Adendos ao pequeno dicionário pessoal de sensações esquisitas

Cena 1

Você vê no orkut o perfil de uma garota que você conheceu e ela parece sensacional. As comunidades certas, o senso de humor, a cultura geral, quadrinhos, filmes, bandas, tudo onde você gostaria que estivesse. Ela também é bastante atraente ou então tem uma enorme capacidade para manipular fotos no photoshop, o que, ok, não é a mesma coisa, mas é uma qualidade a se respeitar. E você fica durante uns dez minutos pensando que ela é o tipo de garota com quem realmente seria interessante ficar, exceto pelo fato de que ela mora, não sei, em Tegucigalpa e provavelmente tem um namorado chamado Bruce Leroy que é versado em alguma arte marcial legal e é pastor de lhamas part-time. Ou nessa parte você está apenas viajando, é possível, você faz essas coisas. Aí você interrompe esse pensamento e sai com seus amigos para uma festa onde você conversa durante meia hora com uma garota que comenta contigo que odeia filme legendado porque não gosta de ler e as letrinhas dão preguiça. E você pensa se não existe algum tipo de descompasso entre certos aspectos chave da sua vida. Mas aí começam os shots de tequila e bem, você sabe como essas coisas são.

Cena 2

Você está em casa e um amigo diz que tem uma idéia “show de bola” pra uma “balada”. Você, mesmo não gostando da palavra “balada”, porque te faz pensar numa noite inteira ouvindo canções lentas da Joni Mitchell, topa e vai, junto com outros amigos, depois de ouvir meia hora de conversa sobre como é perto, divertido, bem freqüentado e interessante. Dentro do táxi, lá pela hora em que o taxímetro marcava uns dezoito reais, as palavras utilizadas para descrever o lugar passam a ser “alternativo”, “hypado” e “aconchegante”. Quando o taxímetro está em vinte e poucos reais você começa a desconfiar que ou o lugar é longe ou o taxista não sabe como chegar, ou mesmo as duas coisas, como você passou a imaginar depois que ele tentou soltar você e seus amigos na frente de uma boate gay alegando que lá era o lugar que vocês tinham pedido.

E por fim vocês chegam, em uma rua esquisita, vazia, distante de tudo, diante de um prédio antigo com aparência de abandonado. Ao lado dele um botequim onde um velho usando um tapa-olho e uma camisa da campanha do Collor toma cachaça no gargalo enquanto faz carinho em um cão aparentemente morto. Do outro lado da pista um carro destruído, provavelmente incendiado. O único som na rua é o dos passos de um grupo de rapazes de boné com camisas de cantores de hip-hop, que parecem estar rodeando os seus colegas, já que vão e voltam toda hora.

Você começa a reparar nas pessoas que estão entrando na “balada” e em cinco minutos conta três anões, um cara com uma espada, dois homens levando um grande saco plástico preto de conteúdo duvidoso e uma mulher sendo empurrada numa cadeira de rodas, desacordada. Você olha para a rua e nota que o último táxi que passou por lá foi o seu e por sinal o motorista parecia bem preocupado, tanto que arrancou muito rápido com o carro e tinha até proposto que vocês não abrissem a porta e sim saíssem pulando pela janela pra que ele não precisasse parar. Você se vira para a funcionária da entrada e pergunta quanto é pra entrar, ao que ela responde, coçando a barba com o ganho que tem no lugar da mão, que é dez reais, mas só vão abrir em meia hora e você vai ter que esperar na rua até lá.

Em algum lugar da sua cabeça um dos seus neurônios respira fundo e diz para si mesmo “éééééééé…”

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12 Comentários

Arquivado em Crônicas, Mundo (Su)Real, Vida Pessoal

12 Respostas para “Adendos ao pequeno dicionário pessoal de sensações esquisitas

  1. Isso me lembrou a genial frase “você acha que eu vou colocar o meu carro nesse lugar?”…

  2. ThiagoFC

    Massa, véi. Super-transado. Doideira. Fissuradão.

    (os caras falam desse mesmo na tal loja do post anterior?)

  3. Juninho

    Falam, Thiago, pior que falam…

    E eu consegui imaginar esse lugar, e eu não desceria lá nem fudendo….

  4. Olha, já estive em algumas furadas dessas. Foda é a sensação de que você vai morrer e que, provavelmente, os últimos a saber serão sua família. Mas, por algum motivo estranho, depois que eu entrava no lugar eu ficava com alguma mulher gorda e só ia embora depois de amanhecer!

  5. você realmente dá importância demais a essa coisa de que uma garota legal tem que gostar das mesmas coisas que você! tudo bem que se ela tiver preguiça de ler legendas fica difícil, mas, cara, abra sua meeeeente, gay também é geeeente… e não, não estou sugerindo que você mude de opção sexual, é só a velha mania de encaixar músicas em toda e qualquer conversação.

    e tequila é mesmo um problema! transforma as pessoas esquisitas da festa estranha em ‘estilosas’… um perigo, um perigo!

  6. Marília

    Olha, você tem que pensar que ir no lugar desses rende no mínimo uma experiência social muito interessante.

  7. Cara, duas coisas:

    1 – Nunca dê continuidade a nada que tenha se iniciado com as palavras ” balada” e ” show de bola” ou que se desenvolva para ” hypado”.
    2 – bom, se o meu sexto sentido aranha ainda funciona ( desde aquelas férias de verão na Bahia quando eu molhei meu kit de super herói tenho tido problemas com o sexto sentido aranha), mas se ele ainda funciona, então só posso te consolar dizendo que, embora próximas, goiânia ainda é mais perto que tegucigalpa. E tem aeroporto. Imagina se fosse na época dos bandeirantes, e vc tivesse que chegar aqui no lombo de uma mula? Por isso, meu caro, ouça essa pessoa que nunca te viu na vida: vá em frente que vale a pena, okays?

    • ThiagoFC

      “Goiás? Pô, véi, curto muito Goiás. Estado super-transado. Fissuradão mesmo. Nunca fui, mas acho da hora. Gatinhas de Goiás? Muita fissura. Doideira. Massa, véi!”

  8. Eu posso citar uma dúzia de filmes que são melhores dublados do que legendados… Mas fica pra próxima.

    Sobre a segunda cena, meu sonho é carregar um anão pra ele balançar as perninhas. Ou isso ou ter um nepalês de 56 cm pra carregar dentro da bolsa: http://aki-tem.com/nepales-de-56-cm-quer-titulo-de-menor-homem-do-mundo.html

    Sobre as baladas… Joni Mitchell é mulher, não?

    • João Baldi Jr.

      Sim, sim, eu errei o artigo e mudei o sexo da cantora…Vacilo meu…

      (E filmes que eu vi primeiro dublados e que passei a considerar clássicos eu prefiro dublados…e os do Shrek, porque o Bussunda era engraçado)

  9. Lili

    Por que será essa “balada” me parece ligeiramente familiar?

  10. PC

    É cara! Tudo isso é muito complicado, ainda mais se depois de ir vc querer voltar, achando que tudo pode ser diferente…

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