Problemas práticos do romantismo teórico – IV

Em inglês se apaixonar é “fall in love”. E em francês, se eu me lembro bem das aulas, é “tombe amoureux”. As duas expressões, se traduzidas literalmente, iriam dizem quase a mesma coisa, “cair em amor” ou “cair de amor”. O que, se você pensar bem, tem uma diferença clara em relação ao nosso “se apaixonar”: em português parece que o ato é voluntário e isso me faz por alguns segundos achar que os franceses e os americanos entendem melhor o que está acontecendo nesse tipo de situação.

Estar apaixonado nunca me pareceu uma coisa muito voluntária. Não que todos nós não façamos coisas de propósito pra ficarmos meio bobos, entendendo tudo errado, nos preocupando com bobagens, rindo sem razão ou chateados sem um bom motivo, claro que fazemos isso. Mas quase sempre a razão vem em garrafas e já no rótulo sabemos a graduação alcoólica, além dos efeitos passarem na manhã seguinte deixando apenas a dor de cabeça residual, as roupas amassadas e as dúvidas sobre como chegamos em casa, porque tem batom no meu joelho e o que aquele animal empalhado está fazendo na beliche de cima. Mas estar apaixonado? Estar apaixonado é muito mais complicado e muito menos voluntário.

Primeiro porque estar apaixonado, assim como usar LSD, ou torcer pra algum time de futebol é algo que causa uma alteração grave na sua percepção da realidade, como eu já disse. Você perde noção das prioridades, começa a se preocupar com coisas meio sem sentido, acha graça em coisas que antes mereceriam de sua parte apenas um “ah, não fode” e começa a tomar diversas atitudes totalmente atípicas e bizarras sem nem ao mesmo notar. Mulheres decididas e independentes se tornam garotas que fazem beicinho, caras grossos e insensíveis se tornam moleques que brincam de “ah, desliga você, vai…”,homens sovinas acham normal pagar 150 reais por uma noite de cinema a dois e sua tia que odiava os homens solta frases como “não consigo parar de pensar naquele bigode”.

Segundo porque você não escolhe. Ok, você pode reduzir a margem, minimizar o grupo de trabalho, se focar nas opções viáveis e racionais, isso ajuda. Mas nada garante que vai funcionar. Você tenta se manter neutro, tenta ficar na sua, tenta não se comprometer, ficar solteiro e em duas semanas está namorando, em dois meses noivo, e antes que se possa dizer “vamosmarcarsuadespedidadesolteiroeroubarotigredomiketyson” você já se casou e tem um amigo cantando “You are so beautiful” durante a festa. Você se compromete com relacionamentos fáceis, lógicos, simples e sem conflitos e em breve se apaixona por uma panamenha que conheceu no “pen pal club”, cuja mão já está prometida para um chefão do narcotráfico curdo conhecido como “Harum Corta-Bagos”. Não que quando você for se apaixonar por alguém vá sempre “escolher” a pessoa mais complicada, claro que não, mas são quase nulas as chances de “escolher” a pessoa mais fácil.

E claro, existem os outros detalhes bobos como a impossibilidade matemática de ser correspondido (eu sou o único que sempre que fica interessado numa garota começa a pensar que estatisticamente existem grandes chances de que ela prefira um chinês?), a mudança na forma de aproveitar o tempo (“uau, ela me chamou pra escolher batatas com ela! ueba!”) e os efeitos devastadores que uma paixão pode ter no seu gosto musical (“cara, Bon Jovi nunca fez tanto sentido pra mim! coloca “Always” no modo repeat, faz favor?”). Em suma, vários destes pequenos fatos que realmente te fazem duvidar que alguém vá entrar numa onda dessas de propósito e ainda por cima de graça.

E eu poderia continuar este texto durante parágrafos e mais parágrafos (calma, é só uma ameaça, eu não vou realmente fazer isso) apenas citando várias razões pelas quais é totalmente irracional e logicamente absurdo que alguém se envolva, de propósito, em qualquer tipo de relacionamento amoroso e em como eu estou escrevendo esse post em homenagem a um amigo que está total e irracionalmente apaixonado e passando por um momento de total falta de lógica na vida. Mas aí eu lembro do meu histórico pessoal, da atual situação em que me encontro e do fato de que estou realmente torcendo pelo MC Leozinho na “Fazenda 2” e tudo que eu posso dizer pra um amigo que está total e irracionalmente apaixonado é…go get her, tiger. Casais são legais, eu torço por você e tomara que tudo dê certo. (E se não der certo…bem, eu vou comprar um X-Box no final desse ano, eu acho, então todo mundo estar solteiro nem é tão ruim assim.)

Anúncios

5 Comentários

Arquivado em Mundo (Su)Real, Vida Pessoal

5 Respostas para “Problemas práticos do romantismo teórico – IV

  1. ThiagoFC

    Roubar o tigre do Mike Tyson foi massa, como todo o filme (consegui rir bastante, mesmo tendo tido o desprazer de o cinema passar uma cópia dublada). E as alterações no gosto musical são problemas muito sérios: meu irmão começou a gostar de Celine Dion numa fase assim (Celine fuckin’ Dion!?!?!?!)

    E pra terminar: O Coringa não conhece a piada do não nem eu.

  2. Solidariedade rocks! E porque isso não faz sentido nenhum? Enfim…

  3. sheila

    po, Celine Dion já é demais. Bon Jovi até vai.

  4. Juninho

    Que texto mais tchutchuquinho!

  5. Jess

    Ao melhor estilo tirinhha de facebook:
    A: Doutora, não consigo me apaixonar por ninguém. O que eu tenho?
    B: Sorte.
    E é por aí mesmo, porque em qualquer situação de deslize e/ou briga na relação, você termina o dia escutando o Robert Cray cantar Who’s Been Talkin’.
    Vlw.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s