Problemas práticos do romantismo teórico – III

Eu sempre tive certas restrições ao conceito de amor a primeira vista. Primeiro pela razão mais óbvia, que é o fato de que eu sempre evito o uso de expressões em que eu não sei se a crase se aplica ou não (sou uma droga em gramática) e depois porque, ainda que o Ringo diga que “it happens all the time” eu sinceramente não boto muita confiança na coisa. O que seria amor a primeira vista, teoricamente? Seria bater o olho numa pessoa e, ali mesmo, simplesmente ao olhar, se apaixonar e decidir que ama aquela pessoa? É, assim, do nada, rápido como miojo, veloz como cup noodles. Mas isso realmente pode ser chamado de “amor” (seja lá amor o que for) ?

Bem, amor teoricamente é uma construção, um processo. Você conhece alguém, se interessa, vão se conhecendo e o que era interesse se torna paixão e com o tempo se torna amor. Pelo menos é essa a visão ocidental contemporânea, excluindo as minorias religiosas, os maníacos que seguem mulheres na rua e os meus pais. O amor é então uma coisa que precisaria de tempo pra nascer e seria fruto de uma conjunção de fatores, indo desde atração física, interesses em comum, compatibilidade de gênios e a vontade de superar as diferenças de interesses, gênio e outros coisas comuns e incomuns. Em suma, um treco complicado, difícil, raro e que dá um trabalho do caramba. Como então um troço desses poderia surgir depois de um olhar? (ainda mais pra pessoas com miopia ou astigmatismo)

Claro, a primeira impressão é muito importante. É no primeiro olhar que você vai tirar as conclusões básicas e decidir se vai valer a pena se esforçar pra tirar algum tipo de conclusão secundária. Existe atração? Ela faz seu tipo? Uma primeira impressão muito boa vai te despertar mais curiosidade e te fazer talvez começar um interesse mais intenso, mas chamar isso de amor ainda é um pouco exagerado, mais ou menos como descobrir que fica bem de laranja e por causa disso virar um monge budista. Ou seja, uma boa primeira impressão, por mais forte e positiva que seja, ainda é bem pouco pra se chamar de amor, já que uma segunda impressão negativa pode facilmente acabar com todo o encanto.

Mas claro, existe também o tesão, e o tesão é uma coisa engraçada, porque não segue critérios lá muito racionais. Atração física não se importa com credo,posicionamento político, gosto musical, área de atuação profissional ou a opinião dela sobre o rodízio de posições no vôlei moderno. E muitas vezes nem é aquela mulher que teoricamente faz o seu tipo em todos os aspectos físicos imagináveis e sim uma mulher que, por alguma razão biológica tão desconhecida quanto aquela que faz sua prima comer macarrão cru com Nutella, desperta na sua libido aquilo que o querido deputado Roberto Jefferson chama de “instintos mais primitivos”.

Óbvio que certas razões intelectuais conseguem abater a libido, ainda mais se forem bem apelativas e nem mesmo os neurônios mais criativos do seu cérebro conseguirem transformar a bizarrice em fofura (“ah, ela tá brigando com o garçom porque o sushi veio cru, que lindinha!”), mas quase sempre a atração física consegue ser predominante e chutar o balde de todo o resto. A soma de uma boa impressão com um nível de tesão quase patológico, daqueles que te deixam totalmente irracional diante de necessidade  de atacar aquela mulher num canto do bar-mitzvah do seu vizinho, pode causar uma ilusão de amor, afinal, o sentimento se torna meio incondicional e você também não está lá preocupado em criar condições ou racionalizar a coisa enquanto corre sem calças, vamos admitir. Mas isso é uma boa impressão somada com um nível alto de tesão, ou seja, um pouquinho menos do que amor.

Então de onde vem o amor a primeira vista? Qual a graça? Onde nasce a necessidade do conceito se a gente sabe que ele não existe de verdade? Nasce da facilidade de amar o que você não conhece. Pegue aquela garota linda que você só viu uma vez. (No caso eu estou falando em “pegar” no sentido de “tome como exemplo”). Nela você pode projetar todas as suas necessidades e pra ela você pode dar todas as qualidades do mundo, desde senso de humor, charme, inteligência e um pai rico que só bebe cervejas belgas até inteligência, companheirismo e a libido de um roedor em período fértil, coisa que você não pode fazer com a sua ex-namorada, sua amiga de infância ou a sua colega de trabalho. A chave para o amor a primeira vista é que ele elimina o processo e chega direto no resultado, ele é um atalho para algo que deveria pedir uma estrada.

Quando alguém se “apaixona perdidamente a primeira vista” ela não está se relacionando com a pessoa em si, mas com a projeção que ela faz da pessoa. E claro, todos nós fazemos isso em todos os relacionamentos, projetamos coisas, alteramos nossas percepções, mas no amor a primeira vista você não revisa um texto pronto ou altera uma borda de papel, você tem toda uma página quase em branco, apenas com bordas serrilhadas e umas margens legaizinhas, pronta pra receber seja lá o que você quiser colocar, inventar ou imaginar: você praticamente inventa uma pessoa e se apaixona por ela. E sério, é fácil se apaixonar por alguém se você mesmo puder imaginar a pessoa do jeito que você quiser.

E bem, ou é isso ou amor a primeira vista é apenas mais uma expressão idiota que eu levei a sério demais. Eu sempre faço isso, é um saco.

P.S: Estou de mudança para a casa onde vou morar pelos próximos 12 meses (depois escreverei um post emocionado sobre isso) e portanto devo ficar sem internet por um certo tempo, dependendo da disposição dos técnicos cariocas da Net. Ou seja, qualquer coisa que quiserem falar comigo até 2011, me mandem cartas.

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9 Comentários

Arquivado em Crônicas, Desocupações

9 Respostas para “Problemas práticos do romantismo teórico – III

  1. ThiagoFC

    Eu posso estar enganado, mas tenho quase certeza que “amor À primeira vista” leva crase.

  2. ThiagoFC

    p.s: concordo com a coisa da projeção em cima de uma folha em branco. É muito mais fácil imaginar o que você deseja do que mudar ou aceitar o que você não deseja.

  3. Não acredito em amor à primeira vista, porque amor realmente demora. Mas acredito num negócio chamado “eu sei que isso vai pra frente à primeira vista”. Troço estranho, mas é assim que as coisas são. Ou não?

    Boa mudança pra você! E boa sorte com os técnicos da internet!

  4. Interessante a reflexão. Interessante também como amores à primeira vista ruem tão rápido.

    E tem crase sim. Fiz questão de conferir no meu Manual de Redação do Estado de Minas pra não falar bobagem.

  5. É, acho que é a tal da coisa do ” arquétipo”, da figura ideal, que só existe e só pode existir dentro da gente, por que possui guelras capazes de absover oxigênio das nossas carências internas. Ok, que merda foi essa q eu acabei de falar?

    As pessoas acreditam em amor a primeira vista por que acreditam em hollywood, em sinos tocando e em trilhas sonora. Mas tem uma coisa que se assemelha, pelo menos pra mim, que é a ” reciprocidade de interesse”. Sabe aquele momento sublime e raro qdo vc entra numa festa, numa boate, numa bodega, e a menina por quem vc se interessou demonstra interesse simultâneo? Pode ser que ela tenha apenas achado vc uma pessoa simpática e vc tenha achado o decote dela duas pessoas simpáticas. Mas o fato é que o interesse foi mútuo. Pra mim isso é amor a primeira vista.

    E, claro, lembre-se que o ringo tinha certeza.

  6. Juninho

    Amor à primeira vista na balada???

    Ahhhhhh tá!

  7. Pô, véio, genial a sua análise.

  8. ótimo texto. sobre a primeira impressão levar a uma impressão secundária, acho que resume bem a coisa. e há também os símbolos que a pessoa projeta em si mesmo, dizendo: Sou como você!

  9. TG

    Mandar cartas??? o que te faz pensar que a galera carioca dos Correios seja mais responsável e/ou pontual que os técnicos cariocas da Net?

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