Revisões sobre um encontro

Eu sei que deve ser estranho pra você receber esse email logo agora, afinal, não faz nem dez minutos que eu te deixei na porta do seu prédio, mas é que eu achei que algumas coisas que aconteceram hoje podem ter ficado confusas pra você e achei que o melhor seria corrigir qualquer mal-entendido da forma mais rápida possível. Então vou começar em ordem cronológica, ok?

Em primeiro lugar eu não queria aquela mesa perto da janela. Eu escolhi a mesa só porque você fuma e eu tive medo de ficar meio sufocado e tossindo o tempo todo, o que iria cortar totalmente qualquer tipo de clima. Claro, não tinha como imaginar que iria estar aquele vento todo ou que iria chover, então eu peço desculpas pelo seu cabelo e espero que você já tenha tirado o saco plástico da sua cabeça enquanto estiver lendo isso aqui. Me desculpe mesmo.

Sobre o problema com o garçom, eu não costumo ser sempre grosseiro com as pessoas, juro,é que ele estava obviamente dando em cima de você, o que, ok, é compreensível, você é muito atraente, mas por favor, ele poderia pelo menos esperar que eu fosse ao banheiro ou algo assim, não? Não é assim que as pessoas fazem nos filmes? E aquilo que eu disse sobre não ter dado um soco nele só porque você pediu era mentira, ok? Eu não bati nele porque ele era enorme e iria me triturar, eu disse aquilo só pra parecer fofinho.

Minha tia não é pediatra, é pedicure. Eu comecei a frase com um “pe” e você completou, então eu fiquei sem graça de te corrigir. Assim como fiquei sem graça de te corrigir quando você disse que ornitólogo é quem cuida do ouvido dos animais e quando você disse que a Bulgária fica na Ásia. Ah, e não existe carta de “fuga da prisão” no jogo de War, ainda que seja uma idéia interessante. Que só é impedida pelo fato de que o conceito de prisão não existe no jogo de War.

Quando você falou sobre o seu trabalho e eu respondi com um “aham” não era porque eu não estava interessado, mas sim porque eu fiquei tão impressionado com a sua animação que não sabia direito o que dizer. Fora que não entendo muito de polímeros, então não ia conseguir fazer nenhum comentário inteligente, sabe? Por isso preferi não falar muito. Mas saiba, seu trabalho é muito interessante, mesmo. Ou talvez um pouco menos, mas bem pouco. Ok, talvez ele seja realmente chato, mas quem sou eu pra criticar, certo?

Os cinco minutos que eu passei sem dizer nada não se devem a algum problema de autismo, como você provavelmente imaginou, mas ao fato de que eu estava te olhando e te achei tão linda que nem soube o que falar. Mas os dez minutos posteriores a esses foram culpa da minha total e completa incapacidade pra achar qualquer assunto vagamente interessante. E muito obrigado por ter ido ao banheiro e me dado tempo pra tentar entrar no google pelo celular e procurar algum assunto interessante pra começar uma conversa.

Sobre a gorjeta, eu realmente não paguei os 10% por causa da atitude do garçom, mas mesmo se ele tivesse sido solícito e não tivesse te assediado eu não pagaria, porque iria estourar o meu cheque especial e eu ando com o dinheiro contado nessa época do mês.

E agora algumas revisões finais: eu sou de centro-direita, mas disse que era de esquerda pra tentar te impressionar e quando você disse que era filiada ao PSDB eu achei que era tarde demais pra voltar atrás; curry me dá vontade de vomitar, mas quando você me ofereceu um pouco do seu prato eu aceitei pra não criar um clima chato; eu sou ateu e meu carro não está quebrado, é que eu nunca me interessei por aprender a dirigir e sempre prefiro andar de taxi.

Bem, desfeitas essas confusões, espero que no segundo encontro as coisas sejam legais como foram hoje, ok?

Beijo

Adolfo.

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6 Comentários

Arquivado em Crônicas, Desocupações

6 Respostas para “Revisões sobre um encontro

  1. ahahahahhahahaahhaha
    perfeito
    perfeito!
    ahahahahahahha

  2. ThiagoFC

    Ei, de qual história era mesmo esse Adolfo? (Tem como refrescar a memória? Eu não lembro mesmo, e tô com baita preguiça de pesquisar…)

    E se esse Adolfo for inspirado em algum alter-ego seu, quero deixar claro minha surpresa (e, por que não?, decepção) por suas convicções político-ideológicas. Hasta la victoria (mas não a Vitória no Espirito Santo…).

  3. Andrey

    Sem palavras. hehe

    Eu ri muito. Já presenciei situação parecida.

  4. Quase todos os meus personagens masculinos tem um nome que começa com a letra A.

    Adorei o texto. E acho que, sem dúvida, é tipo um alter-ego seu. Ao menos, eu imagino que esse é um e-mail que você já pensou em esboçar.

    Mudando de assunto, entre mais no msn! Saudade de conversar um tempão com você. Tempo que a gente não sai do oi tudo bem e aí como vai.

    Li um livro que acho que você iria gostar também. Não sei. Eu gostei, ao menos. É da Isabel Allende (aquela que escreveu Casa dos Espíritos que depois virou filme com o Antônio Bandeiras). Chama-se Paula e é sobre a morte da filha dela. Mas é mais sobre a vida dela mesma… e essa é a parte legal (a filha morrendo não é legal).

    A Isabel virou escritora depois dos 40 anos. Um dia sentou, foi escrever uma carta para o avô que estava morrendo e escreveu um livro. Casa dos espíritos, por sinal.

    Não sei… Mas me deu vontade de voltar a escrever. Aliás, de escrever um livro. Você também devia escrever um livro.

    Daí eu estava viajando na idéia de ser sequestrada. Sei lá. Vai que eu sou sequestrada? De vez em quando eu penso em coisas assim. Pois bem. Se eu fosse sequestrada, eu teria algum plot point pra escrever sobre a minha vida. hahaha… Daí eu pensei: pô… mas se eu morrer no sequestro?
    Daí me veio a seguinte idéia: vou pedir um caderno para os sequestradores e vou anotando tudo. Caso eu morra, eles tem que te dar as anotações pra você escrever o livro. Tudo bem? Aí você escreve um livro e as minhas memórias não morrem. E você ainda vai ter um puta marketing porque eu previ tudo isso antes de ser sequestrada!

    Ficamos combinados?

    hahaha

    Deixa eu ler os posts anteriores porque estou atrasada em visitas aqui.

    Abraço!

  5. hahahaha… muito doida a moça aqui de cima!!

    e, puxa, seria ótimo escrever emails assim, sinceridade totaaaal, para aquelas pessoas totalmente aleatórias que já cruzaram a nossa vida!

    mas olha, vou te dizer, não sei se fui só eu, mas a parte do ‘Os cinco minutos que eu passei sem dizer nada não se devem a algum problema de autismo, como você provavelmente imaginou, mas ao fato de que eu estava te olhando e te achei tão linda que nem soube o que falar’ quase compensou toda a tragédia da situação!

    gostei também do ‘Quando você falou sobre o seu trabalho e eu respondi com um “aham” não era porque eu não estava interessado, mas sim porque eu fiquei tão impressionado com a sua animação que não sabia direito o que dizer’. não pela parte cômica da coisa, mas a poética… muitas vezes eu me pego assim, impressionada pela animação ou jeito de alguma pessoa, e abstraio totalmente o assunto em questão… é… tô muito sentimental hoje!!

  6. Juninho

    A Elisa se droga antes de comentar aqui, chá de cogumelo total!

    E nem vc seria capaz de fazer isso, Jão, por favor, diz que não!

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