Ga-ga-gagos

stutter

*Este texto foi produzido nos tempos de Viçosa, antes da mudança pro Rio, no período máximo da tensão pré-convocação e foi reencontrado num pen-drive, sendo publicado porque eu não gosto de desperdiçar um texto, por mais besta que ele seja…

Como eu já disse antes, eu ando nervoso, preocupado, ansioso e tudo mais. E diante dessa situação vem à tona outra das fascinantes características que me tornam esse partidão que todos vocês conhecem: eu sou meio gago. Quer dizer, meio gago não, porque “meio gago”, assim como “meio grávida”, “meio gay” e “meio alcoólatra” é um desses conceitos esquisitos que as pessoas inventam pra esconder parentes que as envergonham. E como o alcoolismo, a gagueira é uma coisa que pode ser controlada (dizem) mas que nunca acaba. Afinal, eu consigo passar horas sem gaguejar, mas subitamente a coisa volta e lá estou eu dando declarações remixadas de novo. Mas se vou falar disso, vamos começar pelo começo.

Ao contrário do que muitos pensam, não se começa a gaguejar assim que se começa a falar. Por mais engraçada que a idéia de bebês dizendo “gu-gugu dá-dádá” ou de crianças chorando “bu-buáááá” possa parecer para certas mentes doentias, quase todos os casos de gagueira de desenvolvimento (como o meu caso), começam na adolescência ou na pré-adolescência. Eu, por exemplo, era um garotinho nerd irritantemente bem articulado até os oito, nove anos, quando alguma coisa (minha mãe culpa o divórcio, meu pai culpa a mudança para Minas, meu avô Rubens culpava a zaga do América-RJ. Por tudo) me fez começar a gaguejar em diversos tipos de situação. Ou seja, em algum momento entre a separação dos meus pais e a minha ida pra Juiz de Fora, jazem a minha dicção e a minha fluência verbal, muito possivelmente ali perto da Casa do Alemão, na serra de Petrópolis.

E esse meu tipo específico de gagueira tem algumas particularidades interessantes que surgem do fato de ser um problema de cunho totalmente emocional, como por exemplo o fato de que a intensidade dela varia de acordo com a minha situação e estado de espírito (daí o “meio gago”). Se eu estou, por exemplo, conversando com a minha mãe, batendo papo com amigos íntimos, bêbado (ou mesmo conversando com a minha mãe e com alguns amigos íntimos enquanto estou bêbado), eu simplesmente não gaguejo. Por outro lado, em situações em que estou acuado, nervoso, inseguro, preocupado, ou chegando em alguém (o que costuma me deixar acuado, nervoso,inseguro e preocupado) eu simplesmente sou incapaz de concatenar qualquer palavra sem transformá-la em um polissílabo repetitivamente bizarro. Mas claro, isso não segue sempre essa lógica. Se eu ficar suficientemente irritado, empolgado ou mesmo mudar meu tom de voz ou meu ritmo de falar, a gagueira também desaparece totalmente, o que seria uma boa solução se fosse possível estar sempre revoltado com o ataque do Flamengo, sempre falando sobre quadrinhos ou sempre usando sotaque gaúcho e imitando o Selton Mello.

E mesmo que eu já tenha aprendido a conviver com o meu problema de dicção, ser gago ainda tem seus aspectos irritantes. Além do aspecto de não falar direito e repetir sílabas, claro. Primeiro são as péssimas piadas de gago. Sério, fora aquela do guia africano avisando que o hipopótamo está chegando, é muito complicado ouvir boas piadas de gago nos dias de hoje*. Outro lado chato é que a gagueira não é realmente vista como um problema ou um “handicap”, ainda que, num certo nível, ela seja. Afinal, pessoas com problemas de dicção são livremente zoadas por aí, o que não é feito (em locais civilizados) em relação a pessoas com outros problemas ou limitações. Afinal, imitar um gago hardcore é quase tão cruel quanto dar uma rasteira num cara de muletas, mas mesmo assim é algo muito mais aceito pela sociedade (e eu já passei pelas duas situações, eu sei bem).

Ou seja, ser (estar) gago é basicamente um saco. Te faz ficar tímido (ainda que eu não saiba direito se eu sou um cara gago que ficou tímido ou um cara tímido que ficou gago), te elimina várias oportunidades profissionais (“sabe aquele seu sonho de narrar rodeio, Toby?”), atrapalha a sua vida pessoal (sério, só quem acha gagueira fofinha é fonoaudióloga, e da mesma forma que um dono de funerária acha uma chacina “simpática”) e ainda pode colocar sua vida em risco (“eu preciso de um mé-mé-mé-di-di–…ah, esquece, acho que vou morrer mesmo…”). Só existe uma e somente uma coisa no universo que consegue tornar menor o sofrimento de um gago: ver um fanho falando. Sério, fanhos são hilários!

Ok, ok, foi uma piada ruim…Mas quantas boas piadas de fanhos existem também, né? Complicado, cara…

*Na verdade a coisa mais engraçada relacionada a gagueira que eu vi nos últimos anos foi uma propaganda da campanha nacional de combate (ataque? extermínio? destruição?) da gagueira com o tema “Gagueira não tem graça”. Ou seja, se precisarem da definição de fail em termos de publicidade institucional, citem “fazer um gago rir numa propaganda com o tema gagueira não tem graça”.

Anúncios

17 Comentários

Arquivado em Crônicas, Vida Pessoal

17 Respostas para “Ga-ga-gagos

  1. Caro João Luís,

    Recebi um alerta do Google avisando-me deste seu texto, como costumo ser avisada sempre que algo sobre gagueira é colocado na internet.

    Sou fonoaudióloga e uma das coordenadoras da campanha nacional relacionada ao Dia Internacional de Atenção à Gagueira. Assim sendo, sou uma das divulgadoras do mote “Gagueira não tem graça. Tem tratamento.”

    Após você discorrer sobre sua gagueira, o transtorno que ela lhe traz e sua percepção da crueldade com que a gagueira é muitas vezes enfocada, chama minha atenção você considerar hilário o tema de nossa campanha.

    Não é difícil captar, através de sua apresentação pessoal em “O autor” que seu intuito é efetivamente ser engraçado, mas o nosso intuito com a campanha é divulgar que muitas outras pessoas que gaguejam, provavelmente a maioria delas, não querem ser vistas como engraçadas e que têm o direito de serem respeitadas, especialmente em relação à presença deste distúrbio da fluência que é tão complexo.

    É importante destacar, embora óbvio, que os fonoaudiólogos não consideram a gagueira “fofinha”!

    Seria bom divulgar nesta sua coluna, que no mês passado tivemos um encontro internacional no Rio de Janeiro voltado à discussão deste tema com a presença de pesquisadores mundialmente reconhecidos; que temos inúmeros artigos e livros publicados, no Brasil e no exterior, e inclusive uma revista específica “Journal of Fluency Disorders”.

    No Brasil temos instituições sérias que se dedicam à questão, como o Instituto Brasileiro de Fluência- IBF. No site desta entidade você poderá atualizar seus conhecimentos sobre a gagueira e ficar sabendo dos achados neurológicos mais recentes relacionados a esta. (www.gagueira.org.br)

    Para nós, seria importante ter você como aliado neste nosso modo de enfocar a gagueira: com seriedade.

    Um abraço,
    Eliana Maria Nigro Rocha

    • João Baldi Jr.

      Vamos lá:

      -Eu, como gago, considero a gagueira um problema sério, com toda a certeza. Mas tenho como convicção pessoal que nenhum problema é sério o bastante para impedir que em cima dele seja feito humor. Apenas tento fazer humor baseado nos problemas que eu compreendo e compartilho. Não faria uma piada sobre qualquer outro problema ou distúrbio do qual eu não compartilhasse, porque considero que não teria capital moral para isso.

      -A piada sobre fonoaudiólogos acharem a gagueira fofinha foi, como você notou, uma piada. Não acho que vocês realmente pensem assim. Mas se pensarem tentarei chamar alguma fonoaudióloga pra sair numa noite dessas.

      -Tento me manter atualizado sobre o assunto e realmente soube do encontro internacional ocorrido no Rio, que teve até uma boa cobertura da imprensa. Com exceção, claro, da matéria do Maurício Kubrusly no Fantástico, em que ele fez piadas sobre gagos. No meio de um encontro sobre o tema. Sem ser gago. E eu realmente não teria me sentido incomodado se as piadas dele não fossem tão ruins.

      -Como conclusão final gostaria de deixar claro que o fato de ser capaz de extrair humor de um problema que me aflige não significa que eu não leve esse problema a sério ou não respeite as pessoas que, por opção ou não, não tratam o tema com a mesma leveza.

      E po-por hoje é só pe-pessoal. (desculpe, eu não resisti…)

  2. ThiagoFC

    Cara, após ler o comentário acima, cheguei a uma conclusão: os gagos de Cataguases te odeiam!

  3. Andrey Brugger

    Ai ai..

    após esse lacônico comentário meu, quero avisá-lo que eu comentei naquele outro post, em que você faz uma propaganda do seu livro de contos! hehe

    Eu topo! Somente para restar claro! :D

    Abraço

  4. hahaha, caraaa, teu blog é uma comédia, sempre atraindo pessoas aleatórias e gerando polêmia! um vendaval de emoções! ‘nego’ chega do nada, vai sentando na janelinha e ainda grita com o motorista… vou te contar! como dizia um professor meu, “jornalista que não tem inimigo não é um bom jornalista”. bom, eu não concordo e nem gosto desse professor, mas enfim, achei pertinente a citação.

    no mais, i might say que apesar de não ser fonoaudióloga, sempre achei um charme meninos levemente gagos! e, por mais que pareça, isso não foi uma cantada, ok? hehe

    Ah, sim, menção honrosa para o “eu preciso de um mé-mé-mé-di-di–…ah, esquece, acho que vou morrer mesmo…”… hahaha, muito bom!

  5. Juninho

    Que porra é essa, cara???

    hauhauhauhhahauhuahhauhauhuahuahuahuahuhauhuahuahuhahuaua

    Isso foi um fake seu, não foi, fala sério?

    E eu conheço uma ótima piada de gago, do cara que liga pra polícia informando um homicidio e não consegue dizer o nome da rua e tal… Essa é mto boa, cara!

  6. ahhaahhahahahhahahahhahahhahahahahahahhahahahahahahahahah
    hahahahahahahahhaha

    cara, genial!
    genial!
    eu ia fazer um comentário sério, mas depois de ler o incidente acima citado, ahahhahahahhahaahah
    genial!

  7. Renato Mazetti

    João,

    Tendo em vista o grande nível de desconhecimento da população sobre gagueira, a informação abaixo pode ser especialmente útil para quem acha que gagueira é emocional, psicológica, coisa de gente ansiosa ou vício que se pega por imitação.

    Já existe um exame de neuroimagem capaz de detectar uma base física para a gagueira. Chama-se “ressonância magnética por tensor de difusão”. Este exame tem mostrado diferenças em uma variável chamada anisotropia fracional na matéria branca do cérebro de pessoas que gaguejam.

    Ou seja, a neurologia moderna está mostrando que a gagueira não é “um problema de cunho totalmente emocional”, como por muito tempo se acreditou.

    Para quem estiver interessado em mais informações sobre a descoberta, recomendo a leitura do artigo abaixo:

    “O segredo que se esconde na matéria branca”

    Um abraço,
    Renato Mazetti

    • João Baldi Jr.

      Ei, isso foi realmente interessante!
      Obrigado, Renato!

      (Viram, não é culpa minha! é porque eu tenho um dano cerebral! realmente me sinto bem me…não, não me sinto melhor…droga…mas pô, foi interessante mesmo.)

  8. Juninho

    “anisotropia fracional na matéria branca do cérebro”

    Sei que vou ter dificuldade pra decorar isso, mas pra te zuar vale a pena…

  9. Ricardo Carvalho

    João, você já teve a oportunidade de assistir a este curta-metragem sobre gagueira no youtube?

    http://www.youtube.com/watch?v=Y6bzpvjvy3k

    Conheci por indicação de um amigo no twitter. Ele me passou o vídeo comentando que “qualquer piada sobre gagueira imediatamente empalideceria diante deste curta-metragem”.

    Devo admitir que ele tinha razão.

  10. po, eu gostei da piada dos fanhos!

  11. e aliás, tenho problema semelhante em relação a minha altura (1,50m) e ao problema de vermelhidão facial intensa e constantemente. Ambos são ridicularizados abertamente pela sociedade sem qualquer compaixão!

  12. Victor

    Querida Eliana Maria
    O nosso coleguinha aí relatou uma serie de problemas e curiosidades sobre a gagueira dele, e coincidentemente sao bem parecidos com os meus, o que achei interessante e que quando voce começou a falar que era isso e mais aquilo outro, eu inocentemente achei que vc iria explicar os motivos que levam a esse problema mais nao, seu foco foi descascar nosso caro amigo pq ele lava a coisa no bom humor, na boa, tu devia ao invés de querer se mostrar tentar explicar algumas coisas, já que vc e a profissional e vc que entende os motivos disso acontecer, e pra ser bem sincero com vc, estou falando isso pq também sou gago, tem situações que nos mesmos achamos engraçado o fato de gaguejar, já que temos o problema o negocio e levar no bom humor e tentar resolver a situação.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s