A gente não nasce para o que é (e você não é o que você faz)

Baseado (novamente) em um post da Elisa

Como eu já comentei aqui no blog, eu atualmente trabalho num banco. Para ser mais específico, eu trabalho no setor de abertura de contas, onde eu verifico dados dos clientes, jogo no sistema e crio a conta, passando os dados necessários para o setor responsável. Esse é o tipo da função que exige um funcionário atento, para que nenhum detalhe ou dado incorreto passe despercebido (uma tentativa de fraude, por exemplo); comunicativo, para conseguir lidar com um fluxo grande de público e oferecer a cada cliente o que ele precisa; e que conheça a estrutura do banco, já que, por se tratar de um setor de atendimento primário, varias vezes é necessário repassar o cliente para outro funcionário, e para que esse repasse seja feito de forma correta, é preciso que a pessoa conheça quem é quem dentro da agência.

Agora vamos pensar um pouco: atento, comunicativo, conhecedor da estrutura do banco…isso te faz pensar em alguém? Bem, é possível que tenha feito, mas com certeza não foi em mim. Eu sou naturalmente disperso (“como assim a tartaruga fugiu? ela estava bem aqui!”), tímido (“…”) e sei tanto de bancos quanto sei de arquitetura cigana (até a porta giratória me confunde). Isso por si só já seria um…problema…pra que eu trabalhasse num banco, certo? Mas, claro, não é só isso. Ainda existem mais problemas. Um deles é que eu preciso vender certos produtos, tenho uma cota mensal de vendas. Esses produtos são seguros, títulos de capitalização, coisas desse tipo. E bem, eu sou um péssimo vendedor…Primeiro pela minha falta de assertividade, já comentada por aqui, depois pela minha incapacidade de vender algo que eu não conheço e não acredito (na verdade eu só poderia vender revistas em quadrinhos, partindo dessa lógica) e o nível “pequeno” de pressão por resultados. Sabe quando seu pedido atrasa no Macdonalds e alguém grita lá pra dentro que tem que sair um Cheddar “AGORA” ? Bem, a coisa funciona basicamente assim lá no banco.

E claro, tem o fator emocional. As pessoas lá não gostam de mim. Não, não estou me fazendo de vítima e nem esperava que todo mundo me adorasse, mas com o tempo eu fui notando que não, não gostam mesmo de mim. Não se trata de sempre me mandarem procurar as pessoas que estão de férias do banco pra pegar alguma informação, nem de me passarem os casos mais escabrosos (“ah, seu talão foi roubado por mafiosos russos cross dressers que exigem que um funcionário vá até Moscou de sunga usando uma tiara da Hello Kitty pra entregar os cheques de volta? Vai ali na mesa do João que ele resolve!”), ou mesmo de que todo mundo quebra o galho de todo mundo e o meu eu tenho que quebrar sozinho, nada disso. Isso eu aceitaria tranqüilamente, sério, eu entendo que o funcionário novo demora pra se enturmar. Mas acho totalmente desnecessário que todos saiam da copa quando eu chego ou que os seguranças fiquem travando a porta giratória quando eu entro só pra me zoar. Isso é infantil. Engraçado pra caramba e eu possivelmente faria o mesmo, claro, mas é infantil.

Por isso fica cada vez mais complicado manter a motivação. O trabalho já não é um sonho (sério, houve uma época em que eu ia achar muuuito legal ter três carimbos, mas essa época passou antes que meus dentes de leite caíssem todos), as pessoas realmente não parecem ir com a minha cara (exceto o pessoal da limpeza que, justiça seja feita, me trata muito bem. Mas poderiam parar de bater com a vassoura em mim quando passam pela minha mesa, seria uma boa), e eu já sou uma pessoa naturalmente desmotivada para atividades burocráticas, então a coisa se complica. Claro, existe a grana, que não é muita, mas é razoável e me deixou comprar meu notebook (e o venonzinho) e existe o fato de serem só seis horas por dia (ainda que todo dia eu tenha que sair escondido pra não ser “convidado” a fazer horas extras), o que me deixa com um tempo livre razoável pra fazer as coisas de que eu gosto, e me permite não ficar nervoso demais com o trabalho, mas a vida de bancário começa a me dar nos nervos.

Mas é apenas temporário e eu acho que vou sobreviver sem danos graves e sem começar a fazer como um funcionário de uma agência de uma cidade vizinha que está sempre murmurando frases como “hoje é um bom dia para morrer” e “gostaria que esse banco pegasse fogo”. É, acho que não vou ficar assim. Por falta de tempo, claro. Mas de qualquer maneira, se alguém quiser comprar um título de capitalização ou um seguro “AGORA”, é só me avisar. Iria me ajudar muito…

Atualização: Consegui vender meu primeiro título de capitalização. Minha chefe me criticou por ter demorado tanto.

Atualização 2: Minha chefe me cobrou mais vendas. 5 minutos depois da primeira.

Atualização 3: Minha chefe disse que eu sou relapso, desinteressado, não me esforço, não sei me vestir, me portar e que ela está muito decepcionada comigo. Ainda estou tentando me lembrar quando eu e ela namoramos…

Atualização 4: Minha chefe, na véspera do feriado, disse que espera que eu não passe do período de experiência (que termina no começo de maio) e que meu contrato não seja renovado. Eu disse que espero que ela tenha uma boa páscoa também…

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10 Comentários

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10 Respostas para “A gente não nasce para o que é (e você não é o que você faz)

  1. ThiagoFC

    Comentários por partes:

    “Mas, claro, não é só isso”.
    Depois dessa, você ainda pode tentar ser redator dos comerciais da Polishop.

    “As pessoas lá não gostam de mim.”
    Achei que você estava falando de clientes, e lembrei daquele conto seu, “O Dia em que Adriano encontrou Deus” (Acho que era mesmo esse o nome…). Boa história aquela, diga-se de passagem.

    E que chegue logo o telegrama (é sobre o concurso da Petrobras, né?).

    P.S: Esse seu porquinho é parente da porca do Ulisses?

  2. Juninho

    Naum entendi pq vc naum mandou sua chefe pra casa do caralho e falou q tbm espera q seu contrato naum seja renovado…
    Ou entaum vc poderia zua-la e dizer q vai fazer de td pra ficar soh pra tornar a vida dela um inferno…
    Eu ate gosto mais da segunda opçao…

  3. Burocracia é o caminho, a verdade e a vida…

    E sim, eu vou usar essa frase indefinidamente!

  4. É sério isso? :|
    Jesus.

  5. thaide

    Cara vc precisa fzr algo mais simples em sua vida……aha e sem chefe..

  6. o trabalho dignifica o homem. né?

  7. Caralho! Que bosta, hein? Quanto é um título de capitalização? Eu não tenho dinheiro, mas me solidarizei.

    Quinta-feira tem uma festa. Quinta-vip Circus. Normalmente, eu detesto esse tipo de festa. Mas agora pensei: quem sabe um pouco (muito) de alcool não me faz bem?
    Talvez faça para você também. Vou com uma amiga. Quer ir com a gente? Eu te ligo quarta pra confirmar.

  8. Caralho! Que bosta, hein? Quanto é um título de capitalização? Eu não tenho dinheiro, mas me solidarizei.

    Quinta-feira tem uma festa. Quinta-vip Circus. Normalmente, eu detesto esse tipo de festa. Mas agora pensei: quem sabe um pouco (muito) de alcool não me faça bem?
    Talvez faça para você também. Vou com uma amiga. Quer ir com a gente? Eu te ligo quarta pra confirmar.

  9. Vixe! Foram dois. Eu troquei o “faz” por “faça”. E ainda estou em dúvida se a palavra “solidarizei” existe.

  10. E eu que achava que eu não era muito bem visto no meu trabalho…

    Mudei radicalmente de ideia…

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