It’s all right, just follow the hype and don’t be afraid of the dark…

Eu sou uma dessas pessoas que é muito lenta para seguir tendências, notar o início dos movimentos e me manter atualizado com modas, modinhas e moda de viola. Não que eu não tente ser bem informado, mas eu simplesmente não sou do tipo que faz questão de ser o primeiro a saber, a divulgar, a postar no blog, e contar na rodinha, a tirar do bolso e mostrar pros amigos. É, eu não sou mesmo. Mas claro, respeito imensamente os pioneiros em tudo, essas pessoas que se jogam na frente e fazem o test-drive das coisas que um dia vão chegar na vida dos atrasados como eu, desde telefones celulares e roupas até bandas, bares, carros e doenças venéreas.

Mas por outro lado também nunca fui exatamente mainstream, por assim dizer. Tenho gostos pessoais já muito cristalizados e que dificilmente se deixam alterar por novidades, pelo que toca na rádio, pelo que é tema da novela ou todo mundo está ouvindo na rua. Claro, como eu já disse, gosto de saber o que está acontecendo, pra poder me situar, mas não deixo que isso me pressione a gostar ou não de alguma coisa.

Eu acho que, assim como boa parte das pessoas que eu conheço, consigo manter um gosto e um ritmo pessoal para buscar e assimilar produtos culturais sem necessariamente me fechar para novidades, se elas forem realmente interessantes dentro desses meus critérios. Em suma, eu consigo ainda estar na terceira temporada de Lost sem peso na consciência, ao mesmo tempo que quero ouvir qualquer coisa do Weezer assim que a banda terminar de gravar, sem necessariamente deixar de dar chances a coisas novas e saber que se alguém me chamar pra ir num show dos Mexilhões do Forró vai acabar apanhando. Ou seja, eu sou igual a galera, parabéns pra mim, grandes coisas, tralalalá e etc.

Mas o interessante é que nem todo mundo é assim. Existem dois assustadores extremos do espectro cultural que tem visões totalmente diferentes da relação entre uma pessoa e a música, os livros e os filmes que a cercam: o alternativo patológico e o cara que vai com a galera.

O alternativo patológico é um tipo um tanto quanto irritante. Ele quer ser o primeiro a descobrir uma banda, um livro, um filme, um seja o que for e é nisso que reside a graça das coisas pra ele. Tanto que assim que essa banda, esse livro, esse filme e esse seja o que for passam a ter mais adeptos ele simplesmente para de ver graça na coisa, diz que a banda/autor/diretor se vendeu e vai procurar outra coisas que ele possa considerar só sua. O prazer dele é mais o de sentir diferente e superior em termos de conhecimento num assunto do que o de usufruir daquele conhecimento ou sentir prazer com os frutos desse conhecimento. O AP é o mesmo tipo de cara que bate boca dizendo que o Weezer se vendeu quando fez um clipe com os Muppets (são nerds fazendo um clipe com fantoches…é tão natural quanto os Rolling Stones fazerem um clipe com drogas, meu deus…), que parou de ouvir Kaiser Chiefs porque a banda é puro hype (realmente minha mãe e a empregada da vizinha não param de curtir “Try your best” no talo toda noite, fato) e que bom mesmo é aquele grupo de folk rock da capela da igreja comunitária de Canterbury e…”ah, que pena, você não conhece. Ouvi quando fui em Londres, sabe?”

Em compensação o cara que vai com a galera é exatamente o contrário. Pra ele o que existe é apenas e exatamente o que está em evidência: se o lance é forró ele curte forró, se o lance é calypso ele delira no solo do Chimbinha, e tanto faz música indiana ou Arctic Monkeys, desde que seja o que todo mundo está ouvindo. No caso dele a necessidade já não é mais de se diferenciar do grupo, mas sim de se sentir realmente entranhado no gosto geral. Afinal, se todo mundo está fazendo só pode ser bom, certo? Bem, só não vá com esse pensamento no Muzik no próximo final de semana, ok?

E além disso existem os rótulos: quem é indie, quem é sertanejo, quem é do rock, quem é do sambinha, quem é emo, e isso precisa ser rígido como um sistema indiano de castas, tanto que desconfio que se eu pisar na sombra de um emo meus amigos me obrigarão a tomar uns seis banhos (além de que o emo vai chorar e dizer que ninguém gosta dele, claro). Mas bem, as coisas não funcionam exatamente assim no mundo real. Eu mesmo sou um cara cujas tendências musicais são profundamente ligadas ao indie e ao brit rock, mas isso não me impede de achar que o Thom Yorke de vez em quando dá no saco, Falcão (o legal, não o do Rappa) é divertido e as vezes, sim, as vezes e apenas as vezes é positivo se arrumar pra sair ouvindo Seu Cuca. E que deus permita que eu entre no céu do jeans surrado, do moleton e da camisa com estampa de filme depois disso…

E a grande questão é que hoje, talvez mais do que em qualquer outra época, uma das grandes preocupações humanas é o grupo. Não se pode apenas ouvir um tipo de música, é preciso “vestir” aquele tipo de música, se maquiar de acordo com aquele tipo de música, cortar o cabelo de acordo com aquele tipo de música e andar com outras pessoas que vivem o mesmo estilo. E dentro de um grupo a tendência é sempre a da uniformidade, a de igualar e padronizar, a de buscar denominadores comuns que deixem mais claro quem somos “nós” e quem são “eles”, pra que eu possa identificar os meus de uma distância bem segura. Isso, é claro, torna as pessoas tão fanáticas em seus gostos, opiniões, colocações: elas não querem apenas defender o que gostam, mas sim o grupo do qual fazem parte. E bem, hoje em dia até o grupo dos que não fazem parte de nenhum grupo já formou um grupo e de lá saiu uma dissidência que disse que isso de não ser parte de um grupo era muito semana passada…

O que as pessoas esquecem as vezes é que…bem, é só música. É só um livro. É só um filme. Claro, seus gostos definem a sua identidade, mas eles não podem limitar a sua capacidade de transformar a sua personalidade, de conhecer coisas novas, de dizer o que é certo ou errado. Nem toda banda indie é legal, nem todo samba é mala, nem toda música clássica dá sono e nem todos os cães merecem o céu. Claro, a possibilidade de que eu me divirta num show do Calypso é muito, mas muito, mas muito, mas muito menor do que a de que eu me divirta num show dos Autoramas, mas bem, nunca se sabe, né?* O que conta é, no final, gostar e se cercar das coisas que você realmente gosta, sejam elas as certas ou as erradas pro tipo de imagem que você quer passar ou pro grupo do qual você quer fazer parte. Mas se vocês puderem não comentar com ninguém aquela parte sobre o Seu Cuca eu agradeceria…

*Na verdade essa parte do texto é uma tremenda mentira, usada apenas para reforçar a minha argumentação. A possibilidade de que eu me divirta num show de calypso é quase igual a de que eu curta uma projeção de slides sobre castração ou tenha a noite da minha vida assistindo reprises de “A Diarista”.

6 Comentários

Arquivado em Crônicas

6 Respostas para “It’s all right, just follow the hype and don’t be afraid of the dark…

  1. Apenas pra contar, estava nesse exato momento, sei lá porque, pensando na capacidade do Juninho de gostar de qualquer coisa…

  2. ThiagoFC

    Nunca gostei de seguir tendências. Eu gosto do que eu gosto e estou satisfeito com isso.

    Tendo dito isso, quero deixar bem claro que eu achava o indie um pé no saco quando era novidade, e acho ainda mais chato agora que não é.

  3. tag: “solo do chimbinha”

  4. monique

    eu já fui num show do calypso!
    (pra entrevistar a joelma que é uma anã com 10kg de maquiagem, mas muito simpática. Acabei achando engraçada a situação surreal, até ganhar um cd calypso acústico – mal posso esperar pra tirar alguém muito mala no amigo secreto pra repassar)

    ah, um pessoal zoando os filminhos indie (que eu adoro):

  5. Juninho

    O Yuri é o alternativo patológico…

    Eu sou o cara que gosta de qlq coisa, independente de ser um estilo ou outro e me divirto tanto no funk, qnto no teatro, tanto no trance, qnto no acustico do Legião Urbana cover…

    E esse papo de vc não se divertir no show do Calipso é mentira, tudo depende da situação. Se nesse show vc beber, zuar, pegar trinta mulheres, levar quatro pra um banheiro quimico e ainda uma maravilhosa pra casa, aposto que vai se divertir muito…

  6. ThiagoFC

    Lembrei desse post ontem, depois de já o ter lido aqui: finalmente vi “Pagando bem, que mal tem?” (Zack & Miri make a porno), e fiquei com a sensação de que é um bom filme, mas eu esperava mais (e não falo somente das participações de Jay, Silent Bob, Jason Lee, Ben Affleck e Matt Damon).

    Sinceramente: eu gostei mais de “Menina dos Olhos”. Esse Kevin Smith é um vendido, e Dado Dolabella o acusará de trair o movimento punk, véio!

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