O Nariz de Cleópatra

“Ah, quem escreverá a história do que poderia ter sido?
Será essa, se alguém a escrever,
A verdadeira história da humanidade.”

Álvaro de Campos, “Pecado Original”

“Não pense em se. Se minha mãe tivesse duas rodas, você era neto de uma bicicleta”

Seu João


Lembro bem que uma vez ouvi de alguém a tese do “Nariz de Cleópatra”. Na verdade acho que foi em um filme. A questão é que diziam que, se Cleópatra tivesse um nariz maior, um pouco maior, o bastante para ser esquisito, toda a história da humanidade seria diferente hoje. A não ser, é claro, que Julio César e Otávio Augusto tivessem uma queda por narizes grandinhos, o que jogaria toda a tese por terra, mas não pensemos nisso agora. O que conta é a idéia de que pequenas mudanças, pequenos desvios no momento certo (ou errado) poderiam causar mudanças gigantescas, e tudo que existe hoje se formou por uma intrincada rede de coincidências, desastres, desvios, atitudes equivocadas e impensadas.

E quando falo isso não estou pensando nas grandes mudanças, como se Napoleão tivesse tentado invadir a Rússia durante a primavera, ou a União Soviética tivesse conseguido sobreviver até hoje. Não, falo de coisas pequenas, mínimas mesmo, pequenos desvios de rota dos quais nunca nos daríamos conta e sobre os quais nunca paramos para pensar.

Eu, por exemplo, provavelmente só fiquei com a minha ex-namorada porque um amigo meu apanhou em um show. Isso porque no dia desse show, eu, recém-chegado na faculdade, estava interessado em outra garota, conhecida minha, já que nem tinha sido apresentado á minha atual ex-namorada (existe isso?) naquela época. E lá estava eu, me preparando para abordar essa outra garota, acreditando piamente nas minhas chances de êxito (ou um pouco menos), quando meu amigo me diz que vai pra frente do palco. Eu sinceramente teria concordado mesmo se ele dissesse que ia de pedalinho para o inferno, portanto apenas soltei um “ahh…vai então” e fui tentar a aproximação. Antes que eu piscasse, ele voltava, mancando, com um joelho do tamanho de um melão (e o outro substituído por um melão) pedindo que eu desse uma força pra que ele fosse pra casa. Apesar da imensa vontade de mandar que ele fosse de mini-buggy para o Cazaquistão, resolvi ajudar o companheiro em situação desagradável. Dois dias depois eu iria começar a conversar com a minha ex-namorada, e então as coisas iam tomar outro rumo totalmente diferente.

Mas o que poderia ter acontecido? Apenas um fora, e a história tomaria naturalmente os rumos que tomou? Teríamos nos apaixonado e estaríamos juntos até hoje? Ou nós iríamos ficar e depois ela iria roubar o meu rim? Nesse caso, como em vários outros, é engraçado pensar no tipo de implicação que um simples fato bobo (se eu tivesse um amigo mentalmente estável, as coisas teriam acontecido de forma diferente?) pode ter nas coisas que irão acontecer. Cada escolha, cada possibilidade, cada pequena atitude idiota tomada por um bêbado, altera significativamente o futuro de toda a humanidade. Ou, vamos lá, um pouco menos. E às vezes é engraçado pensar em toda essa “possível história do que não foi”, pra entender aonde e em que ponto foi culpa dos outros (ou nossa) cada coisa que aconteceu.

Ou então você pode chamar o Ashton Kutcher, fazer um filme e depois fazer uma continuação horrível que só vale Erica Durance. Cada um com as suas escolhas…

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3 Comentários

Arquivado em Crônicas

3 Respostas para “O Nariz de Cleópatra

  1. Teoria do Caos, amigo, Teoria do Caos…

  2. ThiagoFC

    Bem que eu tava vendo que a história tava bem “Efeito Borboleta” (Cara, a Amy Smart é fantástica!).

    E essa história do ‘se’ é delicada mesmo. Mas ficar pensando sobre isso talvez só resulte em dor de cabeça.

    E outra coisa: o amigo em questão era o Frank?

  3. Pois é, depois descobriram que ela tinha o nariz adunco. E o mundo é como é.

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