A teoria do tempo cíclico

Bem, eu nasci no Rio. Quer dizer, na verdade eu não nasci no Rio exatamente, eu nasci em Nova Iguaçu. Quer dizer, na verdade, na verdade mesmo, eu nasci no Rio, tecnicamente, já que a maternidade ficava nas Laranjeiras, mas fui registrado em Nova Iguaçu (segundo a mitologia familiar porque meu pai achou que tinha fila demais nos cartórios da capital). Aí, após alguns anos morando na perifeira da perifeira do Rio (sim, eu morava num bairro afastado na já afastada cidade de Nova Iguaçu. Na verdade minha família não tinha uma casa, o termo correto era “cativeiro”), eu me mudei pra Juiz de Fora. Em Juiz de Fora eu vi coisas impressionantes como calçamento, escolas que ficam a menos de 30 km da sua casa e que é possível sim chegar até uma banca de jornal sem ter que pegar dois ônibus. E aqui eu fiquei dos 7 até os 18, o que faz com que eu me considere mineiro e juizforano ao invés de fluminense e novaiguaçuano. Juiz de Fora é basicamente a minha cidade, com suas mulheres lindas, seus bares cheios, seus shoppings ridículos e seu calçadão engraçadinho.

Mas pra fazer a minha queria faculdade de jornalismo eu tive que sair daqui. Fui pra Viçosa, um cidade próxima, onde eu aprendi que ser viçosense não é uma questão de nascimento e sim um estado de percepção. Afinal, em Viçosa todo mundo fala com todo mundo, a vida noturna custa 5 reais (e você ainda volta com troco) e os filmes saem no cinema depois de saírem em DVD. Viçosa é uma realidade paralela onde as caixas d’água têm cerveja, a alimentação é baseada em salsicha e miojo e se você falar o nome de uma pessoa ao contrário ela desaparece.

Só que em 2007 eu me formei e tive que voltar pra Juiz de Fora pra procurar emprego, uma busca tão sucedida quanto a busca por um fã de Lynird Skynird na região de Nova Iguaçu em que minha avó mora. Depois de um ano dando murros em ponta de facão, eis que começo a passar em concursos públicos. Três pra ser exato. E pra me gabar um pouco. Um deles era o emprego dos sonhos de mamãe*, o de assessor de comunicação da Petrobras. E um dos outros era na Caixa, acho que na função de caixa. Provavelmente para trabalhar dentro de uma caixa. Ok, vou parar. Mas como a Petrobras atrasou as convocações por conta da crise (não essa crise. ou essa crise. é essa crise.) eu acabei sendo chamado antes pela Caixa. E pra onde eu fui chamado? Viçosa.

Uma chance de matar as saudades de uma cidade onde eu gostei muito de morar, de ver como é ser solteiro em Viçosa (afinal, eu passei a maior parte do meu tempo de curso namorando), e de experimentar a vida numa cidade universitária tendo dinheiro pra mais do que salsicha, miojo e cerveja Nova Schin. Uma chance de, num certo nível, fazer as pazes com os problemas que ficaram por lá, fechar assuntos pendentes e poder encerrar meu ciclo na cidade. Uma boa, pra dizer o mínimo.

E ao que tudo indica eu ficaria lá até o meio do ano, algo assim, já que é a previsão de convocação da Petro. Que ao que parece vai ser para…o Rio de Janeiro.

Ao que parece aí o ciclo se fecha. Faço as pazes com Viçosa, saio da minha cidade adotiva de um jeito legal e volto pra minha “cidade biológica” * pra finalmente tentar entender qual é a graça de lá (eu sinceramente não gosto do Rio, ainda que a ache a maior parte das pessoas até bem simpática, só tenho pelo Rio a mesma falta de tesão que tenho por todas as grandes cidades), e em breve poder me mudar pra outro lugar (ou não) já em dia com toda essa…bagagem emocional intermunicipal.

E claro, existe um bônus: Visconde do Rio Branco. Cidade onde eu passei os melhores carnavais da minha vida e para a qual, após anos de ausência, voltarei para o carnaval de 2009, na já lendária casa da avó do Yuri, para encerrar o ciclo de carnavais com chave de ouro. Ou prata. Ou bronze. Ou apenas bebendo e fazendo coisas absurdas.

As coisas estão assim então: ciclos que se fecham, pazes sendo feitas, coisas que ficaram pra trás sendo resolvidas. É um bom jeito de começar o ano, acho. Desde que, é claro, eu não precise acertar meus assuntos pendentes com os primos capixabas da minha mãe que tentaram me bater quando eu tinha 7 anos e contra quem eu prometi vingança. Afinal, fechar assuntos pendentes é bom, mas não vamos apelar. Aqueles caras são violentos

*O emprego dos sonhos da sua mãe é bem diferente do seu emprego dos sonhos, assim como, por exemplo, a mulher que a sua mãe sonha pra você é diferente da sua mulher dos sonhos. Exemplo disso é que a minha referência de mulher é a Amélie Poulain, que foi carinhosamente descrita por mamãe, após ver o filme, como “aquela garota meio retardadinha de cabelo engraçado”. Fofa, muito fofa.

*Cidade pra mim é como aquela história sobre pais: sua cidade não é aquela onde você nasceu, é aquela onde você foi criado.

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4 Comentários

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4 Respostas para “A teoria do tempo cíclico

  1. ThiagoFC

    Olha só, tá voltando para Viçosa? Bacana, ainda que seja temporário. Quem sabe você não pode voltar a fazer parte do Imprensionados? hehehe

    E se você for trabalhar na agência da Caixa no campus (agência na qual eu tenho minha conta poupança. Atualmente zerada, diga-se de passagem), tem como você me mandar um novo cartão para auto-atendimento? O meu já tá muuuuuuuito perto de quebrar há um bom tempo.

  2. Bem, como minha cidade é a cidade que eu nasci e meus pais são os que me criaram, a última parte em nada me afetou…

    Ah… VRB…

    E você é emo?

  3. Ah, que bonito, emprego dos sonhos(meus e da sua mãe), parabéns! Tô precisando de um desses, exatamente igual ao seu! Pode deixar que eu não vou ficar olhando muito com meus olhos de seca pimenteira para o emprego não ‘cair no chão’! Mas quem sabe um dia não ‘pipoco’ por lá… sonhar não custa nada…

    E olha só: sabe que eu tb nasci em New Iguaçu? Pois é, mas saí de lá antes de fazer um ano, então, como dizia meu ex chefe, ‘evita comentar esse acidente de percurso na sua vida’… hehe! Hoje vivo na princesinha do mar, um bom lugar pra ver o mar, e demais referências musicais pouco interessantes!

    De JF conheço basicamente a casa da minha tia, onde as refeições são sempre deliciosas… acho que também por isso não conheço nada além desse lar, doce lar… sair pra quê?

    Do Rio, digo que há grande chances de você mudar de idéia… Não sou uma ‘uhul, super carioca, mermão’, mas reconheço que a cidade tem seus encantos… também temos calçadões engraçadinhos!!

    Enfim, já falei demais… Muitas emoções nos próximos meses, hein? Espero saber das novidades por aqui! ;)

    “Come full circle…”

  4. Patrícia

    HA HA HA. pois eu sou iguaçuana e amo a minha cidade e tudo que tem nela. pelo menos la eu não corro o risco de tomar bala perdida quando for comprar pão as 5 da manhã. =D

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