O post sobre futebol que eu nunca fiz

Eu poderia começar este post dizendo que eu, assim como o Sr. Spock e o Keanu Reeves, tenho problemas para demonstrar grandes emoções ou expressar sentimentos. E depois eu poderia compartilhar com vocês o fato de que eu não grito, eu raramente xingo, eu não digo “eu te amo”, eu não aviso pras pessoas que elas podem ir dormir lá em casa, eu não falo que “considero você quase como um irmão” (exceto pro meu irmão. as vezes) e que eu não sou de me expressar com muita veemência. Então eu poderia fazer um longo discurso sobre a importância do futebol como fonte de relaxamento e via de catarse na minha vida. Mas eu, é claro, não vou fazer isso.

Porque se eu fizesse isso eu teria que depois explicar que eu torço para o Flamengo e tenho com esse time uma relação de paixão e emotividade que foge totalmente do meu padrão de relacionamentos sadios. Que quando eu vejo os jogos na TV ou no estádio eu abandono toda a minha ponderação e grito e praguejo como um estivador que martelou o próprio dedo infeccionado. Que quando eu estou torcendo eu me transformo em outra pessoa e tomo atitudes que vão totalmente contra tudo que eu conheço da minha personalidade e do meu bom-senso. Mas eu não vou fazer isso. Quer dizer, talvez até fosse bom fazer porque seria legal que as pessoas que estavam lá em casa ontem soubessem que não é sempre que eu desejo que uma pessoa desconhecida seja empalada por uma manilha de obra. E eu sinceramente peço desculpas a você, Zé Roberto. Quer dizer, peço nada, você mereceu, seu fominha do inferno. Mas como eu disse, eu não vou fazer isso.

Eu poderia, se eu tivesse feito as coisas descritas nos dois parágrafos acima, o que não fiz, logo depois mencionar a emoção do título de domingo, a felicidade total e completamente injustificada do ponto de vista racional (“o que eu realmente ganho com isso?”) que as conquistas esportivas trazem, a rouquidão absoluta no dia de hoje e, num requinte de crueldade, citar o lamentável momento em que o cara que divide apartamento comigo estava dançando funk na frente de um ônibus durante as comemorações, travando o trânsito no meu bairro. Mas eu jamais faria algo assim. Fora que eu sinceramente quero esquecer que já vi essa cena alguma vez. Lamentável, cara.

Não, esse post não é para nada disso. Não é pra comentar as camisas dizendo que o Ronaldo Angelim é único Ronaldo que importa, não é pra dizer que espero ansioso o processo que o Sport deve abrir contra mim por ter gritado na janela que meu time é hexacampeão, não é pra fazer mais algum comentário sobre o Petkovic ter sido o primeiro atleta campeão brasileiro cuja idade teve que ser definida usando datação por carbono, não, nada disso. Porque eu, na boa, jamais iria colocar no blog um texto falando sobre esse tipo de coisa. Não, nunca, jamais.

Também não vou dizer que fiquei feliz pelo Cuca, não vou dizer que fiquei feliz pelo Botafogo ou que fiquei feliz que aquele policial em Curitiba que apanhou com um banco no meio da intermediária (sério, tá aí uma frase que não se escreve todos os dias) não tenha morrido ou coisa do tipo. E se você pensar bem, essa frase é meio estranha, porque o que seria “coisa do tipo” no caso de morrer? Mas como eu disse, eu não faria nada disso, não é pra isso que esse post é.

O texto é apenas pra agradecer ao Flamengo pelas quatro horas semanais de catarse, irracionalidade, palavrões e ameaças que ele tem me garantido desde pequeno. Pelo fato dele me permitir jamais xingar alguém no trabalho porque eu já descontei tudo no Toró, pelo fato dele me permitir nunca ser grosso com uma garota, porque eu já chamei a mãe do Juan de todos os nomes possíveis e pelo fato dele me permitir ter alguma coisa pra conversar com meu pai (assim como o Ted em HIMYM eu só consigo falar com meu pai sobre o nosso time). Obrigado pela terapia e pelo hexacampeonato, pessoal. Tem sido muito divertido.

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6 Comentários

Arquivado em Milton Neves, Vida Pessoal

6 Respostas para “O post sobre futebol que eu nunca fiz

  1. ThiagoFC

    Parabéns João!!! Torci muito para o Flamengo impedir que o título ficasse com o eixo do mal (e, temporariamente, estou deixando o Inter ocupar o lugar do Santos no eixo do mal. Mérito do vice-presidente de dvds do colorado, Fernando de Carvalho)! Cheguei até a torcer pro Atlético, mas vamos combinar: Celso Roth campeão em pontos corridos? (Se não levou com o Grêmio ano passado, não leva nunca mais!).

    Vai aí até uma homenagem: http://kibeloco.com.br/files/104/2009/12/Petkovic-Flamengo-Hexa.jpg

    Mudando de assunto: agora vem uma má notícia pra você… Sabia que “A Diarista” volta ao ar em 2010?

  2. ana tereza

    eu ainda não me conformo que vc torce pro flamengo…mas parabéns pelo titulo!

  3. sheila

    “fato de ele”. ficadica! (ok, sou mala, não posso evitar. pode apagar o comentário.)

    • João Baldi Jr.

      Ah, verdade, eu sempre faço isso…Mas nem vou apagar, no colégio militar aprendi a que a vergonha pública é um bom método de ensino. Obrigado! (fato de ele…fato de ele…)

  4. sheila

    como meu comentário anterior será justamente apagado, queria só contar que cuspi maçã em processo de mastigação no monitor do computador ao ler o que seria “algo do tipo” em relaç]ão a morrer. foi um pouco constrangedor, com mais outras 3 pessoas do lado…

  5. também sou assim, controlada na vida, descontrolada com futebol. quando era mais nova chegava a quase sair no tapa com meninos discutindo sobre o tema. uma vez até rolaram uns chutes, mas nada grave. às vezes até evito assistir, de tanto que me desestabiliza. a-do-ro ver o flamengo perder, quase tanto como amo o meu vascão, em qualquer situação… então, malz aê, não vai rolar parabéns. só pelo texto, que foi mesmo muito bom.

    ah, sim, sobre o assunto, lembrei de um post meu do blog passado, ó: http://remexomuito.blogspot.com/2008/05/diga-oi-lilica.html

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