Anotações sobre meu tio

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Eu não sou um cara que saiba falar sério. Meu “senso de humor” não é charme, não é um traço de personalidade, não é algo que eu consiga controlar com um “on/off”. Na verdade ele está mais pra uma patologia, um mecanismo de defesa, acho. E eu realmente fico chateado com isso quando preciso falar sério. E hoje eu vou ter que pelo menos tentar. Eu perdi meu avô paterno ano passado, mais ou menos nessa mesma época do ano e admito que foi um baque e tanto. Eu sempre fui próximo dele e da última vez que nos encontramos tínhamos tido “a conversa” estilo “O poderoso chefão” em que ele passou pra mim a responsabilidade pela família, incluindo meus tios e meus primos, aquela coisa de que o neto primogênito se tornaria naturalmente o patriarca e tudo mais. Assustador. Ainda mais se você sabe como meus tios são. E ontem, no meio da tarde eu recebi a notícia de que meio tio Nilson, irmão da minha mãe, e que pra mim sempre foi praticamente um irmão mais velho, também faleceu.

Eu não sou um cara religioso ou mesmo alguém com fortes crenças espirituais. Eu sou bem lógico e frio quanto à vida após a morte, por exemplo. Eu não acredito em paraíso, reencarnação, sinceramente não consigo achar que nada disso seja verdade. Torço muito pra que seja, mas não acredito. Então eu não consigo o consolo de pensar que as pessoas de quem eu gosto foram pra um lugar melhor ou algo parecido, o que só me deixa a obrigação de lembrar delas e mostrar o quanto elas marcaram as pessoas que ainda estão por aqui. Por isso, para deixar claro que meu tio não vai ser esquecido e vai continuar existindo, pelo menos nos atos e na memória, eu vou fazer uma pequena lista com algumas coisas importantes que eu devo pra ele, que eu lembro sobre ele e que me ajudaram a ser quem eu hoje sou.

– A primeira revista em quadrinhos que eu li era do meu tio. Era uma edição de “Heróis da TV” com o Hulk, que começava com ele saindo de dentro de uma espécie de lago e eu li isso na casa da minha avó materna, quando ainda morava no Rio.

– O primeiro disco que eu ouvi sozinho era do meu tio, “Os grãos”, dos Paralamas.

– A pessoa que mais se orgulhava de mim, na face da Terra, era meu tio. Não que meus pais não tenham orgulho de mim, mas eles têm imperativos biológicos que os obrigam a isso, então é um outro caso. Meu tio sempre me apresentava para as pessoas como “o meu sobrinho jornalista. Esse garoto escreve pra caralho!”. Não que isso fosse impressionar ninguém, ou mesmo que fosse verdade, mas era a forma dele de mostrar que tinha orgulho de mim pelas coisas que eu gosto de fazer. E também uma das poucas formas de elogio que realmente me deixam feliz.

– Meu tio me emprestou “Christine”, do Stephen King.

– Meu tio, mesmo doente, já com problemas sérios em relação a bebida, construiu um sistema de alarmes para a própria casa usando sobras de fios e pedaços de um rádio. Eu disse pra ele que ele estava virando o Mcgyver e ele disse que o Mcgyver usaria bem menos fio.

– Meu tio era a síntese do cool em um ambiente extremamente uncool. Mesmo morando na periferia da baixada fluminense ele conseguia ser fã de Arquivo X, saber quem era John Byrne e discutir Watchmen comigo. Na verdade ele conseguia conversar sobre qualquer coisa. Eu, com internet e fazendo faculdade de comunicação, ficava pra trás numa discussão com meu tio que só via a primeira página dos jornais e trabalhava como frentista. Muito pra trás.

Isso são apenas pedaços, cacos mal escolhidos. Eu não vou conseguir resumir meu tio ou o que ele fez por mim em tópicos ou coisas do tipo. Possivelmente ele foi uma peça fundamental no fato de que eu seja quem sou, tenha os gostos que tenho e queira fazer as coisas que quero.  Sem ele eu tenho uma pessoa a menos pra quem mostrar as coisas que eu conseguir e uma pessoa a menos que acredita que eu posso conseguir grandes coisas. Acho que perdi de uma vez só um tio, um irmão mais velho e um amigo. Mas espero algum dia, conseguir as “coisas grandes” que ele esperava de mim. Pra que, se realmente existir algum lugar além desse aqui, ele possa, conversando com alguém, apontar lá de cima pra mim e dizer “aquele é o meu sobrinho jornalista. E o garoto realmente escreve pra caralho!”.

Até mais, tio.

(Espero, sinceramente, não voltar a falar sério nesse blog tão cedo. Por isso o próximo post será alguma forma bem pueril de humor pra que eu tente voltar ao normal)

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12 Comentários

Arquivado em Vida Pessoal

12 Respostas para “Anotações sobre meu tio

  1. Juninho

    Cara, vc sabe q não é o tipo de coisa que eu diria pra qlq um (não msm) mas eu realmente sinto mto por vc…
    Eu nem sabia desse seu tio, mas pelo q te conheço, dá pra imaginar lendo isso aqui…
    Tomara q exista um lugar melhor, e, msm não sendo seu tio, eu tbm, acho q vc escreve pra caralho…

  2. Você sabe como eu lido com essas paradas de morte e tal, então não vou me alongar…

    Você escreve pra caralho!

  3. Se existir um lugar, seu tio deve ter ficado bem feliz com essa postagem…

    Enfim, boa sorte.

  4. ThiagoFC

    É cara, fico triste por você. Muito chato isso.

    E seu tio tinha razão: você realmente escreve pra caralho (e eu já tinha pensado em fazer esse comentário na primeira vez que você mencionou isso no texto, antes de ver que você também terminou assim e que duas pessoas já tinham feito esse comentário. Mas fazer o quê? É verdade mesmo!)

  5. Puxa, João, sinto muito… mas posso dizer que por esses ‘cacos mal escolhidos’ você pintou perfeitamente a imagem de uma pessoa especial, dessas que transformam a nossa vida, sabendo disso ou não.
    Fique com isso, com as boas lembranças, chore quando sentir vontade… depois de um tempo essas lembranças tendem a trazer mais sorrisos que lágrimas.
    Abração, moço, força aí!

  6. e pelo carinho com que vocÊ fala dele, tenho certeza que ele não faleceu. Gosto de acreditar na idéia de que algo em todo mundo é eterno e permanece naqueles que lembram e naqueles que se importam.

    e vc escreve pra caralho, mas isso vc já sabe.

  7. Mateus TG

    João, sinto muito pelo seu tio.
    Dá pra sacar o qto ele te influenciou na tua vida, e nós, seus amigos, temos mto a agradecer a ele por isso, pq ele ajudou na formação de um amigo e escritor do caralho!

  8. Seu tio não poderia ter sido homenageado com palavras melhores. E, caso exista algo depois da morte, ele deve ter ficado feliz pra caramba com o seu carinho e as suas lembranças.

    Acho que não preciso dizer que ele não era o único que sabe que você escreve pra caralho e que consiguirá grandes coisas. Todos esses comentários aí em cima do meu estão aí para provar isso.

    O tempo, a tristeza e os bancos passarão. Fica bem.

  9. Perder alguém importante é sempre complicado.

    Mas ter boas lembranças – e o principal, falar delas – faz a gente se sentir melhor.

    Força aí.

  10. João, meu template é um daqueles modelos do wordpress mesmo. Eu só fiz o topo e adicionei as páginas. O seu topo é legal.

    Pra fazer um template original, tem que ser pelo wordpress.org. Eu sei mais ou menos como fazer isso, mas não sei transferir conteúdo desse blog para o outro.

    Essas pessoas aqui fazem isso: http://xcakeblogs.com.br/

    Não sei quanto cobram…

  11. monique

    ok. nunca comento aqui.
    sempre passo e leio desde o “ninguém espera..”, mas acho que nunca comentei em nenhum dos dois.
    Mas esse texto foi diferente dos outros.
    Não que eu tenha muito a acrescentar depois de todos esses comentários acima. Sei lá, acho que só queria dizer que sinto muito pela sua perda…

    fique bem.

  12. Ana Tereza Otoni

    Sinto muito joão.

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