Kafkaniana

Naquele dia, quando Adolfo acordou ele sentiu algo de diferente em seu corpo. As extremidades pareciam estar estranhas, as costas pareciam pesadas, e antes mesmo de abrir os olhos ele sabia que algo tinha acontecido. Estava deitado com a barriga para cima e parecia ser quase impossível o simples movimento de virar para o lado e se sentar na cama, como se seu eixo de equilíbrio tivesse se deslocado para algum lugar que ele ainda não havia conseguido encontrar. Abriu os olhos. Notou que o processo havia, de alguma forma, se tornado mais complexo do que o habitual. Sua visão havia mudado. Parecia que no lugar dos dois olhos míopes haviam surgido dezenas, centenas de pequenos olhos, pequenas janelas através das quais ele podia ver o teto branco do seu quarto com uma riqueza de detalhes que ele nunca havia notado, nem mesmo com seus óculos. Tentou coçar os olhos com as mãos, mas notou que no lugar delas existiam pequenas patas, sensíveis, marrons, que tremiam e se moviam rapidamente. Incrivelmente não entrou em pânico. Começou a pensar e notou que precisaria encontrar um jeito de sair da cama para ter certeza do que havia acontecido.

Como não conseguia se levantar ou se sentar, se preparou para lançar seu corpo para fora da cama. Moveu o corpo para os lados, ganhando impulso até finalmente rolar para fora da cama. Caído no chão, notou que não conseguia ficar de pé.  Na verdade ele estava apoiado sobre os pés, sentia que aquela era a sua posição natural, mas sabia que não estava na vertical, ao menos diante do seu antigo conceito de vertical. A sua vertical agora era, de certa forma, horizontalizada. Ele estava andando deitado, por assim dizer. Tentou levantar seus pequenos olhos em direção ao espelho do armário para confirmar aquilo que lhe parecia óbvio.

Nunca porém, chegou a saber se havia mesmo se tornado algo além de humano, já que foi esmagado logo antes que seus minúsculos olhos conseguissem alcançar a direção do vidro do espelho. Sua esposa havia, por alguma razão, acordado transformada em um sapato gigante e ainda estava com raiva por causa da briga da noite passada.

Ô mulherzinha rancorosa…

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8 Comentários

Arquivado em contos, Mundo (Su)Real

8 Respostas para “Kafkaniana

  1. Rhuan

    Cara, que saudade de ler seu blog. E vc tá melhor nisso!

  2. ThiagoFC

    Mulher rancorosa é uma merda mesmo.

  3. Muito melhor do que A Metamorfose. Devo confessar que acho o Kafka um chato. Nunca consegui terminar O Processo.

  4. Andrey

    Ah, eu terminei O Processo. É genial! (suspeito para falar)

    :)

    No mais, incrível o texto! haha…show demais o final

  5. Você conseguiu? Meu ídolo! Emprestei o livro para umas três pessoas que também não tiveram sucesso.

    Agora fiquei intrigada.

    Assim que voltar a ter tempo pra viver, vou tentar mais uma vez.

  6. Depois do Processo, tentem o Castelo. É o meu favorito dele. No meio da primeira parte você já começa a se perguntar: esse cara queria o quê escrevendo essa joça?

    O texto do joão, como sempre, muito inspirado e inspirativo. Deu vontade de escrever e falar mal das mulheres rancorosas da vida de todos nós. Ou, mais especificamente, das mulheres indiferentes que nos deixam rancorosos ou nos sentindo baratas.

  7. O Processo é até ‘legível’, mas acaba e você fica com cara de babaca. E é só o que lembro, da sensação de “okeeeeeei…” ao final da leitura. Enfim, meus termos não são lá muito técnicos/compreeensíveis. Mas, para mim, geralmente é isso mesmo o que fica em relação à maioria dos livros: a sensação da leitura. E o que quero dizer é que a leitura desse livro é ok, mas o término é mais okeeeeeeeei, entende? Erm…
    Enfim, tchau.

  8. João Baldi Jr.

    O final é realmente uma das coisas mais anticlimáticas da história do universo, junto com o meu primeiro beijo. Eu sempre achei que ele era um cara que achava que o final era bem acessório na história, então a conclusão sempre era, ou anticlimática ou besta mesmo. E ainda que eu tenha lido o processo e cartas ao pai (não leiam, é deprimente demais) eu acho que o melhor dele é um médico do campo. É Kafka sendo anticlimático em contos menores e não em romances gigantes que deixam a gente com, como disse a Érika, a sensação de “okeeeeeei”…

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