Formas de fazer o seu trabalho tedioso parecer interessante #9, #10 e #11

#9: Seja extremamente vago – Vamos admitir, você não tem um trabalho dos mais divertidos, daqueles que empolgam a galera numa mesa de bar e fazem com que as meninas achem que James Bond iria querer ter o mesmo resultado de teste vocacional que você. Mas você está inserido numa grande empresa, daquelas com grandes funções (ainda que você não saiba exatamente quais são), e isso te dá um trunfo, já que ok, você não faz nada de interessante, mas sua empresa faz, então você pode trabalhar em cima disso. Isso quer dizer que se você for extremamente vago e pensar no mais macro que for possível pensar, o seu trabalho vai parecer algo que, se não empolgante, ao menos oferece status e poder, como no caso de “ser o responsável pela disseminação de informações vitais entre as camadas do estrato corporativo, tanto no fluxo vertical quanto no horizontal, repassando dados que afetam diretamente a hierarquia e os resultados da função fim da empresa”. O que sim, quer dizer que você é o cara que envia emails informando quando algum gerente morre.

#10: Seja extremamente específico – Ao mesmo tempo que ser absolutamente vago pode dar uma idéia de poder, ser total e completamente específico pode fazer com que aquela sua função que facilmente poderia ser desempenhada por um bebê babuíno de bunda vermelha treinado se torne algo complexo, cheio de meandros e que apenas você, com sua genialidade e seu brilhantismo ímpar, é capaz de desempenhar. Se você for o “responsável por enviar, através do sistema corporativo de Dept 5.0 da Lotus, as mensagens de cunho informativo diárias referentes a atualizações sobre a situação biologicamente estável ou não dos gerentes executivos de primeiro escalão da gerência responsável pela aquisição do material” ninguém vai notar que, como eu disse, você é o cara que envia emails informando quando algum gerente morre.

#11: Minta como se não houvesse amanhã – “Bem, eu não gosto de comentar, mas eu trabalho com os Médicos Sem Fronteiras, estou vindo hoje do Haiti para passar dois dias com meus pais, porque me obrigaram a entrar no avião pra cá depois de trabalhar duas semanas sem dormir. Ainda me lembro do olhar triste do pequeno Raoul quando se despediu de mim, após eu ter salvo a vida dele, da família dele, dos vizinhos de rua dele, de todo o bairro dele e ter carregado nas costas seis famílias durante 72 horas, além de ter feito seis transplantes de coração e o primeiro transplante de cérebro do Caribe. É que…eu só me realizo assim, sabe? Ajudando as pessoas. Eu poderia viver apenas comandando as empresas do meu pai? Claro que sim, mas onde estaria a paixão disso? Onde estaria a realização, o que eu teria dado para o mundo? Ah, e eu tenho um jetpack*.”

*Não, eu não acho realmente que muitas pessoas se impressionem com jetpacks, mas sinceramente, se eu fosse contar alguma mentira desse tamanho para alguém eu em algum momento iria dizer que eu tenho um jetpack, porque seria sensacional demais. Então me desculpem, mas eu não resisti.

P.S: Para quem não teve oportunidade de ler a edição #12 do Farrazine, foi publicado no Blog Radioativo o meu conto “O Garoto Aranha”. Aí sim, fomos surpreendidos novamente.

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10 Comentários

Arquivado em Desocupações, Mundo (Su)Real, Sem Categoria

10 Respostas para “Formas de fazer o seu trabalho tedioso parecer interessante #9, #10 e #11

  1. ThiagoFC

    O que é um jetpack? O gerente que morreu tinha um?

  2. Marília

    Como é que alguém não se impressiona com um jet pack?

  3. Fran

    Hey…
    Algo estranho anda acontecendo por aqui….
    Por que o cara que trabalha comigo, que passou o carnaval em Salvador chegou dizendo “Aí sim, fomos surpreendidos novamente…”???

  4. Eu tenho um jetpack. Eu costumo usá-lo para me auxiliar no resgate de crianças em tragédias como a do Haiti. É muito útil também quando estou na África, que é um continente muito grande e de difícil locomoção. Os olhares daquelas criancinhas sorrindo realmente me dão um imenso orgulho.

  5. é minha sorte não precisar desses tipos de subterfúgios… Trabalho com espionagem nuclear ultra-secreta. Passo metade do ano nos EUA e outra metade em países do Leste Europeu. . A rotinaé um pouco maçante: acordo, escovo os dentes, escolho um passaporte falso, deponho um líder extremista, desarmo uma bomba nos últimos dois segundos, levo os cachorros para passear, participo de uma perseguição de carros, assisto o JN e durmo. Na última missão quase botei tudo a perder e tive que percorrer a pé a distância entre Nice e Paris. O motivo? Meu jetpack estragou.

  6. Vejo que a parte “minta como se não houvesse amanhã” causou ótimos comentários.
    Eu não trabalho e acho que o tédio de não fazer nada é bem pior!

  7. Pelo menos você teve o crédito no seu conto. Eu tive uma crônica plagiada por um blog e se não fosse meus leitores, nem teria sido tirada do ar.

    Sobre trabalho, escrevi isso aqui em 2006.

    Ambos devidamente comentados por você, diga-se de passagem.

    Aliás, meu blog está para fazer quatro anos. Êêe!

  8. O pequeno Raoul hahahahahahahahaha… Depois dessa, eu acreditaria em qualquer coisa, até no jetpack.

  9. Juninho

    Cara, é só falar quanto você ganha que seu trabalho passa a ser bem interessante… Principalmente para alguns tipos de mulheres e sequestradores…

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