone. E nunca mais vi a garota. Mas não vamos tirar meu mérito com detalhes…

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10 Comentários

Arquivado em Crônicas

10 Respostas para “Crônicas da ex-adolescência

  1. ThiagoFC

    Eu aposto que o cara que tirou a camisa era o Frank.

  2. Por que todo mundo adivinha que era o Frank? Caara, sinistro isso!

  3. Thiago Locutor

    Claro que o cara sem camisa seria o Frank.
    E arrisco mais, o cara que pegou a mina debaixo da mesa, foi o Pepeta?

  4. Padapri

    Esse é o meu garoto! =D

  5. hauehauheauheuahuhauehau!!!!

    Eu ia comentar que era o Frank também. Boa história!!!

  6. Pingback: Garoto Leucemia « Pano de Chão

  7. Victor

    heehiuheiuheuihe

    eu também tinha certeza que era o Frank!

  8. franciscampelo

    Vim parar aqui seguindo um link do blog da Elisa.
    Muito bom seu texto. Gostei demais. Depois volto aqui pra ler mais coisas.

  9. Da próxima vez ofereça um churro, como em Houve uma vez Dois Verões. Aí vamos ver se rola a conversa… Hahahaha

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