Movie Review #6

X-Men Origens : Wolverine

Cotação: 4/8

Eu sou uma pessoa que se sente profundamente estimulada pela incapacidade alheia e profundamente intimidada pela genialidade dos outros. Por exemplo, quando eu estou escrevendo alguma coisa eu gosto de ler livros de autores ruins, porque me dão auto-estima e coragem para continuar escrevendo, enquanto livros realmente legais acabam me desanimando, porque eu fico pensando que nunca vou chegar naquele nível e desisto temporariamente de escrever. O mesmo vale pra filmes, músicas, tiras e tudo mais. E bem, tenho que admitir que depois de assistir “X-Men Origens: Wolverine”, eu passei a me sentir imensamente convicto de que posso ser um roteirista profissional e quem sabe um diretor em Hollywood.

Antes de tudo quero explicar que nunca gostei do Wolverine como personagem. Não que eu não goste do conceito, não ache que ele tem ótimas histórias, não compreenda o conflito, mas é um personagem com o qual eu simplesmente não consigo ter a ligação que eu tenho com o Homem-Aranha, os Lanternas Verdes, o Impossível ou até mesmo o Homem Formiga. Simplesmente não consigo ver a graça da coisa. Mas o mesmo acontece com personagens como Batman e Homem de Ferro, e mesmo assim eu achei os dois filmes do morcego e o filme do ferroso simplesmente sensacionais, acima de qualquer crítica, ou seja, eu fui assistir Wolverine com o coração aberto e a maior boa vontade possível, não só porque achei que a Fox poderia ter dado uma bola dentro como também achei que, oras, se tinha o Deadpool não poderia ser tão ruim assim. Mas foi.

Primeiro vamos ao roteiro, uma verdadeira salada mista de referências, cronologias e personagens. Não vou comentar o verdadeiro estupro aos cânones dos quadrinhos que foi a história concebida por David Benioff e Skip Woods, porque seria pura nerdice reclamar que Emma Frost nunca foi irmã da Raposa Prateada(que na verdade era uma nativa-americana), que não existe nada disso de Logan e Creed serem irmãos, que Chris Bradley nunca fez parte do núcleo original do Arma X ou que Deadpool tinha poderes de regeneração e habilidades como mercenário, mas NUNCA teve rajadas óticas, teletransporte, super-sopro, padrinhos mágicos ou coisas do tipo. Sério, resmungar sobre isso seria como reclamar da teia orgânica do Homem-Aranha, do Rei do Crime ser negro em Demolidor e de terem matado o Ciclope em X-Men 3. Por isso eu nem vou tocar nesses assuntos, prometo.

Mesmo levando em consideração que o público-alvo era não-nerd e aceitaria esse tipo de incorreção sem grandes problemas, o roteiro ainda é esburacado, algumas cenas não fazem muito sentido e certos personagens são trabalhados de forma apressada e tosca. Claro, dá pra aceitar que Creed não precise de grandes motivações para agir como um babaca, afinal, ele é um babaca, mas que história é aquela do Stryker de “ele vai me matar mas eu vou apagar a memória dele, hahaha!”? Que tipo de vingança vilanesca é essa? E que ilha secreta é aquela onde todo mundo chega, entra e sai na hora que quer? E como assim Gambit dá porrada no Wolverine? E como isso tudo se liga com os filmes dos X-Men? Afinal, Wolverine não lembra que é irmão do Dentes de Sabre, eu entendo isso, mas como o Creed não lembra que é irmão dele em X-Men I? E como ele passa de militar mau e malandrão para capanga bicho de pelúcia? Vão explicar isso em Wolverine II?

Claro, Hugh Jackman se sai malandramente bem no papel do carcaju, ainda que numa atuação mais canastra do que a da trilogia dos X-Men e Schreiber faz um Creed aceitável, ainda que mirrado demais pro padrão dos quadrinhos (nos quadrinhos Wolverine é baixinho e Creed é bem grande). Mas o resto do elenco é uma suruba caótica, com exceção de Ryan Reynolds que parece ter um certo futuro num filme solo do Deadpool (se ainda for possível fazer um filme solo do Deadpool depois dessa cagada de pato que foi feita com a origem do personagem). Sobre a participação do cara do Black Eyed Peas eu sinceramente prefiro não comentar e espero que não tenhamos Vanilla Ice em “Wolverine Origens: Magneto”…

Em resumo: Wolverine é um filme de ação pra se assistir não com o cérebro em ponto morto como Adrenalina ou X-Men, mas sim pra assistir com o cérebro em marcha-ré e possivelmente com o motor meio fundido. Num projeto que tinha enorme potencial, a necessidade de enfiar o máximo de personagens possível (ainda que de forma bizarra e desrespeitosa) e de buscar mais o apelo comercial do que contar uma boa história acabou levando a um resultado bem meia-boca que pode ter agradado a certas parcelas do grande público, mas deixa um fã de quadrinhos mais perdido do que o cara do chinelo no Pânico na TV (“Cadê o meu chinelo? Cadê o Deadpool? Cadê o meu chinelo?!”). Não vou comentar especificamente o trabalho do diretor porque ficou claro que ele dirigiu com o revólver da Fox na cabeça e não teve culpa no resultado final. Mais uma vez, assim como em Wanted, é melhor ler o material original e deixar o filme quem não gosta de quadrinhos.

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7 Comentários

Arquivado em Movie Review

7 Respostas para “Movie Review #6

  1. Bom, nunca li os quadrinhos então faço parte da parcela do público em que se pode enfiar uma bosta de filme apenas para fins comerciais que vai agradar.
    Nem tanto, não sou sonsa assim.
    Eu assisti e fiquei meio confusa com aquele negócio do começo de ‘sou seu pai, sou seu padrasto, filho bastardo’, e aí no primeiro filme não tem menção desse negócio de parentesco entre Wolverine e Dentes de Sabre.
    E aquele Deadpool não foi feito tão fodidamente pra acabar em 2 segundos?
    Fiquei com vergonha daquele cenário final.
    Mas ri bastante do Creed e do Logan em todas as guerras que já aconteceram no mundo. E o Liev tava muito bizarro. Jesus.
    Falei muita merda sem sentindo? Fiz spoiler?

  2. ThiagoFC

    João, esse seu texto tem mais spoilers que…. que… Tá legal, pensa numa coisa com muitos spoiler, ok? Então, seu texto tem mais spoilers que isso.

    Wolverine e Dentes-de-Sabre irmãos? Isso não faz sentido algum. Principalmente pela falha de continuidade já mencionada.

    Outra coisa: quando você tinha escrito sobre Wanted eu ainda não havia visto o filme, ou lido os quadrinhos. Continuo sem ler os quadrinhos, mas até que não achei o filme tão ruim.

  3. Thiago, desculpa pelos spoilers…É que eu tinha lido tanto sobre o filme que nada mais era spoiler pra mim, vacilo aí…E se gostou do filme, leia os quadrinhos. Eu acho que você vai conseguir gostar dos dois, mas vai ver que um não tem nada a ver com o outro…

    E Larissa, você provou que mesmo para os não-nerds o filme foi fraco, obrigado!
    (E faltou Logan e Creed na Guerra de Tróia, faltou não?)

  4. http://www.dzai.com.br/correioweb2/foto/galeria?fot_id=42499
    Fotos idiotas de pessoas fantasiadas de super-herois trabalhando…

  5. e o pior é que eu vou acabar vendo o Wolverine, como todo mundo, e gastando dinheiro com isso. Ah, a irremediável cultura pop…

  6. Até mesmo muitos leigos em quadrinhos devem estar revoltados com o filme. Tudo bem q cinema é uma coisa dinâmica, mas como assim, fazerem o procedimento da Arma X em alguns segundos no Wolverine? Sem anestesia, sem sequelas, sem nada, e c/ dúzias de pessoas olhando? Como o Stryker pôde prever q o Wolverine perderia a memória tomando um tiro? É um dos filmes mais absurdos e provavelmente a hq mais mexida que já vi. Estragou a história original e ainda deixou um monte de contradições na trilogia.

  7. Ana Tereza Otoni

    bom, faço parte da população não nerd….mas concordo com a confusão da historia.

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