Aquele sobre “Alta Fidelidade”, amadurecimento, a crise dos 25 e picles assassinos do espaço

Eu acho que poucos livros que eu li até hoje conseguiram me dizer tanto sobre amadurecimento quanto “Alta fidelidade”. Claro, “Pergunte ao pó” é um dos meus livros favoritos, “A montanha mágica” e “O apanhador no campo de centeio” marcaram a minha adolescência, a “Saga do Clone” me sequelou para o resto da vida, mas existem várias coisas em “Alta Fidelidade” que tornaram a história de Rob Fleming o meu romance de formação por excelência (ainda que, sei lá, alguém possa dizer que literariamente o livro nem se enquadra exatamente nessa categoria ).

E uma dessas questões é a da disponibilidade, da necessidade de liberdade, da nossa vontade de não criar vínculos. Se manter solto, tomando decisões temporárias, vivendo em uma situação que você sabe que não vai durar pode parecer pra muita gente algo que causa insegurança, preocupação, mas também é algo que supre uma das grandes necessidades da vida de quase todos os caras: liberdade. Sim, liberdade.

Se você está solteiro você sempre vai ter a possibilidade de, num momento qualquer, numa hora, seja a hora que for, ver entrando pela porta do escritório, ou chegando pelo corredor do bar, ou vindo pela escada do prédio fantasiada de gorila, aquela mulher que vai ser a garota certa. Aquela garota linda, engraçada, esperta, divertida, que sopra a franjinha de um jeito bonitinho e vai querer esquentar os pés nos seus nas noites frias enquanto vocês vêem comédias turcas sobre star trek. E se você estiver namorando isso não vai acontecer. Sério, você pode até estar já com essa garota, mas um lado esquisito e um tanto quanto perturbador da sua cabeça vai sempre dizer que outra, diferente, melhor, mais especial, está por aí e você não vai poder ficar com ela. (sim, eu acredito na monogamia recreativa e acho que a fidelidade não deve se restringir as companhias aéreas e aos torcedores do Corinthians).

E o mesmo vale para quase tudo na vida. Se você não tem um trabalho realmente interessante, não tem trabalho nenhum, ou mesmo se seu trabalho é ficar em casa vendo reprises do pica-pau e reclamando do universo, você sempre vai estar à postos pro trabalho perfeito, pro emprego dos sonhos, para aquele convite para escrever “Amazing Spiderman” e “Foggy Nelson: Daredevil’s Pal” com arte do Gray Frank e capas do James Jean além de poder bater papo com o Neil Gaiman e contar piadas pro Alan Moore (ele não vai rir, mas e daí?). Mas se você tem um emprego, contas, despesas, um consórcio de carro e um financiamento de apê é bem mais difícil mudar de rumo, buscar alternativas ou mesmo escapar da idéia recorrente de que você pode ficar na mesma mesa pelos próximos trinta anos e o cara que conserta o triturador de papel nunca vai aparecer.

Não ter certezas ou compromissos te dá liberdade, te deixa sempre em aberto possibilidades, ainda que você não tenha a menor idéia se elas vão se concretizar ou mesmo se elas realmente existem em algum lugar além da sua cabeça, do campo quântico e dos comentários bizarros dos seus amigos. Mas talvez seja aí que esteja o crescimento, o amadurecimento, certo, Rob?

Tomar decisões com cujas conseqüências você vai ter que se virar e ter firmeza nelas, não ao ponto de ser incapaz de voltar atrás, mas ao ponto de ser responsável por elas. Se apegar às coisas e pessoas que forem realmente importantes porque você sabe da importância delas e não viver num constante “vamos ver o que ainda pode acontecer”. É isso? Amadurecer é a nossa versão pessoal de voltar a discotecar, aceitar que gostamos de Laura e, ok, nunca mais vamos vê-la pela primeira vez mas talvez seja ela que queremos ver todos os dias (e evitar trair a garota pode ser uma boa também) mas nunca vamos deixar de ser esnobes com música porque realmente somos assim, fazer o que?

Mas se apegar ao que você quer exige que você…não sei…saiba o que você quer? E o que você quer? Porque eu acabei de fazer vinte e cinco realmente não faço a menor idéia do que eu quero. Eu quero continuar nesse trabalho e um dia virar um gerente que faz apresentações engraçadas em PowerPoint? Eu quero ser escritor? Eu quero fazer cinco anos de fono e virar um comediante stand-up? (já notaram que hoje em dia as duas profissões mais comuns são jornalista e comediante stand-up?). Eu quero mudar de nome e virar um lutador de boxe muçulmano que joga medalhas no lago? Eu quero “mais é beijar na boca e ser feliz daqui pra frente”? Complicado saber, complicado saber.

Talvez seja cedo pra pensar nessas coisas e eu realmente esteja começando de forma neurótica o meu vigésimo-quinto ano de vida (algo no bolo, talvez?), mas acho que uma coisa com a qual eu vou me preocupar pelos próximos anos vai ser essa questão do amadurecimento como conflito entre liberdade e compromissos. Mas eu posso sempre estar enganado.

Ah, e os picles assassinos do espaço eram apenas uma tática pra atrair a atenção, como vocês devem ter imaginado.

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15 Comentários

Arquivado em Desocupações, Vida Pessoal

15 Respostas para “Aquele sobre “Alta Fidelidade”, amadurecimento, a crise dos 25 e picles assassinos do espaço

  1. Fran

    Alta fidelidade é o proximo livro da minha fila.

    To começando a char que aquelas conversas que tivemos te deixaram meio paranoico…srsrs

    bjs

  2. Por que a gente nunca tá satisfeito com a vida? Sempre falta alguma coisa, não importa a idade.

    Queria dizer que eu adoro picles e que eles não são assassinos!

  3. Também adoro esse filme! Embora seja mais sobre a visão masculina, ele passa algumas coisas universais de uma forma bem clara, coisas que eu também sinto. Um dos meus temas preferidos no filme é justamente esse que você comentou:

    “Você manteria suas opções em aberto pelo resto da vida, se pudesse. Você vai estar no seu leito de morte, e vai estar pensando, bem, pelo menos mantive minhas opções em aberto. Pelo menos não acabei fazendo algo do qual não pudesse recuar. Só que enquanto você está mantendo as opções em aberto, você as está fechando, também” – Rob Gordon.

  4. ps.: quero ler o livro! :(

  5. TG

    vc se enganou, as profissões mais comuns atualmente são comediante stand-up e DJ. E jornalista ainda fica em quarto, perdendo pra designer gráfico. Maldita popularização do Corel Draw.
    Acho q ninguém nunca tá satisfeito com o que tem. É estranho, às vezes pensamos q uma saída imediata, até inconsequente, pode dar frutos melhores sem analisar que o que estamos construindo pode dar bons resultados. Em contrapartida, se não nos arriscamos, ficamos perguntando no que aquilo ia dar… se achar uma solução pra isso, me avisa!

  6. Elivin

    Joaaao, deu pra perceber que essa coisa de virar 25 estah mexendo mesmo com a sua cabeca,
    mes que vem eh a minha vez…dah um certo desespero quando eu tento lembrar dos meus 18 e tenho a nitida sensacao que foi 3 meses atras, fazendo um balanco dos ultimos 7 anos parece que nao fiz o suficiente dentro dos meus dentro do que imaginei que faria. Estou apavorada porque ouco um monte de gente falar que depois dos 25 eh soh downhill, e nao estou nem um pouco ansiosa pelas surpresas que a gravidade, atuando no meu corpinho, guarda pra mim. Entao eu lembro (pelo menos umas 3 vezes por dia) de perguntar a Deus por que eu??? E se Ele estah aberto a negociacoes???Vai que Ele se comove com a minha perseveranca…

    ps: Sim, eu nao tenho nenhum acento no meu teclado!

  7. Eli

    Dizer que a gente nunca vai ter certeza de nada e que esse assunto vai te deixar paranóico de verdade (mesmo!) quando você virar os 30 não vai ajudar muito, não é?

  8. Marília

    Andei relendo Alta Fidelidade e pensando exatamente nessas coisas. Acho que só de passar dos 20 e chegar ao fim da universidade a gente começa a pensar nessas coisas, e realmente é muito mais fácil manter suas opções em aberto do que arriscar algo de verdade. (é o que muita gente acaba fazendo, mas o tempo passa de qualquer jeito e você não fez nada com suas opções pra vida)

  9. bom, pra começar, parabéns atrasado!

    difícil comentar esse post, porque apesar de entender não me identifico… pelo menos não totalmente. posso dizer que já desisti dessa coisa de ‘descobrir’ o que quero, tenho deixado a vida me levar, vida leva eu. porque se eu ficar eternamente idealizando alguma coisa que eu nem sei o que é vou acabar enlouquecendo. ficadica.

    e meninas que sopram franjinha, é? hehe

    ps: é a segunda vez que escrevo esse comentário. espero que a internet não me sacaneie again!

  10. alta fidelidade é uma boa história. queria entender tanto de música quanto o rob.

  11. ThiagoFC

    Eu escapei da crise dos 20, mas não escapei da dos 25. Fica frio, as coisas se ajeitam. Choose life! (Vc já deve ter visto Trainspotting, né?)
    Aproveitando o gancho, bem que você podia escrever algo sobre picles assassinos do espaço.

  12. Li o livro e assisti à peça (A vida é feita de som e fúria) e ao filme. O livro é extremamente perigoso, revela demais. A peça é perturbadora, não conseguia ficar nem perto da minha namorada saindo do teatro. O filme é uma bobeira perto dos dois.

    E você só tem 25 anos, não se apresse. Não se apresse com 30 também. Aliás, não amadureça. Eu amadureci e, como Rob, tive de voltar atrás.

  13. Juninho

    Cara, realmente tenho que ler esse livro perturbador… Mas acho que você está no caminho certo, pelo menos era o caminho certo no ano passado, quando estamos ambos desesperados pela oportunidade…

    Uma caracteristica estranha essa nossa (em geral), sempre perde um pouco (ou muito) do valor as coisas depois que as conseguimos. É como se fosse uma viagem de trem, onde vemos pela janela diversas atrativas estações, mas a porta está sempre fechada. Finalmente quando conseguimos abrir as portas para aquela estação desejada, ela já não tem o mesmo brilho e temso vontade de voltar pro trem… O problema é que ele já passou e o próximo dificilmente leva para os mesmos caminhos…

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