J.D. Salinger


(Este texto foi publicado na edição #10 do Farrazine, em março de 2009, e está sendo republicado por conta do falecimento de J.D. Salinger, um dos grandes autores americanos do último século)

É sempre difícil saber como alguém vai ser lembrado. Pense em Einstein por exemplo. Gênio da física, criador da teoria da relatividade, um dos cientistas mais revolucionários da história, acabou entrando para a cultura popular como “o cara descabelado com a língua pra fora”. Afinal, bem mais gente consegue entender um velhinho que parece meio maluco do que algo como E=MC² .O mesmo podemos dizer de J.D. Salinger, um dos maiores novelistas norte-americanos, e que esse ano, no mês de janeiro, completou 90 anos.

Tudo bem, talvez você não saiba quem é J.D. Salinger. Mas você sabe quem é John Lennon, certo? Então você sabe que teve um cara, um tanto quanto maluco, que atirou no ex-beatle na porta do prédio dele, matando de vez o sonho, que por sinal já tinha acabado. E em alguma matéria sobre essa morte já devem ter citado que o “cara maluco” tinha lido um livro, pouco antes, e alguns membros da mídia paranóica consideraram que o livro teve alguma influência no crime. E esse livro era “O apanhador no campo de centeio”. E adivinha quem era o autor? Isso, J.D. Salinger. Sim, foi uma longa viagem, mas chegamos lá.

Infelizmente é assim que muita gente se lembra de Salinger, como “o cara que escreveu o livro lido pelo maluco que matou o John Lennon”, o que (além de ser um apelido longo demais pra qualquer um) não faz jus ao trabalho de um dos autores mais influentes da cultura norte-americana e um dos que melhor entendeu as crises da mente adolescente.

J.D. Salinger, nascido em Nova York com o nome de Jerome David Salinger, filho de um comerciante judeu polonês e uma mãe meio irlandesa/meio escocesa, começou a escrever ainda nos tempos do colégio e da faculdade. Ainda assim boa parte de sua produção literária só surgiu após a segunda guerra mundial, onde serviu em diversos locais e conheceu Ernest Hemingway, que já naquela época o considerava um dos maiores talentos que já tinha visto. De volta aos Estados Unidos após uma estadia traumática no front, Salinger começou o que seria a fase mais produtiva de sua carreira, já que, ainda que antes da guerra tivesse publicado alguns contos, apenas com “A Perfect Day for Bananafish”, sua primeira publicação na revista “New Yorker”, começou a receber reconhecimento da crítica e do público. Mas claro, nada se compararia a “O apanhador no campo de centeio”, lançado em 1951.

Retomando um personagem de uma de suas histórias pré-guerra, o adolescente Holden Caulfield, o autor conta a saga do jovem após ser expulso de um colégio interno e sua aventura em Nova York, criando praticamente um novo sub-gênero na literatura com a sincera e envolvente narração em primeira pessoa do personagem, explorando a alienação e a distância entre o mundo adulto e o mundo dos jovens, tudo com uma linguagem e uma agilidade inovadora para os padrões da época. Com isso o livro ganha uma capacidade impressionante de se conectar ao leitor, que se sente um companheiro de viagem e de confissões do protagonista, devido ao tema de fácil identificação e que se tornou constante na obra de Salinger.

Isso porque é fácil para boa parte dos jovens, seja na época do lançamento do livro ou seja hoje, se identificar com a trama de um garoto distante dos pais e buscando a liberdade da cidade, devido a natural distância entre pais e filhos, seja qual for o contexto. Exemplo disso é o significado que o livro teve no meu caso, lido durante um período em que meus pais se divorciavam e eu sinceramente pensava em fugir de casa (ainda que tenha desistido por causa da impossibilidade de levar minha coleção de quadrinhos), se tornando rapidamente um clássico para mim. Independente de críticas ao estilo de Salinger ou a seus méritos em termos de técnica de escrita (que eu considero significativos), uma coisa que não se pode negar é a relevância da temática e até mesmo a visão do autor em tratar da adolescência numa época em que o tema não era nada comum e sempre tratado de uma forma bem mais moralizadora.

Com o sucesso imediato do livro e as polêmicas que o cercaram (segundo pesquisas “O apanhador” é o livro mais censurado em todas as escolas americanas, mas o segundo mais freqüentemente escolhido por professores de literatura como tema para aulas), Salinger, totalmente avesso a publicidade, começou uma trajetória crescente de recolhimento e redução de sua exposição a mídia.

Até 1965, quando iria parar totalmente de publicar originais, ele ainda escreveu os livros “Nove Histórias”, “Franny and Zoey” E “Pra cima com a viga, moçada”, lançados respectivamente em 1953, 1961 e 1963, sendo que seu último original publicado foi “Hapworth 16, 1924”, em 1964. Em 1980 ele iria cortar totalmente qualquer contato com a mídia, devido a seus constantes problemas com sua exposição, que ele considerava exagerada e alguns processos envolvendo biografias lançadas por estudiosos de literatura e por pessoas próximas.

Ausente da literatura durante mais de 40 anos e da mídia durante quase trinta, Salinger influenciou e até hoje influencia autores que vão desde Richard Yates até Tom Robbins, passando por Dave Eggers e até pelo autor desse texto, ainda que em terras brasileiras possa talvez não ser tão lido quanto deveria. Mas no ano em que ele completa 90 anos vale a pena um contato, senão com todos os seus livros (já publicados no Brasil, ainda que bem difíceis de se encontrar), pelo menos com sua obra mais popular, “O apanhador no campo de centeio”. Não, não recomendamos esse livro pra você que ouve vozes que te mandam matar um beatle (por favor, deixe Paul e Ringo em paz, eles merecem), mas se você algum dia já se sentiu distante dos seus pais e do resto dos “adultos” e quis fugir de casa, você vai gostar de conhecer Holden Caulfield.

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5 Comentários

Arquivado em Book Review, No News, Sem Categoria

5 Respostas para “J.D. Salinger

  1. Fran

    Estou lendo (eu sei muito atrasada) o Apanhador nos campos de centeio e confesso que me surpreendi com o estilo do texto, principalmente para a época em que foi escrito.
    Estou amando e com certeza vai ser um dos meus livros de cabeceira…
    Quero um Holden pra mim…rs

    BJs

  2. Elisa

    Ainda não li o post. Antes preciso comentar que O Apanhador nos Campos de Centeio foi um dos piores livros que já li.

  3. Elisa

    Pois é. Acho que eu não gostei do livro justamente porque eu fui uma adolescente atípica e fugi mesmo de casa. Daí quando li o livro, tive uma profunda antipatia do garoto porque ele me lembrava do meu próprio ridículo.

    Eu devia ser psicóloga. Sou genial.

    Vou ler o restante dos seus textos. Saudade de você!

  4. ThiagoFC

    Ainda não li o livro, mas só por ser uma referência para Procura-se Amy, já deve valer a pena.

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