Mixtape

Ela tinha pedido que ele fizesse uma mixtape. Pra ela. E claro, tudo nessa idéia soava pra ele, de alguma forma, muito errado. Primeiro porque ele considerava que uma mixtape não é algo que se peça. Ok, você até pode pedir um cd emprestado, um dvd emprestado, talvez até dinheiro emprestado, um pedaço de fígado pra transplante, quem sabe, mas não pede uma mixtape. Essa é uma dessas poucas coisas na vida que precisam ser eminentemente espontâneas, gratuitas, voluntárias, como uma declaração de amor, dançar na chuva ou correr pelado. O outro erro é que ela não tinha usado o termo mixtape, isso era coisa da cabeça dele, robgordonzice, ela tinha pedido que ele copiasse tudo em um pen-drive mesmo. Um pen-drive, sabe?

E ele tinha tentado. É, ele tinha tentado e tinha tentado mesmo, seriamente. Sentado em frente ao computador ele tinha olhado pastas e pastas de músicas, ele tinha até mesmo tirado alguns cds das gavetas, mas simplesmente sentia que não podia fazer aquilo. Não parecia natural, não parecia…certo. Não que ela não fosse uma garota legal, porque ela era. Não que ele não gostasse dela, porque ele gostava. Não tanto assim, mas gostava. Só que parecia existir algo absurdamente errado na idéia de que ela fosse ouvir uma seleção de Weezer, Wilco e The Rifles feita por ele. Algo soava muito…fora de lugar ali. Não era ela que ele queria que soubesse que ele acordava com I’m Always in Love e Sky Blue Sky ou que ele achava que Clark Gable era um clássico ainda que The Postal Service não fosse lá isso tudo. Não era com ela que ele queria dividir as opiniões dele sobre as letras do Jeff Tweedy, ou quem ele queria que ouvisse aquela coletânea de Fastball pra viagens que ele tinha montado e que tinha Autoramas no final pro caso de chover e o ônibus ficar preso em Petrópolis. Mesmo aquelas músicas obscuras dos Paralamas, os cds do Wander Wildner ou aquela demo do Telesônica, realmente não soavam como algo que ele queria que ela ouvisse.

E ele entendeu que era intimidade demais. Não que ele estivesse procurando isso, mas ele até estava disposto a entrar num relacionamento sem estar apaixonado. “Paixão é uma coisa meio superestimada, sabe como é…”. Ele poderia tranquilamente beijar, apresentar pros pais, levar nas festas, viajar, talvez essas coisas todas, mas ele possivelmente nunca iria querer mostrar pra ela as músicas favoritas dele. Simplesmente ela não era a pessoa certa pra isso. Ele poderia aceitar um namoro sem paixão, mas não poderia abrir a playlist dele sem que existisse…ele não sabia direito definir o que, mas tentava evitar a palavra “amor”. Não tanto por rejeitar totalmente a idéia, mas porque a frase soaria estranha pra cacete. Pegou a sua pasta com a discografia completa dos Beatles e gravou. Beatles era provavelmente a resposta mais acertada: mostrava que ele gostava dela, mas deixava claro que não era especial, que ali não existia um relacionamento. Afinal, ele gostava de Beatles, mas todo mundo gostava também. Você gravaria Beatles para qualquer pessoa que pedisse, é um gesto quase humanitário. Aquilo não seria pessoal, não seria dele. Seria bem…seriam os Beatles e pronto.

Devolveu o pen-drive na segunda e dois dias depois eles pararam de se ver. Inventou alguma desculpa, algo sobre estar saindo de um relacionamento complicado, o problema ser ele, não ela e estar precisando se encontrar como pessoa , num mix de todas as desculpas clássicas de final de relacionamento. Voltou pra casa e montou uma playlist que ele gostaria que a pessoa certa ouvisse, aquela garota pra quem ele realmente abriria a pasta de músicas dele. Pensou que talvez, mesmo após namoros, amadurecimento e coisas do tipo ele continuava ainda um pouco romântico. Se não com relacionamentos ao menos com a idéia de que se deve levar a sério uma mixtape. Mas possivelmente era pura viagem dele.

E, claro, tentou não pensar em como teria sido se ela pedisse uma dica de filme.

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7 Comentários

Arquivado em contos, romantismo desperdiçado, Vida Pessoal

7 Respostas para “Mixtape

  1. Fran

    Mais uma vez um texto otimo!!
    Musica pra mim é sagrado também. Dividir uma playlist é realmente uma declaração, senão de amor, de comprometimento.
    Já compartilhei uma vez a minha playlist com quem não deu o minimo valor, ainda bem que eu refinei meus gostos e talvez a unica pessoa que ouça aquela playlist agora é ele…rsrs

    E Beatles realmente é cliche…algo como Legião Urbana, se não tem muita opção, use eles, nunca se erra…

    Bjs J

  2. Natália

    Me deixa entender, então pros homens dividir a playlist é tão complicado quanto um pedido de casamento?
    E nós mulheres que somos complicadas?
    Vai entender…

    • João Baldi Jr.

      Bem, eu não acho seja seguro concluir que as minhas opiniões representam de forma honesta a visão predominante do gênero masculino sobre um tema. (Em suma, eu sou esquisito na maior parte das vezes, então não rola muito de me levar em consideração)

      • ThiagoFC

        João, se significa algo, eu levo suas opiniões em consideração (ainda que eu não as siga ou, eventualmente, discorde). Mas como eu também sou esquisito, não sei se isso vale alguma coisa…

  3. As músicas de uma playlist é algo tão íntimo que devia ser estudado se não é algo que vem no nosso DNA. Afinal, todos nós temos gostos diferentes, então fica difícil de se gostar das mesmas bandas com a mesma intensidade de que outra pessoa, além das mesmas músicas de cada banda e ainda assim a mesma combinação de músicas/bandas de outra pessoa (ficou um pouco confuso). Isso tudo sem falar que a cada dia tenho vontade de ouvir músicas diferentes de acordo com o meu humor.
    Então, para que uma pessoa curta uma playlist minha com a mesma vontade minha quando a fiz, é algo quase impossível. Ou não.

  4. Elisa

    É… Mixtape é complexo.

  5. Pa

    Nossa, mesmo meu namorado tendo milhões de músicas, saber que ele gosta de mim, canta pra mim, eu não posso pedir umas pra ele, sendo que quando eu estiver ouvindo vou estar pensando em algo que fizemos provavelmente ouvindo algumas dessas músicas?
    Ainda bem que não precisei pedir, ele fez e me deu de surpresa. Aiai…

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