Movie Review # 7

A Mulher Invisível

Cotação 6/8

Uma coisa que sempre me ressentiu um bocado em boa parte do cinema nacional é que ele não parecia ser feito exatamente para o público e sim para o autor.  Não que eu tenha nada contra o cinema autoral, mas sempre achei que o conceito seria mais o de passar uma perspectiva autoral através da obra e não o de fazer uma obra que apenas o autor e alguns estudantes de cinema conseguissem gastar algumas horas apreciando (mas vocês podem em chamar de americanófilo vendido e inimigo da arte, eu vou entender). Por isso eu não nego que chego a ficar feliz com a intenção que parece ter surgido nos produtores de cinema brasileiros de fazer filmes que, ó supremo mistério da indústria, o público realmente possa, em algum momento, sentir alguma vontade de ver por alguma razão que não a de impressionar as garotas no bar do DCE. Claro, nesse processo surgiram criações que vão desde filmes malas como “Dois filhos de Francisco” e “Olga” até filmes realmente divertidos e que te motivam a pagar uma entrada de cinema, como “Meu tio matou um cara” e, claro, “A Mulher Invisível”.

Com direção e roteiro de Cláudio Torres (do irregular mas interessante “Redentor”), o filme conta a história de Pedro, um cara extremamente romântico que, após ser abandonado pela esposa, que alegava que a vida deles era “segura demais”, se afasta do mundo e acaba conhecendo a mulher perfeita, sua vizinha Amanda. Ela adora tudo que ele faz, é linda, não reclama de nada, em suma, ela é perfeita mesmo. Ela só tem, é claro, um defeito. Ela não existe.

Bem, procurando na sua mente você vai achar que já viu isso antes, e provavelmente já viu mesmo, mas é aí que está a graça do filme: “A mulher invisível” não tem medo de ser um filme “normal”, em nenhum instante. Está ali toda a fórmula do cinema americano, desde a divisão do filme em três atos e um epílogo até o melhor amigo engraçado do mocinho, a vizinha real que é tão interessante quanto a vizinha imaginária, toda aquela aura de “familiaridade” que os americanos aprenderam que o cinema precisa ter se quiser lotar salas e fazer dinheiro. A diferença é que Torres conseguiu ao mesmo tempo contar uma história que pode atrair o público sem pra isso abrir mão de contar uma boa história, e se cercou de ótimos atores, além de ter escrito um bom roteiro.

Primeiro Selton Mello. Bem, o Selton Mello é foda. Ele dublou Peanuts, ele fez o João da Ega em “Os Maias”, ele é um dos poucos atores brasileiros “jovens” que consegue carregar um filme nas costas (acho que o outro seria o Wagner Moura) e, se as minhas expectativas em relação a “Feliz Natal” se concretizarem, vai ficar provado que o cara também é um ótimo diretor. E ele fez piadas sobre o Oswaldo Montenegro nos “Aspones”. O que mais eu posso dizer de um cara desses? A atuação dele, ainda que numa onda careteira meio “Jim Carrey”, é excelente e serve pra ancorar o filme. Mas isso você provavelmente só vai entender quando, lá pro final, ele para na frente do elevador e começa a dizer “eu estou bem, eu estou bem, está tudo bem”. Sensacional, mesmo.

Luana Piovani faz o papel que é possível pra Luana Piovani fazer, e cumpre muito bem a tarefa de ser “a mulher dos sonhos”. Não foi aquela atuação toda (mesmo porque não precisava ser), mas conseguiu contar a história da forma que precisava ser contada e colocar a autenticidade necessária nas falas. Pedir mais o que, né? Vladimir Brichta fez o papel de malandrão que ele sabe fazer tão bem e Maria Manoella (de quem eu nunca tinha visto nada), se saiu sensacionalmente bem no papel da vizinha, aquela coisa de mocinha tímida de comédia romântica, se encaixando totalmente.

Espero mesmo que o filme dê uma bela grana, porque vale a pena ser visto (ainda que, depois de pegar uma sessão de sábado a tarde e notar que na sala estávamos apenas eu, um casal de garotas e um velhinho que parecia bêbado, eu não sei o que pensar) e é mais um passo rumo a conseguir conciliar uma indústria cinematográfica nacional de qualidade com uma produção autoral significativa e influente. Meus próximos compromissos com o cinema nacional agora são “Apenas o fim”, do Matheus Souza, que parece ser uma comédia romântica/dramática nacional com toques de cultura pop(?!) que eu duvido que vá passar em Juiz de Fora e o documentário sobre o Simonal, o tipo da idéia que lá fora daria uma mini-série premiada com vários Globos de Ouro e um filme com Oscar pro Jamie Foxx, mas no Brasil tende a não passar nem uma semana em cartaz.

De qualquer maneira esse é um filme que vocês deveriam ver, fosse ele brasileiro, americano, inglês, búlgaro ou indiano (ainda que na Índia um filme com um protagonista controlador de tráfego fosse ser beeeem mais engraçado. “Acidente envolvendo uma vaca e uma van cheia de crianças na avenida principal, Nandra. Mande alguém lá pra salvar a vaca, agora!”), mas que por ser nacional ganha toda uma simpatia especial e merece o nosso incentivo. Eu recomendo. (mas nem a pau devolvo seu dinheiro se você não gostar, claro…)

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6 Comentários

Arquivado em Movie Review

6 Respostas para “Movie Review # 7

  1. ThiagoFC

    Cara, eu gostei de Redentor e até de Dois Filhos de Francisco…

    E eu acho o Selton Mello legal, apesar de ter o gravíssimo defeito de ser sãopaulino.

  2. blza, assistirei.
    realmente, acho um mistério essa coisa que a industria descobriu capaz de prender audiências… o que há de errado nisso, se é o gosto geral?

  3. …e ainda tem a participação do Adnet.

  4. Juninho

    Engraçado que qndo assisti esse filme, com toda boa vontade e expectativa de ver algo engraçado (principalmente pelo Selton melo, que foi tbm o inesquecivel Chicó, do Alto da Compadecida que vc esqueceu) me decepcionei… Pra mim ele tem seus pontos engraçados como: “Ô biruta! Não vai falar nada não?”, mas acho que poderia ter sido melhor explorado…

    Eu já te disse pessoalmente e recomendo pra todos que lerem aqui: Assistam “Divã”!!! Esse sim é muito engraçado, com elenco igualmente interessante e uma narrativa mais comica…

    Putz, to falando pra caralho nos comentarios ultimamente…

  5. Concordo plenamente. Essa mania do cinema brasileiro de ser alternativo, favela, realidade brasileira… cansa. É chato.

    Tô doida pra ver A Mulher Invisível. Ainda que eu prefira o Wagner Moura ao Selton Mello. Você viu Saneamento Básico? Pra mim, o Selton Mello sempre interpreta Selton Mello (ainda que eu goste muito dele apesar do “Meu nome não é Johnny” que eu detestei).

    Um documentário que eu quero muito ver é o Dossiê rebordosa (http://www.dossierebordosa.com.br/) que é sobre a morte do personagem do Angeli. Eles entrevistaram um monte de gente e depois transformaram os entrevistados em bonecos de massinha. Parece estar fantástico!

    Enfim… Tempos que não passo por aqui!

    Não comentei no post sobre as cotas porque eu ia falar demais.

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