Romantismo desperdiçado – Cartas

*Este texto foi escrito há muito, muito tempo atrás em uma galáxia muito, muito distante. Se quiser ler com trilha sonora clique aqui.

Eu saí do meu emprego há algumas semanas e como acontece com todo mundo que muda subitamente pra uma rotina mais light eu passei a ter muito mais tempo livre do que antes, o que me estimulou a fazer coisas que eu não fazia normalmente, pra gastar o tempo. Daí a decisão impensável, sob qualquer aspecto, de decidir organizar meu armário e, pior ainda, juntar todas as cartas que a minha ex escreveu pra mim em quatro anos e meio de namoro.

É, eu sei, eu sei…Um cara solteiro da minha idade precisa ter uma forma melhor de gastar o tempo do que organizar cartas da ex-namorada e, caso ele não tenha, aí mesmo é que ele não deve nem tocar nesse tipo de coisa. Mas como eu digo, quem não tem Playstation se diverte com masoquismo emocional.

São muitas cartas. Muitas. Por sermos duas pessoas muito “literárias”, ela uma jornalista e autora de livros infantis e eu um…um…um “eu”, nós tínhamos uma certa necessidade patológica de colocar as coisas por escrito, como que pra manter um registro mais confiável de tudo, além de ajudar a disfarçar a nossa insegurança natural em relação ao outro. Não cheguei a contar todas, mas consegui encher algumas caixinhas e ainda tive que forçar pra que os pacotes fechassem.

Interessante é notar como as coisas foram evoluindo com o decorrer das cartas. Desde o começo, quando eram frases tímidas (“oi, tudo bem?”) até na fase mais madura do namoro, quando eram planos, projetos, promessas, num nível de cumplicidade e empolgação que eu sinceramente tenho até dificuldades pra aceitar que eu tenha chegado. (Cara, eu pensei em ficar noivo, eu pensei em casar, eu pensei em morar junto. Eu, que quero comprar um carro de kart pra não ter que andar junto com ninguém) Também é interessante notar como um namoro quer durou ¼ da minha vida e foi o único relacionamento “real” que eu já tive conseguiu virar bem menos do que amizade e só um pouco mais do que ser um “mero conhecido” (afinal, eu sou um “conhecido que deve ser ignorado”, o que, vai lá, é mais do que ser apenas um “conhecido”).

É aquela discussão clássica sobre o fato de que tudo termina, por mais que você se esforce pra manter e o porquê disso ter passado a me dar tanta preguiça de começar qualquer coisa. Afinal, a gente começa, se esforça, mantém e um dia tudo acaba, um dos dois termina e ninguém nem se fala direito mais (a não ser que vocês sejam britânicos…ou, sei lá, civilizados…), ou seja, é como um jogo de vídeo-game incrivelmente complexo em que você nunca consegue salvar as fases pelas quais já passou e sempre tem que recomeçar do zero. Não existe “memory card” emocional, acho.

Fiquei então sentado no quarto, pensando se seria mais saudável jogar fora as cartas (pensei numa pira alta, no meio da garagem, onde eu também queimaria, talvez, os CDs do Lionel Ritchie que a minha mãe tem, pra aproveitar o fogo) ou guardar, em respeito ao que aconteceu e a toda essa pequena grande história pessoal. Coloquei Wilco pra tocar e passei vinte minutos pensando nela, em tudo que tinha acontecido e em como eu tinha terminado com tudo. Olhei pras cartas de novo, reli algumas.

No final acabei optando pela saída mais emocional. Guardei as cartas no armário. Se ela um dia ficar muito rica eu posso conseguir alguma coisa fazendo chantagem, nunca se sabe.

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6 Comentários

Arquivado em Crônicas, Vida Pessoal

6 Respostas para “Romantismo desperdiçado – Cartas

  1. Juninho

    To eu aqui atoa comentando quase que ao mesmo tempo que vc posta, ou não, vai que vc postou de madrugada…

    Não tenho opinião formada sobre cartas de ex pq não tenho ex. Mas é realmente estranho pensar que um dia posso estar nessa sua situação (não tão pra baixo assim, mas tudo bem) e possa ser eu a ler as muitas (muitas!) cartas que a Eliane me escreve…

    Isso é masoquismo doentio cara, mas ao mesmo tempo me pareceria falta de respeito e consideração jogar tudo fora, pq por mais que não tenha dado certo (quase nunca dá) é inegável que tudo existiu e que, apesar das brigas, ameaças de morte e insultos gratuitos, com certeza tiveram bons momentos…

    Mas se um dia vc quiser ficar realmente mal, deprimido e com tendencias suicidas, leia essas cartas, sozinho, de madrugada, ouvindo Vento no Litoral do Legião Urbana…
    Acho que é capaz até que vc componha um sucesso emo com essa combinação…

    Mas meu coneslho é: guarde as cartas e compre abadás! Micareta faz tudo parecer distante e irreal…

  2. Só meu primeiro namorado me escrevia cartas e me mandava até cartões de Natal!
    Aliás, com ele, foi a única época em que eu gostei de Natal, justamente por causa dos cartões.
    Ai ai.. Rafael. Pior burrice da minha vida foi terminar.
    Mas enfim.
    Apesar de eu ter terminado, eu guardo tudo dele com carinho. Leio quando bate saudade e quando lembro que ele sim era ótimo, não apenas como namorado.
    Dos outros não guardo nada, nem papel de balinha. Mesmo porque não faço questão e mal me lembro até das conversas que nós tinhamos.
    Isso é um puta masoquismo emocional mesmo, mas e daí?
    Melhor ler as cartas e lembrar de coisas boas do que ficar lembrando que no momento ele tá procurando uma desgraçada qualquer que apareceu do nada numa sexta-feira e que ele se apaixonou, e o ‘te adoro infinito’ passou pra ‘eu faço um pouco de questão de ainda falar com você mas você não colabora’.
    Argh.

  3. é, tô no time do juninho aí acima, não tenho ex, portanto não tenho ex cartinhas… na verdade não tenho nem muitas atuais cartinhas, pois meu digníssimo só me escreve quando eu imploro muito, e sempre começa os cartões com algo como “pronto, sua pequenininha pidona, aqui vai o cartão…”. mas eu gosto mesmo assim! já eu já inventei diuntudo em termos de cartão! e ainda tenho mania de manufaturar meus próprios cartões. e criar albuns de fotos como se fossem cartões. e ficaria mega ofendida se ele jogasse tudo fora, caso a gente termine eventualmente. mas também não ia gostar se um atual meu guardasse um altar com coisas de sua ex. então, sei lá, deixa num cantinho esquecido do armário, e quando você tiver bem feliz e apaixonado, você pensa no que fazer… até lá, keep out!
    beijos!

  4. Achei que você já tivesse um PS, brother.

  5. poxa, muito bom. vc tem um talento pra frases meio epigramas: quem não tem playstation se distrai com masoquismo emocional.

    e vou fazer coro a juninho e érica e dizer que concordo com o que eles dizem. mas quando arranjar uma outra atual, faça o favor de manter essa caixinha bem longe da vista dela; isso porque tb não tenho ex (ok, tenho, mas não tenho teeeenho), mas meu atual tem taaantas… sei bem como é essa raivinha de não querer ver lembrancinhas das anteriores. mas de forma alguma iria querer que ele se livrasse das coisas…

  6. Eu queimei as cartas de um dos meus ex-namorados.

    Não por raiva, ou mágoa, ou qualquer coisa do tipo… Foi por vergonha alheia de mim no passado.

    Putz!

    Eu namorei um cara que escrevia “voutar” e que, quando alguém avisou que era com L, não pensou duas vezes antes de corrigir: “voultar”.

    Algumas coisas precisam ser esquecidas.

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