Ao Gérson com carinho

 

Ou

Pensão Tyler Durden para pessoas com esquizofrenia aguda

 

“If you wake up at a different time, in a different place, could you wake up as a different person?”

 

 

           

Neste domingo eu voltei pra Viçosa. Eram cerca de 23:40 quando meu ônibus, cambaleante e fazendo ruídos estranhos, chegou na rodoviária de Viçosa e eu desembarquei. A viagem, é claro, foi como de praxe: dormi, ouvi música e um cara sentou do meu lado e tentou ficar passando a mão na minha coxa*. Me dirigi até o ponto de táxi e pedi que o taxista me levasse até o Hotel Rubi,. Ele riu, o que evidentemente não era um bom sinal, mas eu continuei mesmo assim.

 

Cheguei ao hotel extenuado, cansado, sem ânimo pra nada e destruído pra caramba. Ah, e querendo dormir também. Na entrada fiz o check in (quer dizer, eu só disse meu nome, mas vamos chamar de check in) peguei a chave e fui levado até meu quarto (na verdade jogaram a chave no meu colo e apontaram a direção do quarto, mas vamos deixar assim). Chegando lá notei que a chave não abria. Tentei mais uma vez, ainda não abria. Tentei de novo. Ainda não abria, fui falar com o senhor da entrada.

 

 

Chegando lá ocorreu o seguinte diálogo:

            “Licença…Essa chave não abre a porta…”

            “Tem certeza?”

            “Tenho.”

            “Vamos lá testar então”

            (Testando a chave virada pra cima)

            “Ah, é isso, ela tá virada pro lado errado”

            (Sorrisos nervosos)

            “Bem…é…não ta funcionando desse lado também…”

            “É…”

            (Silêncio constrangedor)

            “Então, é que eu tinha pedido por Gérson arrumar a fechadura, ela tava meio quebrada, vou buscar a cópia pra ver se funciona”

           

E então nós testamos a cópia. E nada. E testamos a cópia virada pro outro lado. E nada. E testamos a original de novo. E nada. E aí já eram meia noite e quinze. E nada. E claro, cada teste sem sucesso era intercalado com xingamentos ao Gérson, que não viu a chave, que não trocou a fechadura, que não conserta nada, que não trabalha direito, que não cumpre as suas obrigações e não jogou essa bola toda na Copa de 70. Então o senhor que estava me “ajudando” disse que ia buscar óleo pra ajudar. Em 10 minutos ele me volta, é claro, com um litro de óleo de cozinha, o que me fez pensar que ele ia fritar pipoca pra eu comer enquanto ele dava um jeito na porta. Mas não, ele molhou a chave, besuntou a fechadura, botou um pouco na língua (?!) e tentou de novo. O resultado, é claro, foi…nada.

 

 

E continuamos tentando, agora mais exaltados. Já era quase 01:00 e eu continuava trancado do lado de fora do quarto, mala nas costas, visivelmente nervoso e com a certeza de que iria dormir na saleta do hotel. Até que o velhinho diz que vai acordar o Gérson e sai. E não volta. Se passam 15 minutos. Eu começo a ficar chateado de verdade (antes eu estava só brincando). Olho a porta. A porta me olha. Vejo que o velhinho não está no corredor. Dou dois passos pra trás, preparo o ombro e dou uma porrada na porta. Ela abre, mostrando que Deus existe, só cobra bandeira 2 após as 23:00.

 

 

O velhinho retorna, com um pote de margarina (que eu nem quero pensar pra que era) e parece feliz por eu ter aberto a porta. Incrivelmente a fechadura não ficou quebrada, apenas aberta mesmo, e é possível abrir e fechar a porta por dentro, só por fora é que o problema continua. Resolvo deitar e só pensar nisso no dia seguinte.

 

 E chega o dia seguinte. Hoje. Acordo, me levanto, lavo o rosto e vou para a sala do café da manha. Chegando lá noto um funcionário e ele pergunta se eu sou o rapaz do 18. Eu digo que sim. Ele me fala que um funcionário está esperando pra falar comigo, vai consertar a fechadura, e chama o lendário e relapso Gérson.

 

 

Pela saleta, vindo em minha direção, chega o velhinho da noite anterior. Andando sozinho.

           

Ainda hoje me mudo pra outro hotel.

 

 

 

*Eu não entendo bem a dinâmica disso, mas algo nas minhas pernas parece atrair os participantes da AARA (Associação do Apalpadores Rodoviários Anônimos) de uma forma impressionante, fazendo com que eu sempre passe a viagem encolhido, com medo e tentando colocar as pernas pra fora pela janela. Desconfio que se eu causasse em pessoas do sexo oposto esse mesmo tipo de reação minha vida pregressa teria sido bem mais divertida.

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10 Comentários

Arquivado em Mundo (Su)Real

10 Respostas para “Ao Gérson com carinho

  1. ThiagoFC

    Acho que sei porque o taxista riu: a primeira regra sobre o Hotel Rubi é que você não fala sobre o Hotel Rubi.

    E ao ler o título do post, eu podia jurar que o Gérson em questão era o canhotinha de ouro da Copa de 70, autor da famosa Lei de Gérson (e achei que o post era sobre isso).

    E cá pra nós: você mudou mesmo de hotel?

  2. Yuri passando apenas para assinar a lista de pessoas que acharam que o post era sobre a Lei de Gérson!

  3. juninho

    Gerson? Gerson?

    Meu nome naum eh Gerson, Gerson eh a tintura q eu uso nos meus cabelos…

  4. Andrey

    Definitivamente faça um filme sobre sua vida. Certamente vencerá algum prêmio de “roteiro original”, porque certas coisas só acontecem com você mesmo.

    Ps: prometi que acharia telefone de repúblicas (?) de Viçosa. Estou procurando, ainda.

  5. erica l.

    hehe, começou bem, hein? Que perrengue! Mas às vezes eu até gosto de passar por essas esquisitices, só pra poder escrever sobre elas depois! Na verdade eu adoro pessoas e suas esquisitices, em geral.

    Sobre a associação de apalpadores anônimos, eles têm uma filial no Rio tb, logo você será muito bem recebido por aqui. :p

    Mas é sério, vou te contar, tenho trauma disso! Acontecia no ônibus que eu ia pro colégio, no segundo grau… Fui obrigada a levantar fazendo cara feia algumaS vezeS. ‘Nego’ acha que porque o ônibus está lotado você perde a sensibilidade ou a vergonha na cara, sei lá!

    Ah, e tinha um cara que dormia em mim nesse mesmo ônibus, quase todo dia. Mas esse era ao menos educado (além de visualmente agradável): chegava, sentava ao meu lado, cumprimentava, e ia cochilando, caindo, só faltava babar… Eu devo ter uma aparência ‘confortável’… o que, evidentemente, não é mérito algum!

  6. Cara, eu não te conheço e isso não é uma cantada. Mas se vc for quem eu to achando que é, então putz, passei a acreditar em coisas mirabolantes.
    Há um tempo, questão de uns anos, eu tive um daqueles momentos ” entre numa comunidade de orkut e clique no primeiro desconhecido que acontecer por lá” e foi batata num cara que escrevia pacas e patativas de bem. Lembro-me de um texto sobre futebol e de uma história sobre uma menina em uma locadora – um arquivo que eu baixei e li.
    Mas, com os reverses e reverberes do destino, meu pc foi formatado e eu perdi os links. Daí hoje, estava eu sentado em meu tédio no trabalho e fui fazer a mesma coisa de anos atrás – entrar numa comunidade e selecionar a esmo qualquer coisa – e deu no seu perfil. E dele fui parar aqui. Eu li todos os textos, reli, e pensei: só pode ser aquele cara por q tem o mesmo humor e as citações ao mesmo universo léxico-contextual-momentâneo-blá-blá-blá.
    Duas opções para isso:
    1. vc é o mesmo cara e então eu só confirmei que vc escreve pra caramba e que eu me divirto muito com seus textos
    2. vc não é o cara, eu paguei mico mas, ainda assim, isso não muda em nada o fato de vc escrever pra caramba e eu me divertir muito com seus textos
    é isso!

  7. Zé, não sei quantos caras escrevem sobre meninas de locadoras, mas, bem, o Jão tem um texto sobre meninas de locadoras…

    E vai arrumar coincidência assim lá no raio “quios” parta!

  8. hotel Rubim, e não Rubi. Talvez seja por isso q o taxista riu… ou então é pq aquilo seja uma continuação do famoso Alcântara.

  9. Thiago Locutor

    Grande joãozinho, teve fazendo o q em viçosa?

  10. Thiago Locutor

    Não se preocupe em responder minha pergunta. Li o post anterior e entendi.
    Maldito Google Reader que me faz ler tudo de trás pra frente.

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