Momentos de irritação na hora do almoço #25 e #26

#25: Você está tendo um dia atipicamente complicado. Seu trabalho real, que costuma corresponder a 13% do tempo que você gasta no ambiente do escritório, subitamente atingiu uma proporção próxima dos 167% e subindo. Reuniões, demandas e deadlines que se parecem muito mais com aquela linha desenhada em torno dos cadáveres do que com prazos de verdade. São 12:45 e você ainda não conseguiu sair pra almoçar, preso na sala do seu gerente, que parece ter se tornado uma forma de vida baseada em luz, já que não faz menção de querer terminar a reunião. Finalmente, em algum momento ele se distrai gritando com algum outro funcionário e você consegue sair, acinzentado de fome, buscando a parte externa do prédio. Evita os restaurantes a la carte por causa do tempo (precisa estar em uma reunião as 13:15) e também evita as lanchonetes de fast-food (por causa da sua recém-adquirida úlcera, que se chama Ernest, em homenagem ao personagem dos filmes) e vai para o restaurante self-service mais próximo. Afinal, comida pronta e é só botar no prato, pesar e comer.

Chegando no restaurante você pega seu prato e adentra a fila, mas nota uma certa lentidão logo após a salada e o arroz. Você está parado já há cinco minutos e simplesmente não há nenhum tipo de possibilidade de movimentação, ainda que você note um enorme vazio a frente da pessoa que está logo a sua frente. Você procura um outro corredor mas nota que existe apenas uma fila para se servir e ela, colada na parede, é estreita demais para que você tente ultrapassar a pessoa pela direita. Você está basicamente encurralado atrás de um cara, sem possibilidade de driblá-lo, já que a balança fica logo na saída da fila, e não existe chance de um contorno pela parte externa. Já com o prato meio cheio e no meio da fila, sua ética o impede de apenas deixar tudo de lado e cair fora. Basicamente emparedado e dependendo da bondade de estranhos, você começa a reparar o que está acontecendo naquele bonde chamado lerdeza.

Acima de tudo o cara a sua frente é minucioso e seletivo. Tanto em quantidade quanto em qualidade, ele parece ter um projeto específico para cada prato oferecido. Você mede arroz em colheradas? Ele mede em grãos. Você apenas pega a batata frita e joga no prato? Ele primeiro observa a textura, o matiz de cor, a gradação daquele amarelo no padrão Suvinil de tintas. Você apenas pega a comida e vai empilhando no prato como um pedreiro? Ele seleciona cada combinação como se o futuro da humanidade dependesse disso, combinando salada, acompanhamento, massa e carne como se fosse um maestro organizando uma orquestra sinfônica, preocupado com cada nota e acorde, lidando com o suspense e a indecisão. Em suma, você começa a achá-lo um tremendo filho da puta.

Depois de dez minutos atrás do cara na fila, tempo durante o qual você teria não só se servido mas também comido, corrido no Mac e voltado pro trabalho com um top sundae, o filho da mãe finalmente chegou na última bandeja de comida. E assim que ele chega lá ele…atende o telefone…e…deixa o prato de lado…e…vai embora. Inacreditável. Ele apenas e simplesmente deixa o prato na bandeja vai e vai embora, deixando atônitos você, a garota da balança, a sociedade civil, os movimentos sociais e Deus, que de lá de cima repensa a idéia de fazer um outro dilúvio. Você, ainda chocado, finalmente pesa sua comida e se senta numa mesa. Na primeira garfada você nota que o arroz, que você pegou no comecinho do processo, já está frio. Realmente era um tremendo de um filho da puta.

#26: Você está passando pelo centro do Rio, apressado, e ao passar por um camelô ouve um grito de “caiu, caiu, caiu!” e quando se vira, desesperado, pra ver o que houve, ele complementa: “caiu o preço do guarda-chuva!”. Você nesse momento nota que seria capaz de estripar uma pessoa usando apenas uma colher de plástico.

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11 Comentários

Arquivado em Mundo (Su)Real

11 Respostas para “Momentos de irritação na hora do almoço #25 e #26

  1. Marília

    Só quem passou por essa situação no self-service sabe o quanto é irritante. E normalmente a sua pressa é proporcional a seletividade da pessoa a frente para com os alimentos.

  2. Você não conhecia o “caiu”? hehe
    E o famoso “oi, oi, oi…to pilhas 3 real”?

  3. Eu não gosto muito de comer em self-services, mas tenho q fazer isso quase toda semana, pq a mulher q trabalhar aqui escolhe um dia da semana toda vez pra faltar kkkkkk
    Mas eu não gosto, n só por causa da fila, mas também pq eu nunca sei o que escolher: arroz branco, arroz misturado com feijão, mistura com carne, o com milho ou com as ervilha no meio? Eu fico meio indecisa em escolher peixe, carne ou frango e assim vai, acho q colaboro pra demora da fila kkkkkkk

  4. Se eu for com você, Marina, vá para o final da fila. Eu escolho o arroz que tiver a colher liberta pelo cara da frente, pode ser qualquer gororoba, eu quero logo é pesar meu prato.

  5. ótimo ótimo ótimo texto!

    essa do guarda chuva é boa, mas pior é uma que eu ouvi “pula pula pula pula pulamor de Deus num faz isso não seu ratinho!” heauehauehuaheauhauhuha

  6. Fran

    Olha, sel service realmente só serve pra gente comer muito mais do que comeria em casa, com as mais variadas “misturas”…rsrs
    E sempre tem um indeciso que só veio ao mundo pra atrasar a vida da gente, fato!

    A do guarda-chuva é ótimo, por aqui também tem dessas “Olha moça, caiu aqui….o preço, agora é cinco…” rsrsrs

  7. ahhhh, a hora da refeição, que hora mais feliz… not!

  8. Gustavo

    eu quase matei o camelô com o guarda-chuva vendido por ele por causa dessa história de “caiu, caiu, caiu…” só não fiz isso porque a pressa era maior :-)

  9. Brunão

    Aí sim, fomos surpreendidos novamente!

  10. Juninho

    Cara, por que você não jogou o prato no fdp???

    E essa do guarda chuva foi a melhor!

    ahuahauhauhuahuhauhauauhauhuahuauhauhauhauhauua

  11. vivian

    HAAHHAHAHAHAAH

    não paro de rir aqui há 214 segundos!

    HAUAHUAHUAHUAHUAA

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