Cotas para as cotas

Estava eu vendo um boletim sobre a São Paulo Fashion Week (eu vejo essas coisas sobre moda como se fosse Orson Welles transmitindo a Guerra dos Mundos pelo rádio: parece real, mas não pode ser real, o universo não é assim) quando soube que por decisão da organização existe uma cota estabelecida que orienta que 10% dos modelos a desfilar nas passarelas do evento precisam ser negros, indígenas ou afro-descendentes. Ou indígeno-descendentes. Ou os dois. Ou qualquer parcela de uma das duas coisas. Ah, vocês entenderam.

Eu sempre fiquei meio dividido em relação ao assunto das cotas. Afinal, como afro-descendente (e bisneto de judeus) que tem cara de árabe mas na verdade é um esquimó, a questão de levar algum tipo de vantagem por ser de um grupo etnicamente minoritário ou de um grupo etnicamente majoritário que não se dá muito bem acaba sempre parecendo atraente, mas existem ramificações complicadas. E não falo apenas que, por exemplo, o sistema de cotas nas universidades, por mais bem intencionado, gentil, mano, correria, sangue bão e roots que seja, é apenas um paliativo pra uma situação de colapso da educação pública que afeta brancos e negros, mas acaba prejudicando mais os negros porque eles representam a parcela majoritária dos muito pobres. Isso qualquer candidato a vereador poderia falar e é chato de ficar repetindo.

Também não vou falar que tenho minhas restrições quanto a ações afirmativas porque desconfio que se você ficar exaltando o fato de que é branco e ele ficar exaltando o fato de ser negro nós não só vamos estar nos distanciando um pouco mais de qualquer tipo de integração étnica como também vamos estar ratificando a noção bizarra de que existem raças diferentes (biologicamente isso não existe, até onde eu sei) e deixando muito sem graça as pessoas que, como eu, são tecnicamente cinzas (branco + preto = cinza?), amareladas, cor de burro quando foge ou os afro-asiáticos, essa minoria composta apenas pelo filho do Amaral, aquele que jogava no Palmeiras.

E claro, ainda assim, mesmo com todas essas restrições, talvez as cotas sejam um passo válido, ao menos no curto prazo. Afinal,oferecem novas oportunidades a uma parcela anteriormente excluída da sociedade e criam a chance de que esse grupo também aumente sua renda e seu status. Claro, o sistema de cotas visando incluir a população negra e pobre no mercado de trabalho não faz absolutamente sentido nenhum num contexto em que a universidade pública é abandonada e o governo prefere dar semi-bolsas pra todo mundo em faculdades particulares (o que, evidentemente é mais barato. Quer dizer, não é não…hummm), mas quem sou eu pra cobrar coerência das pessoas depois de baixar um cd da Katy Perry e achar divertidão?

Desconfio que provavelmente o que “pegou” pra mim foi o fato de serem cotas num desfile de moda. Claro, eu entendo o argumento de que isso não só garante empregos como também ajuda a inserir a beleza negra num contexto mais amplo da sociedade, uma coisa “revista raça vibrations”. Entendo totalmente. Mas não deveriam existir coisas mais importantes no horizonte? Afinal, acho que a OAB jamais vai aceitar que em concursos públicos pro cargo de advogado existam cotas para o cargo, ou mesmo que cada escritório tenha que ter seu número de advogados negros. E nem sei se deveria aceitar, pra ser sincero. A constituição não garante oportunidades iguais pra todos? Então quando você torna menos íngreme os caminhos para alguns você não está indo contra isso? E isso vale pra todas as minorias? E até que ponto as cotas ajudam a realmente mudar a situação social do país? Afinal, numa loja de eletrônicos os seguranças continuam seguindo cerca de 95% dos negros que entram, independente do sistema de cotas, e não é pra dar carinho e atenção.

Talvez eu duvide das cotas porque sou um acinzentado de classe média e consegui achar meu espaço no mercado de trabalho sem precisar da ajuda delas (ainda que tenha sido no serviço público e mesmo assim eu seja sempre o “mais moreninho” em todos os lugares em que eu trabalhei) e teria uma opinião totalmente diferente se eu tivesse estudado em uma escola pública ruim (eu estudei num colégio militar, que é uma escola pública mas não aceita isso e se atacada reage com baionetas) e tivesse perdido várias vagas de emprego para pessoas brancas/arianas/albinas (eu sempre perdi vagas para asiáticos, o que me faz defender um sistema de cota máxima de 10% para japoneses). Mas eu desconfio que ainda que a idéia seja boa ela consegue ao mesmo tempo parecer exagerada e ser muito, muito pouco.

Afinal, uma idéia paliativa faria sentido diante de um projeto maior que a tornasse desnecessária no longo prazo, algo que permitisse que as pessoas conquistassem seu espaço, sem que ele fosse reservado, num processo lento, mas sólido, e que fosse realmente significar mudança num longo prazo. Afinal, estamos no Brasil, não sei se vocês lembram. E por aqui se você criar uma cota de 10%, iremos sempre ter só 10%, ninguém vai tentar passar além disso, afinal, estamos “seguindo a lei” e ponto final. E é por isso que é ao mesmo tempo exagerado e muito pouco: porque 10% pelas cotas, por força de lei, parece gente demais. Mas 10% conquistado por métodos igualitários ainda vai ser muito pouco em termos de proporção populacional. Mas sei lá, talvez isso faça um pouco mais de sentido pros índios, vai saber…

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5 Comentários

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5 Respostas para “Cotas para as cotas

  1. ThiagoFC

    “eu sempre perdi vagas para asiáticos, o que me faz defender um sistema de cota máxima de 10% para japoneses”

    aheuaeheauheauahueaheaueahuaehae

    Ow, do pouco que eu já escutei da Katy Perry, até que não achei ruim (isso pode ser considerado elogio)…

  2. “ou os afro-asiáticos, essa minoria composta apenas pelo filho do Amaral, aquele que jogava no Palmeiras.”

    hahahahahahahahahahaha

    Será que tem cota para comentários do blog? Você tem 10% de leitores afrodescendentes ou indígenas?

  3. Juninho

    Eu desconfio q sou indigena pq eu gostava do Indio Irakina, o dos seus sonhos, Jão…

    E eu concordo totalmente com o texto e acho q dar cotas por cor ou “raças”, alem de anticonstitucional, é preconceituoso, como se um negro realmente fosse menos q um branco e por isso precisasse de um empurrãozinho pra chegar a algum lugar…

    Já cotas pra escolas publicas em vestibulares eu concordo a curto prazo, pq é inegavel q escola publica ensina mto pouco se comparada com escola particular…

  4. é, acho que cota é,como quase tudo por aqui, apenas paliativo, um placebozinho colorido, que talvez, muito provavelmente, serve para que o governo justifique a si mesmo as contas dos despropósitos. Mas enfim, por isso as cotas deveriam ser banidas? Acho que só funcionariam atos mais concretos e mais verdadeiros caso a sociedade passasse por uma reforma de corpo inteiro. E abolisse todos os seus excessos, entre eles os desfiles de moda.
    Convenhamos… pra que serve desfile de moda?

  5. “tecnicamente cinza”. vou adotar.

    assunto cansativo e polêmico deveras! até hoje não sei se tenho opinião formada.

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