It’s all about the music

Eu gosto muito de musicais. Claro, eu não comento isso muitas vezes, afinal, quando se é um cara de 24 anos solteiro que não gosta de carros e até bem pouco tempo morava com a mãe, dizer que gosta de musicais é como colocar mais uma pecinha nesse belo quebra-cabeças de 500 peças que quando unidas formam para algumas pessoas a frase “mas é um baita de um veado mesmo”. Só que eu realmente gosto de musicais. Não apenas pelo fato de que eu gosto muito de música e cinema e quando as duas coisas se unem a chance de que eu não goste é praticamente nula (só se as músicas forem muito, mas muito ruins e o roteiro for uma verdadeira porcaria, algo como Uwe Boll dirigindo “Didi e a cantora de mambo Lili”), mas porque os musicais pegam pesado em uma das partes que eu mais gosto na ficção, a suspensão da descrença.

Suspensão da descrença, pra quem não se lembra, é uma etapa do processo de compreensão da ficção em que você abre mão de certos pressupostos da realidade para poder aproveitar melhor a experiência ficcional. Por exemplo, quando você vê um filme sobre uma invasão alienígena, ignorar que não existe comprovação de real vida extraterrestre faz parte do processo de suspensão da descrença, assim como ignorar que existe um limite de balas por arma num filme de faroeste e que nem mesmo o Bruce Willis pode derrubar um helicóptero usando um carro em Duro de Matar 4. Isso é, em uma visão simples e tosca, suspensão da descrença: ignorar algum aspecto relativamente forçado da obra para não tirar toda a graça dela. (mães e namoradas costumam ter algumas dificuldades com esse tipo de conceito, dizendo frases como “é claro que uma aranha radioativa não dá poderes, só alergia” ou “mas nunca que ele ia conseguir acertar um tiro dessa distância!”)

E a graça dos musicais está nisso: eles exigem que você, por um bom tempo, abandone totalmente o conceito de que as pessoas não saem cantando por aí no mundo real, o que, vamos admitir, pode exigir um grande esforço mental. Pense em “Cantando na chuva”, por exemplo. Um cara, adulto, num dia chuvoso, pendurando-se em postes e rodando com seu guarda-chuva enquanto canta que está cantando na chuva e feliz novamente. Isso no mundo real resulta em que? Internação, medicação pesada, uma licença longa do trabalho e ter que mudar de cidade. Mas no filme isso é normal, ninguém acha excessivamente esquisito e todos ficam sorridentes. Pense em todas as vezes em que Gene Kelly ou Frank Sinatra saem dançando e sapateando no meio de uma discussão e a outra pessoa não acha que eles estão drogados, pense em Hair e naqueles cabeludos da década de 60 cantando por aí…Ok, Hair foi um péssimo exemplo, as pessoas realmente eram daquele jeito na época.

Nisso mora a graça dos musicais pra mim: na visão de um mundo mais simples, mais irreal, onde cantar na rua é normal, dançar com uma bengala diante de uma fonte é socialmente aceitável e “Xanadu” não vai obviamente destruir a carreira de qualquer um que tenha participado da produção em qualquer nível. Musicais se passam em universos paralelos de compreensão mútua e entendimento geral, onde ninguém estranha nada, todos abrem seu coração na frente de estranhos e você pode começar uma conversa com “eu não gosto do seu pai” e terminar com uma cover de “Like a virgin” acompanhada por um acordeom enquanto dezenas de garotas vestidas de girafa dançam passinhos de polca. O que qualquer um de nós não daria por um dia num mundo assim? Garotas vestidas de girafa dançando polca, caramba!

Pense naquela discussão com seu namorado que, se a sua vida fosse um musical, você poderia ter entrado com um “You’re so vain” (sim, eu gosto de Carly Simon..mas não muito), aquele dia em que você estava na fossa por causa da sua ex-namorada e sentiu vontade de cantar “I hate it here”, mas faltou acompanhamento musical ou mesmo aquela final de campeonato em que, ok, seria um clichê, mas todo mundo queria cantar “We’re the champions” e se segurou.  Musicais são interessantes por isso, por exemplificar na ficção um mundo em que as pessoas podem se expressar de forma mais clara, com uma catarse de via artística, sem que todo mundo fique olhando torto. Musicais são legais! Ou pelo menos é isso que você deve pensar quando olhar para aquele seu amigo que está se empolgando demais com aquelas cenas de Hairspray ou Os Produtores. Porque sério, ele não é gay, cara. Na boa mesmo.

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6 Comentários

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6 Respostas para “It’s all about the music

  1. Você não sabe o número de vezes que eu pensei em cantar “I Hope You Die” do Bloodhound Gang com o dedo em riste na cara das atendentes das faculdades que eu estudei…

  2. Meus amigos me acham esquito desde que eu confessei que supermercados me lembram musicais. Sempre imagino pessoas saindo dos corredores, cantando e dançando… Com os carrinhos, é claro…

  3. ThiagoFC

    Eu gosto de música e de cinema, muito até, mas não gosto de musicais. Aliás, acho até que os odeio (apesar dos que fogem a essa regra geral, como South Park e Team America).

    Suspensão da descrença por suspensão da descrença, sou mais viagens no tempo, sabres de luz e lutar 15 rounds contra o Ivan Drago (com direito aos russos comunistas passarem a torcer para o yankee no fim da luta).

  4. Juninho

    Eu realmente não gosto de musicais…

  5. Dani Dani

    Eu não gosto de musicais, mas assisti um filme esses dias (logicamente, sem saber que era um musical) e amei!!!
    O filme é Across de Universe. Só músicas dos Beatles! Imperdível.

  6. Rodrigo!

    Cara, eu também sou fã de musicais. Sério. De verdade. De musicais e Comédias Românticas. Minha namorada diz que sou um caso perdido, mas vou tentar usar essa argumentação a respeito de “Suspensão da Descrença”, ver se assim ela se convence e pára de duvidar da minha masculinidade…

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