Por uma vida real com retcon

O post de hoje é sobre retcon. Bem, como muitos de vocês podem não gostar de quadrinhos tanto quanto eu (shame on you!) eu acho que vou precisar explicar o que é retcon. Retcon quer dizer, a grosso modo, “continuidade retroativa”. Sim, eu sei, vocês ficaram na mesma. Mas então vamos explicar com mais detalhes. Como todo mundo sabe* quando os dois principais super-heróis da Era de Ouro dos quadrinhos, Super-Homem e Batman foram criados, na década de 30, as histórias ainda tinham uma forte influência da “estética” pulp. Ou seja, o nível de violência e “marginalidade” das tramas era muito mais alto. Por isso podíamos ver cenas como o Batman atirando em criminosos ou o Super-Homem se omitindo diante da morte eminente de bandidos. Algumas décadas depois, principalmente nos anos 50, quando os super-heróis passaram a representar “truth, justice and american way”, tudo isso foi varrido pra debaixo do tapete. Sim, mesmo tendo sido publicado, mesmo tendo feito parte da cronologia oficial do herói, aqueles fatos passaram a ser ignorados, aquelas histórias passaram a não mais “existir”. Ou seja, a continuidade foi alterada, retroativamente! (eu ouvi alguém dizendo aleluia? ah, ok, foi só imaginação minha, tudo bem…)

E eu, pensando bastante sobre a vida, o universo e tudo mais, concluí que é errado que apenas o Batman, o Super-Homem, a Mulher-Maravilha e o Capitão Marvel tenham direito a jogar para baixo do tapete o fato de que, respectivamente, já dormiram na mesma cama que o Robin, tiveram um super-macaco de estimação, perdiam os poderes quando eram amarradas por um laço e dividiram seus poderes com um coelho. Sim, todo mundo deveria ter o direito de reescrever suas biografias, excluindo histórias ruins, edições fracas, participações especiais ridículas, mudanças de uniforme esdrúxulas e pares românticos nada abonadores. E eu decidi começar, para dar o bom exemplo. Aqui vai então uma lista de cinco retcons essenciais para que a minha história pessoal funcione melhor e seja mais agradável para futuros leitores, além de me envergonhar menos. Façam as suas próprias listas e ajudem nossos biógrafos a ter um material um pouquinho mais decente pra trabalhar.

  • Eu só namorei uma vez na vida. E foi aquele namoro da faculdade.

  • Do meio da oitava série até o final do primeiro ano eu fui substituído por um clone e nada daquilo que aconteceu foi feito por mim. Na verdade era um ciborgue, não um clone. Não, era um gêmeo maligno vindo do futuro. Ok, um clone-gêmeo-ciborgue maligno vindo do futuro. Iiiiisssso.

  • Eu nunca gostei de Limp Bizkit.

  • Eu nunca torci meu braço, quebrei meu relógio e perdi uma calça tentando pular carniça por cima do canteiro enquanto estava na faculdade.

  • Minha mãe nunca me achou na casa da família Deschamps deitado debaixo da cama, de cueca, e com um cigarro apagado na minha orelha. E claro, não havia nenhuma poça de vômito no local.

*Quando eu, falando sobre quadrinhos, usar a expressão “como todo mundo sabe”, ela deve ser lida como “como eu gostaria que todo mundo soubesse”.


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4 Comentários

Arquivado em Vida Pessoal

4 Respostas para “Por uma vida real com retcon

  1. Que tal anular aquele JF Folia do Rally da Morte?

  2. Sério que o Batman dormiu com o Robin? Uau! Isso explica O Batman Eternamente com o Val Kilmer e o Chris O’Donnell. Ele tinha tetinhas, poxa! aehauheuaea

    Gostei dessa idéia. Vou fazer uma lista de retcons pra mim também depois.

  3. ThiagoFC

    Tá bom, vão aqui trechos selecionados para minha auto-biografia não autorizada, em retcon mode=on:

    * Eu não era fã de Leandro & Leonardo na infância.
    * Eu torço para o Corinthians desde o nascimento, e não após a conquista do título brasileiro de 1990.
    * Numa festa de aniversário de uma amiga da minha irmã na pré-escola (que eu também fui porque conhecia o irmão mais velho dela), na hora que todos os garotos ficaram vendo uma mulher trocando de roupa no apartamento da frente, em hipótese alguma olhei pro lugar errado e perdi a cena.
    * Eu virei à esquerda em Albuquerque.

  4. Minha vez:

    * Eu não tive CDs das Spice Girls, dos Hanson ou do É o Tchan.

    * Nunca usei batom pink ou vermelho-hemorragia na sexta-série.

    * Na festa em que um ex veio tentar um flashback comigo, eu não disse “me procure quando você estiver sóbrio” e fiquei esperando ele ligar no dia seguinte. Ao contrário, dei um soco que o deixou estirado no chão e mandei ele tomar no cu, derramando todo o copo de vodka que eu tinha na cabeça dele.

    * Eu terminei a IV Procissão da Comunicação completamente sóbria. Cheguei ao Leão pelas minhas próprias pernas, sem nenhum resquício de vômito e sem jamais falar nada que desabonasse a sexualidade dos coleguinhas.

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