Pequenas lembranças esquisitas da minha infância

A metáfora do galo

Não sei se vocês se lembram, mas existia um desenho um tanto quanto antigo, que passava na Globo, eu acho (ainda que os desenhos hoje em dia mudem de canal na TV aberta o tempo todo, o que me faz admitir abertamente que o Frangolino tem uma vida mais movimentada do que a minha, mas tudo bem) e que tinha como personagem principal um galo. Esse galo era física e intelectualmente um galo (ele fazia “cororicó, por exemplo. Não, não o programa cocoricó, o som cocoricó, cara…) mas as pessoas, no começo do desenho o tratavam como se ele fosse um humano, uma pessoa de verdade, e lhe davam algum tipo de função ou designação tipicamente humana. A de atuar, dirigir, trabalhar como vendedor, motociclista, alguma coisa assim. E diante desse tipo de pressão o galo fica o tempo todo tentando explicar de alguma forma que ele não poderia fazer aquilo porque é um galo e galos não fazem esse tipo de coisa (ou ao menos não deveriam fazer). E ele insiste e insiste, mas as pessoas continuam acreditando piamente que ele é uma pessoa e deve continuar fazendo aquilo que foi pedido pra ele, o que faz com que ele, quase no final do desenho, aceite que realmente é uma pessoa e comece a agir como se fosse uma, aceitando sua nova condição de ser humano. Aí alguém aponta pra ele, grita “um galo!” e todos os outros personagens começam a dar porrada nele.

Sério, não sei como esse desenho influenciou a minha mente em formação, mas duvido que um conceito psicótico como esse possa ter feito algum bem pra mim. (E também não posso garantir que ele fosse exatamente assim e que eu não tenha distorcido um pouco a trama)

O amigo imaginário

Quando eu era garoto eu tinha um amigo imaginário chamado Augusto. Acho que ele apareceu lá pelo pré-escolar e conversou comigo até o final da primeira série, começo da segunda, alguma coisa assim. Fase do divórcio dos meus pais, aquela coisa chata toda, eu enfurnado em casa, muitos quadrinhos, jogos de xadrez e desenhos na TV, o Augusto era basicamente a minha única amizade além do meu irmão, que por ter, sei lá, três anos, não poderia me oferecer um diálogo de muita profundidade. Mas como todo relacionamento imaginário sadio eu superei e quando me mudei pra Minas já estava habituado a conversar apenas com pessoas reais. (Ok, talvez menos, não dá realmente pra acreditar que o Dimmyson ou o Pancinha sejam de verdade em certos momentos). E os anos se passaram até que alguns meses atrás eu voltei ao Rio e fui visitar uma das minhas tias, que era professora do colégio onde eu estudava na primeira série. E estou eu lá batendo aquele papo sobre os velhos tempos quando ela solta um “ah, essa semana eu vi aquele seu colega de colégio de antigamente, o Augusto, lembra dele? Foi da sua sala na primeira série, não?”.

Saibam, descobrir que seu amigo imaginário de infância era real é uma das coisas mais aterrorizantes do universo. Espero para a próxima semana as alucinações com a doutora Cuddy.

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11 Comentários

Arquivado em Vida Pessoal

11 Respostas para “Pequenas lembranças esquisitas da minha infância

  1. 1) Quer dizer que por mais que você finja ser igual aos outros, você é um merda que merece apanhar.

    2) Essa deu medo. Talvez você tenha materializado o cara!

  2. ThiagoFC

    Você mencionou o lance do galo em algum dos contos do seu livro… Se não me engano, era um personagem de um daqueles desenhos secundários dos Animaniacs (as aventuras dos irmãos – e da irmã! – Warner eram bem legais, mas esses outros desenhos geralmente eram muito chatos).

    Sobre o amigo imaginário que existia de verdade: Uau…. Bom mote para uma história de ficção quase-científica, não?

  3. hahahahahaha… caaaaara, esse desenho existiu mesmo??? Genial, muito bom!!! Tipos, muito bom!!! Ai, ai… Se bem que, lendo o comentário do rapaz acima, animaniacs e tal, talvez eu lembre muuuito vagamente desse desenho… ou talvez eu esteja materializando essa memória, como o sujeito do comentário mais lá no alto disse que você fez!

    e essa segunda foi assustadora mesmo… é sério isso, cara? e concordo com o moço acima, dá um belo de um conto! hehe

    e eu estou fazendo muitas referências a outros cometários… enfim, só uma observação.

  4. ana tereza

    medo mesmo!!!

  5. ótimo texto! gostei mais do amigo imaginário!

  6. cara, quando eu era pequeno sonhava em ter um amigo imaginário como nos filmes… mas o mais próximo que consegui disso foi a minha irmã. Até hoje ainda me pergunto se ela existe mesmo ou se um dia eu voltarei para casa e descobrirei que sou filho único.
    Quanto ao galo, que raio de desenho legal era esse?

  7. Marília

    Desapegar de amigos imaginários é complicado. O melhor é que eu era tão criativa que o nome do meu amigo era “Imaginário”. E cara, sensacionalo conceito desse desenho. Chega a níveis “dorgas mano lol” estilo Sheep na cidade grande.

  8. Juninho

    Muita pala do primeiro texto, o que me faz lembrar que eu não deveria ler seu blog no meu ambiente de trabalho porque tenho que ficar segurando estranhamente o riso e fica todo mundo sem entender nada…

    E eu tinha um amigo imaginário, o Camilo, eu conversei com ele até, sei lá, uns treze anos (isso é o tipo de coisa que eu não devia dizer, mas tudo bem)… Enfim, ele morava no poste perto da minha casa, e eu batia no poste pra chamar ele pra ir pra escola comigo (ok. ok. isso tá ficando cada vez mais estranho, vou parar por aqui antes que alguém chame um médico)…

  9. Elisa

    Seu post me fez lembrar de um filme que eu vi há muuuuuuuito tempo chamado Drop Dead Fred em que a mulher começa a ver o amigo de infância depois de velha. Algo assim. Acho que era esse o nome do filme.

    Já viu? Alguém viu?

  10. alice

    tb tinha um “hobbes” na minha vida… não tinha nome nem nada, mas a gente interagia (lembro de perguntar e explicar coisas em voz alta qd eu tava sozinha ou mesmo com alguém por perto, se estivesse distraída, tipo no ônibus)

    sobre o seu augusto, há 3 possibilidades:

    1) vc batizou seu “harvey” com o nome do moleque do colégio – q não era seu amigo – talvez pq 0 adimirasse e no fundo quisesse ser amigo dele

    2) a professora lembrou que vc falava sozinho e resolveu te zoar

    3) vc é doido e esqueceu da existência do seu colega (q tipo de amigo é esse?), mas como a sensação de ter recebido afeto existia, vc justificou seu lapso com o falso amigo imaginário (qqqqq)

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