Pra não dizer que não falei de Michael Jacksons

E o Michael Jackson morreu. Morreu, foi enterrado, e com isso criou um nível de comoção que eu não via desde a morte da Lady Di, do Frank Sinatra ou do Super-Homem (ainda que só um deles tenha voltado), com notícias pipocando pelo mundo todo, programação temática em diversas emissoras e um funeral que foi transmitido para todo o mundo e praticamente parou a twittosfera, com exceção do Pedro Neschling, que dizia estar olhando pra lua. Todos muito sentidos, todos mundo emocionados, todos muito consternados. Todos falando sobre a obra, o legado, o trabalho, o sucesso, a história profissional impressionante do finado rei do pop. Claro, tudo muito natural, tudo muito bonito, tudo muito fofo. Mas acaba sendo mais um exemplo impressionante de como morrer é uma das melhores políticas de imagem de todas.

Afinal, tente se lembrar do que era MJ antes da morte. Três semanas atrás, se isso te ajudar. Um ex-artista falido em atividade, famoso mais por seus escândalos pessoais envolvendo pedofilia, pendurar crianças pela janela, agir de forma estranha e ser desprovido de nariz.Suas músicas não vinham fazendo sucesso, e nos últimos anos ele tinha criado tantos sucessos quanto eu e Jorge bem Jor, com a diferença de que dos três eu era o que estava tentando com mais afinco. E por favor não venha me dizer que não era assim que ele era retratado pela mídia, já que sua música havia saído do foco da imprensa desde o lançamento de Invincible, em 2001. Ele era motivo de piada, chacota, zoação e até garotos de segunda série faziam piadas sobre Michael Jackson sem medo de nenhum tipo de repreensão moral. Até que ele morreu. E a morte é o ponto alto da vida de um artista pop, como diria Neil Gaiman se pensasse sobre esse tipo de assunto.

Depois da morte MJ subitamente se redimiu de qualquer pecado. Nunca foi suspeito de ser pedófilo, nunca foi esquisito, nunca mudou de cor, sempre teve nariz, nunca balançou crianças na sacada. Claro, entendo que num grande artista a obra é um legado mais importante do que a vida (Wagner não era exatamente um cara legal, Frank Sinatra era mafioso e Dado Dolabella é meio babaca as vezes, pra citar exemplos) mas isso simplesmente apaga todo o resto? Não estou dizendo que diante de uma morte não seja de bom tom deixar fora da discussão certos aspectos da vida do falecido, mas será que não há nisso um toque de cinismo? Afinal, as mesmas pessoas que antes chamavam Michael de vilão do He-Man agora pegam em tacapes diante de qualquer menção menos do que carinhosa e simpática ao astro do pop e isso é no mínimo uma coisa estranha de ver. Por que é tão fácil e divertido caçoar dos vivos, que estão aqui pra sentir na pele e tão incorreto fazer a mesma coisa com os mortos? Medo de que a mãe deles esteja por perto? Medo de que puxem nossos pés a noite?

Perdoar, esquecer, passar por cima, é claramente uma virtude, mas será que só a merecemos depois da morte? Quer dizer, será que temos mesmo o direito de julgar alguém, mesmo que sua vida seja pública e seus atos, queira ou não, se tornem referência? E até que ponto esse “forget and forgive” é perdão sincero e em que nível ele é apenas uma fuga dos fatos ou preguiça de pensar numa opinião de verdade?

É provável que nunca tenham sido boas as piadas sobre Michael Jackson, que na verdade era um artista brilhante vivendo em um mundo no qual evidentemente não se enquadrava. É provável que a cada vez que eu disse que ele seria processado pela Nestlé por só gostar de Garoto eu tenha realmente “derrubado uns cinco tijolos na minha casinha no céu”, como diria a minha avó. Mas eu acho, e digo isso com sinceridade, que se queríamos ser compreensivos, gentis e respeitosos com o finado Michael Jackson nós todos chegamos no mínimo meio tarde.

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11 Comentários

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11 Respostas para “Pra não dizer que não falei de Michael Jacksons

  1. “nos últimos anos ele tinha criado tantos sucessos quanto eu e Jorge bem Jor, com a diferença de que dos três eu era o que estava tentando com mais afinco”

    ai céus, vou dar um tempo e esperar o acesso de riso passar pra poder ler o resto.

  2. pronto.

    mas ó, é isso aí, vira tudo um bando de pela-saco depois que o outro morre, e eu cheguei até a pensar na possibilidade de que se o Michael fosse esperto mesmo ele teria simulado essa morte só pra poder pagar as dívidas.

  3. eu adoro o michael ele é um dos meus íncones preferidos eu to muinto triste pela sua morte assim derrepente sem ninguém esperar tava lá a notícia q p rei do pop tinha falecido eu chorei a bessa; michael não morreu ele ta vivo em todos nós deus sabe q aquela era a ora dele então deus resouveu leva-lo para seu lado e de3 la de cima orar por todos nós. bjjjjjjsss.

  4. Andrey

    Como já escrito anteriormente, eu concordo com você!
    Da santidade que a morte traz!

  5. “derrubado uns cinco tijolos na minha casinha no céu”! haha, muito bom, vou incluir no meu repertório de gracinhas!! Eu uso a analogia de ‘há uma nuvem felpuda, cercada de caudalosos mananciais de chocolate, esperando por mim’, mas essa história de tijolos caindo é um barato!

    você está 100% certo, mas como disse num post meu aí da vida, sou deveras influenciável e fiquei realmente comovida com a morte dele. pela total ‘inesperabilidade’ (gostou? inventei agora!) da coisa! E porque é humano dar mais valor depois que perdemos algo. Infelizmente, ou felizmente, as pessoas são assim, imperfeitas.

    ‘Mas eu acho, e digo isso com sinceridade, que se queríamos ser compreensivos, gentis e respeitosos com o finado Michael Jackson nós todos chegamos no mínimo meio tarde.’ Genial, man! Frase forte e precisa. Você é muito bom nisso! Merecia até um barulhinho de chicote batendo no chão. *capitch*

    Tô indo já, mas posso falar de uma cena que me tocou? Outro dia tava nas Lojas Americanas, aí tinha um vídeo do Michael passando… Aí umas três criancinhas pararam e ficaram ali em frente, dançando e se divertindo horrores, e até arriscando cantar junto! Fiquei tããão comovida… é, eu sou bobocona!

  6. ThiagoFC

    Tag: diogomainardiando.
    haueheaueaheauheauaheaueahuaeheauhea

  7. Concordo com você quando fala que a morte é a melhor estratégia pra melhorar a imagem de alguém e que existem shows de hipocrisia diante do valor que se dava à pessoa em vida (sem mencionar os parasitas que passam a ver no falecimento da celebridade uma mina de ouro).

    Só que eu consigo enxergar alguma sinceridade em determinadas manifestações (não todas, evidentemente). É aquele velho lance de só darmos valor pras coisas e pessoas depois de perdemos. E nesse caso, de perdermos pra sempre.

    Por exemplo, eu tenho sérios problemas com dois membros da minha família porque foram extremamente filhos da puta comigo em determinado momento. Evito estar perto(cheguei a perder ceia de Natal na casa dos meus pais por casa disso), falo mal quando dá vontade, faço cara feia sempre que alguém menciona qualquer coisa sobre eles, vou convidá-los pro meu casamento um dia mas espero sinceramente que eles tenham a vergonha na cara de não aparecer. Por outro lado, não que eu seja uma santa, mas espero que um dia consigamos superar tudo isso. Não estou preparada pra perdoar agora, mas espero ter tempo de fazê-lo.

    Pra massa, talvez o Michael Jackson fosse esse membro da família.

    • ThiagoFC

      Angélica, pelas histórias que vc já me contou eu sou capaz de apostar que o convite para o seu casamento não só será aceito, como essas pessoas ainda vão chegar lá sem te dar nenhum presente!

  8. Juninho

    Pra mim foi mais uma manifestação do quão bizarro é o comportamento do ser humano…
    Virou modinha gostar de MJ, agora em todo lugar só se escuta isso, até o caseiro do Espanhol (o pai do Bolinha, da pelada) escutou domingo, durante a pelada toda, o cd The King of the Pop…

    Mas o mais manero foi o pessoal do morro do Rio (agora esqueci qual) falando que estava triste e botando faixas de adeus… Isso pq o MJ foi lá uma vez, durante cinco horas, cercado de seguranças…
    E eles estão tristes!!! Não pq seus filhos morrem de disnutrição ou overdose. Não pq balas perdidas passam em bando pelas ruelas e casebres. Não pq eles tem uma vida de merda. Mas pela morte de MJ. Milionário, excentrico, que aproveitou tudo de bom e de ruim que a vida podia oferecer a ele e que procurou com afinco a morte que teve…

    Quer motivo mais nobre?

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