Don’t play it again, Sam, for god’s sake!

“Caro Rick,

Como vão as coisas? Tudo indo bem por aí? Faz tempo que não nos vemos, hein? Desde aquela reunião na França, se me lembro bem. Soube que muitas coisa aconteceram por aí, você esteve no meio da Guerra e tudo mais. Agora está no Congo. Quem poderia imaginar, hein? Você, meu amigo Rick, no Congo. Impressionante, cara.

Sobre mim eu posso dizer que pouca coisa mudou. Voltei para a antiga fazenda, me casei com Peggy Sue e tomo conta da loja de ferragens do pai. Eu sei, eu sei, nem de longe tão emocionante quanto a sua vida, mas fazer o que, certo? Alguns de nós simplesmente preferimos voltar pra casa quando tivemos nossa chance.

Mas deixando as amenidades de lado existe uma pergunta que eu e vários amigos queríamos realmente te fazer, Rick. Espero que você não considere isso grosseiro, afinal, é apenas uma dúvida entre velhos conhecidos e só perguntamos porque soubemos de alguns boatos e ficamos preocupados contigo. A pergunta é bem simples, Rick: que porra foi aquela com a Ilsa? Sério, Rick, que merda te passou pela cabeça pra ajudar aquela piranha?!

Na boa, cara, eu realmente não entendo. Sei que você tem toda essa coisa cool, todo esse jeitão de “não tô aí pra nada”, mas pelo amor de deus! A mulher te largou, a mulher não se deu ao trabalho de telefonar, de explicar nada, ela apenas sumiu! Sumiu! Lembra da merda em que você ficou? Espero que se lembre, porque todos nós lembramos, Rick. Você escreveu o nome dela seguido de palavrões em todos os banheiros da Europa que ainda não tinham sido ocupados por Hitler! Você telefonava de madrugada xingando e dizendo que ela era uma traidora vagabunda, Rick! Você ficou deprimido, bebendo. Lembra aquela noite em que você tentou agarrar o Sam pensando que ele era a Ilsa? O Sam, Rick, o Sam!

E em que estado ela deixou a sua vida? Você virou um dono de boteco na África. Um boteco. Na. África! E por favor, não me venha com essa de que Casablanca é um ponto vital para a guerra ou coisas do tipo, nós dois sabemos que isso é só papo seu. E aí, depois dessa bosta toda que aconteceu na sua vida essa mulher aparece e o que você faz? O que você faz?! Você arruma vistos pra ela e pro marido dela (também conhecido como “o cara por quem ela te chutou”) saírem de Casablanca! Vistos! Vistos que você poderia ter vendido, doado, picotado, usado como porta-copos, qualquer coisa! E por que? Porque ela te disse que quando vocês estavam juntos ela não sabia que o marido estava vivo? Que tipo de mulher é tão burra assim? Por favor, será que sempre que o Laszlo deita pra dormir ela sai tendo casos porque não sabe se ele vai acordar? Qual o problema com ela?! E qual o problema contigo?!

Sério, tenha alguma dignidade! Não basta virar um dono de bar, agora você ainda se tornou um daqueles caras que aceitam ser capachos de qualquer maluca? E que papo é esse de ter amigos franceses? O que vai vir agora, teatro infantil? Hein? Hein? Sério, Rick, que merda.

Um abraço e tomara que tudo dê certo.

Ted”

*Este texto provavelmente só vai fazer algum sentido se você assistiu Casablanca. Mas eu não darei garantias de nada.

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5 Comentários

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5 Respostas para “Don’t play it again, Sam, for god’s sake!

  1. ThiagoFC

    Porra, agarrar o Sam é sacanagem…

    E quem não viu Casablanca ainda, se estiver lendo isso aqui, deve sair da internet imediatamente e ir ver esse clássico. Além de entender esse seu texto, vai conhecer algumas das melhores e mais bacanas frases de efeito, além de começar a cantarolar a Marselhesa.

    “Com todos os bares, de todas as cidades, de todo o planeta, e ela entra no MEU”.

    “Paris. Eu me lembro de cada detalhe. Você usava azul, os alemães usavam preto”.

  2. Cecilia T.

    hehehe ótimo texto!

    e aproveitando a deixa do comentário anterior
    tô indo agora pro Emule pra baixar esse filme. =D

  3. “Don’t play it again, San… Don’t play Calypso again…”

    Por que eu disse isso?

    Enfim…

  4. Minha cultura em artes cinematográficas realmente não é meu forte. Mas eu gosto de ler seus artigos, mesmo sem sacar muito.

    Acho que eu só vou entender completamente um post destes quando o título for “It means no worries for the rest of yor days. It’s our problem free”.

  5. Eu não vi o filme (morro de vontade porque, como diria o Sílvio Santos, meus amigos viram e disseram que é muito bom), mas entendo a idéia central do post.
    E entendo porque, nesta longa estrada da vida, não foram poucos os momentos em que fiz o papel de Ted, alertando amigas de que é melhor resistir ao salafrário de uma vez por todas se não quiser ver a dignidade no chão pela segunda (ou terceira, ou quarta…) vez.
    Acho que por isso sou uma das poucas pessoas no mundo que nunca pegaram ex. Não que isso tenha me poupado de cometer outro tipo de idiotice sentimental, afinal ninguém está imune.
    Mas é isso. Belo texto, totalmente pertinente.

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