Macaé, uma aventura noir…

Era uma tarde como todas as outras. O céu acinzentado cobria uma cidade de granito, vidro e sonhos destruídos. O calor do ar evaporava as pequenas e tristes gotas que caíam dos aparelhos de ar-condicionado antes mesmo que elas tocassem o chão. Realmente era um daqueles dias em que se poderia fritar um ovo na calçada e eu me perguntava quem teria coragem de comer uma omelete feita no meio-fio. Do alto do 26º andar onde eu me encontrava todas as pessoas pareciam formigas e as formigas simplesmente não apareceriam, ainda mais com meus 3 graus de miopia. Naquela grande cidade a esperança havia se perdido e se dependesse da sinalização ou dos taxistas ela jamais iria se encontrar de novo.

Eu estava sentado em minha cadeira, os dois pés na mesa, e olhava para a barrinha piscante do Word como se dela esperasse algum tipo de resposta. Mas pra qual pergunta? Eu não sabia. Eu era o “novo garoto” no pedaço e sinceramente ainda não sabia o que me esperava, o que eu devia esperar ou muito menos o que esperavam de mim. Então eu ouvi uma voz: “Johnny, o Chefe quer te ver”.

Nem precisei me virar para saber de quem era a voz. A secretária. Um corte de cabelo curto por cima de ombros nus (ela não tinha pescoço), um corpete vermelho , uma saia que era menor do que a vida (e todos nós sabemos que a vida é curta) e uma meia calça preta desfiada na perna esquerda. Uma receita de sensualidade vulgar que funcionaria muito bem com qualquer cara que gostasse de mulheres de 60 anos que se vestem como garotinhas. Me levantei e caminhei em direção a sala do chefe, sabendo que aquilo só poderia significar duas coisas: más notícias ou péssimas notícias.

Bati e perguntei se poderia entrar. Ouvi um sim e abri a porta. Lá, sentado no fundo da sala esfumaçada estava o chefe. E ao lado dele um dos caras da manutenção predial para tentar descobrir de onde raios aquela fumaça toda vinha. Ele me pediu que sentasse e começou a caminhar pela sala.

“Johnny, Johnny, Johnny…Você sabe porque eu chamei você aqui?”

“Não, Chefe…Houve algum problema?”

“Bem, Johnny…Você andou falando com algumas pessoas, certo?”

“Humm…bem…sim, claro…é parte do meu trabalho, certo? Fazer perguntas, falar com pessoas, descobrir coisas, não?”

“Bem, garoto. Parece que você andou fazendo perguntas demais. E pras pessoas erradas. E ninguém gosta quando o garoto novo faz perguntas demais, não sei se você me entende.”

O cara da manutenção nesse momento retesou os músculos e se concentrou mais ainda em continuar procurando fissuras no teto. Ele sabia que não queria ouvir aquela conversa, ao menos não mais do que eu. A única diferença é que ele era apenas um espectador e não uma peça naquele jogo. Notei que enquanto eu pensava nisso o Chefe tinha dito mais 3 frases e eu não tinha conseguido entender nada. Digressões são uma bela bosta de vez em quando.

“…e é por isso que você vai ter que ir pra Macaé por uns tempos, Johnny. Essa cidade não é mais segura pra você…”

“Oi? Macaé? Como assim?”

“Garoto, as coisas estão ficando quentes por aqui. E eu não acho que você queira se queimar tão cedo, quer?”

Nesse momento me contive. Não era a hora pra uma citação de Rain Man. A frase “água quente queima bebê” poderia esperar mais um pouco.

“Não, não quero” – Eu disse isso e o Chefe sorriu.

“Bom garoto…Eu conheço alguns amigos lá, eles vão tomar conta de você. É distante o bastante pra que você se mantenha longe do calor mas perto o bastante pra que você possa voltar rápido caso eu precise de você. Em breve vou te dizer a data exata da sua viagem”

“Ok, Chefe, obrigado”

“Ah, e outra coisa, Johnny…”

“O que, Chefe?”

“Tente, só dessa vez, não se meter em encrenca”

Sorri com o canto da boca e saí da sala. A frase do Chefe sobre eu querer ou não me queimar ainda ecoava nos meus ouvidos. Os avisos da minha mãe sobre tomar cuidado na cidade grande também. E a maldita “I gotta feeling” do Black Eyed Peas, claro. Merda de música. Apenas cinco meses e eu já tinha conseguido provocar as pessoas erradas. Eu realmente era bom nisso. Me sentei novamente, peguei o chapéu em cima da mesa e fiquei rodando ele no dedo enquanto olhava pela janela. Lá fora os carros continuavam presos na ponte, as pessoas continuavam rodando sem rumo e eu tinha apenas uma pergunta na minha mente. “Será que já tem wi-fi em Macaé?”

Cinco minutos depois o dono do chapéu veio me importunar querendo ele de volta. Realmente aquela era a cidade pra onde os sonhos viajavam quando queriam morrer.

(continua…)

Anúncios

13 Comentários

Arquivado em Desocupações, Mundo (Su)Real

13 Respostas para “Macaé, uma aventura noir…

  1. cara, genial… genial!!
    e onde fica macaé?

    • João Baldi Jr.

      Pelo que eu pesquisei Macaé fica perto da Região dos Lagos, litoral mesmo. Só não vou comentar mais sobre o que me disseram da cidade porque não quero que Macaé vire uma nova Cataguases

  2. Ronaldinho

    Macaé é a Dubai carioca.
    E coitada da pobre Cataguases…

  3. Adorei a história! Os detalhes estão ótimos!

  4. Essas digressões também me ferram. Pior do que isso, só ficar com “I gotta feeling” na cabeça, hahahah… adorei o texto.

  5. Eu já vi essa cena em algum filme, inclusive alguns dos diálogos. Ou isso ou minha mente viaja muito. Vou ficar com a segunda opção.

  6. ThiagoFC

    Esses dias andei pensando, e este post só comprova minha teoria: só com textos deste blog, dava para você selecionar mais alguns contos para publicar em livros (até uma compilação dos top 5 e coisas parecidas davam um bom livro).

    Curiosidade: Já vi o Marcelo Adnet falando mal à beça de Macaé na MTV.

  7. ana tereza

    Maldito Black Eyed Peas!!!!

  8. o taylor ja me falou muito sobre macaé, não quero te assustar mas ele não me falou boas coisas…

  9. erica l.

    hahahaha, muito bom! eu ia fazer o tradicional ctrl c + ctrl v nas partes preferidas, mas são muitas! Ai, não resisto, só um pedacinho, o que me ganhou logo no começo do texto: “Realmente era um daqueles dias em que se poderia fritar um ovo na calçada e eu me perguntava quem teria coragem de comer uma omelete feita no meio-fio.” hahaha
    Esperando a continuação!

  10. Marcos

    ê, João….

    Tem umas amigas daqui de Macaé que leram este post e pediram pra te conhecer.

    Eu disse que até apresento, mas não me responsabilizo.

  11. Eu moro em Macaé… Wellcome to Hell!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s