Problemas práticos do romantismo teórico – V

Uma coisa que todo mundo busca num relacionamento é um desafio. Nós fingimos que gostamos das coisas simples, fáceis, que funcionam sem problemas, mas a verdade é que boa parte de nós que superar algum obstáculo, vencer alguma dificuldade, conquistar alguma coisa e ter a sensação que vem disso. Não que todo mundo queira um mundo de impossibilidades e dificuldades totalmente intransponíveis, como se estivéssemos jogando Street Fighter II e o único personagem que pudéssemos escolher fosse o carro da fase de bônus, mas precisamos de um estímulo, de algo diferente, de algo que nos instigue, senão qualquer tipo de envolvimento romântico cai no tédio e aí todo mundo sabe como termina (e se não sabe, pergunte aos meus pais, eles vão adorar falar sobre isso com você)

Mas claro, isso é diferente para homens e mulheres, tanto no conceito de desafio como na forma de lidar com eles. Para grande parte das mulheres o desafio parece ser pegar um cara que aparentemente é errado e transformá-lo no cara certo, vindo daí a recorrência dos bad boys e derivados no imaginário feminino. Você vai ver isso várias e várias vezes em casos de amigas e colegas que se apaixonam por aquele cara que evidentemente é um galinha, evidentemente não se importa e evidentemente não está levando ela a sério, o que faz com que evidentemente você ache que ela só pode estar de sacanagem. Mas para ela possivelmente o desafio é fazer com que aquele cara, evidentemente errado, se transforme, por gostar dela, no cara certo, no cara que ela gostaria que ele fosse. Sabe isso que aquele seu amigo meio idiota fez de comprar um Golf básico e ir trocando peças e tunando até que ele fique do jeito que ele quer? Bem, para muitas mulheres um relacionamento funciona exatamente assim, com a única diferença de que elas preferem começar o processo com um carro quebrado ao invés de zerado.

Já num cara existe o desafio da conquista num outro sentido, que é o de conquistar a mulher certa, que já veio certa de fábrica, ao menos na mente dele. O grande desafio é conhecer a garota e ir ganhando espaço aos poucos, passando pelas etapas, até chegar a realmente estar com ela. Tanto que um dos grandes momentos da vida de um cara é o pós-beijo em uma garota por quem ele realmente está apaixonado, porque quer dizer que ele conseguiu se sair bem em um processo extremamente complicado e demorado, que é o de ganhar o afeto de alguém. Daí ele tentar agir no melhor que ele consegue, ser o mais legal, o mais interessante, o mais divertido, o mais inteligente, o mais qualquer coisa que ele conseguir, porque ele quer causar aquela boa impressão que vai garantir pra ele o afeto daquela garota que ele considera a certa. Mas, claro, depois que ele consegue isso ele pode apenas notar que ela não era tudo aquilo que ele imaginava e perder o interesse. E é dessa clara diferença conceitual no que tange ao desafio que boa parte dos problemas começa.

Afinal, o cara que quer conquistar tenta ser o melhor possível, o mais certo possível. E topa com uma garota que não quer o certinho, porque precisa de algo pra consertar. Caras não gostam de garotas fáceis, porque elas tiram o desafio do processo, então quando encontram com uma garota fácil e não acham nada de desafiador, se tornam os caras errados. E garotas gostam de caras errados. Então enquanto ele está desinteressado e tentando se livrar dela, ela está cada vez mais apegada, porque ele se tornou um desafio. Não que isso seja um regra geral, claro, mas tente fazer um rápido recap, como se isso fosse o começo de uma nova temporada de HIMYM, e veja se essa fórmula não bate com vários relacionamentos seus.

Ao menos na minha experiência pessoal isso várias vezes fez sentido. Garotas por quem eu realmente me esforcei (e cara, eu consigo ser bem esforçado) e para quem eu realmente tentei ser o cara mais legal que eu consegui, acabaram nunca sendo nada mais do que projetos, enquanto outras, que conheceram lados não tão legais meus (não que eu seja um canalha, porque eu acho que não sou, mas eu também sei ser idiota, auto-centrado e insensível em certos momentos, ainda que tente não fazer isso de propósito) acabaram se apegando a mim de formas que simplesmente não faziam sentido dentro do contexto, porque eu não estava merecendo ou mesmo querendo toda aquela atenção.

E no final, tudo, qualquer visão, seja masculina ou feminina, é baseada em na necessidade de alguém que te desafie, te estimule, que, sem precisar mudar, tenha sempre alguma coisa a ser descoberta, aprendida. Uma pessoa que, assim como os episódios de Chaves, você possa ver por vezes e mais vezes sem ficar de saco cheio. Ou isso ou todos nós apenas gostamos de complicar as coisas e nos meter em problemas desnecessários, tanto que eu deveria parar de me preocupar tanto com esse tipo de assunto e me envolver logo com aquela senhora idosa do 602 que sempre me trata tão bem e faz aqueles biscoitos gostosos.

Anúncios

13 Comentários

Arquivado em romantismo desperdiçado, Vida Pessoal

13 Respostas para “Problemas práticos do romantismo teórico – V

  1. É uma droga que esse texto faça tanto sentido. =/
    (não leve a mal)

    Adoraria falar que isso é uma baita viagem sua, mas tem uma grande dose de realidade no que vc escreveu. Mas eu sei que devem existir algumas exceções a essa regra.

    ah, depois de ler eu me lembrei desse “Post Secret”: http://migre.me/lLwv

  2. ThiagoFC

    Ser simples é difícil. E o difícil é ser simples.

  3. talvez essa sua teoria se explique ao meu namoro de sétima série com um menino que era drogado, alcoolatra e pior aluno do colégio.

  4. Eu nunca entendi por que nós mulheres buscamos um desafio tão impossível de se realizar, já que eles nunca vão mudar. E o pior é que quando a gente acha o cara o certo, ele se torna tão chato…Acho que gostamos de sofrer no fim das contas.

  5. erica l.

    É, tem gente que é assim mesmo. Minha irmã é uma: só arruma uns caras que só falta vir com um adesivo ‘sou babaca’ na testa. Impressionante. Mas eu não entendo, comigo nunca funcionou assim. Eu gosto de coisas simples, que funcionem (quase sem) problemas. Além do mais, o charme dos ‘badboys’ e caras errados é justamente o fato de serem errados! Se transformar estraga! Sei lá, eu gosto de gostar das pessoas do jeito que elas são, defeitos included. Mesmo que para continuar gostando dessas pessoas seja preciso ficar a uma distância segura.

    Para finalizar, lembrei de uma musiquinha do magnetic fields que eu adoro, óia:

    You are a splendid butterfly
    It is your wings that make you beautiful
    And I could make you fly away
    But I could never make you stay
    (…)
    Not for all the tea in China
    Not if I could sing like a bird
    Not for all North Carolina
    Not for all my little words
    Not if I could write for you
    The sweetest song you ever heard
    It doesn’t matter what I’ll do
    Not for all my little words

  6. Isso explica por que gostamos tanto daqueles programas de Makeover Total (seja de casa, de gente, de famílias problemáticas ou de sapatos). Ah, e parabéns pela referência a HIMYM. Aliás, como se explicaria Lily & Marshal?

  7. Engraçado: metade da minha vida até aqui eu adotei a visão feminina e só me ferrei. A partir do momento em que me tornei mais prática, dei umas cabeçadas, mas achei caras que tinham mais potencial pra dar certo.

    Cara, eu sou muito mascullina às vezes. Mas gosto de homem, juro!

  8. Sou tão masculina que acabo de escrever a palavra com dois eles…

  9. Bem… Como já me disse meu irmão uma vez, “mulheres são demoniozinhos de saias”… E as coisas dificilmente saem como a gente planejou :/ Em suma, é tudo muito estranho.

    Mas viciante =D

  10. Faz todo o sentido! Impressionante!

  11. Mel

    Falta maturidade masculina para aceitar a “mulher fácil”. Não to falando da “piriguete”. To falando daquela que se entrega, que não tem medo de viver um sentimento de forma intensa, e que não é afeita a “joguinhos” no quesito coração. Chamam-na da fácil, mas mascarar o problema, fingir que é com ela, quando o problema é a covardia dele. Podem chamar de fácil. Eu chamo de bem-resolvida. Esse tipo de mulher assusta. Pouquíssimo marmanjos tem gabarito para fazer uma mulher dessas feliz.

    • Bruno

      Você esquece do fato que não dá avaliar com qualquer tipo de certeza as reais intenções das pessoas em tão pouco tempo. Pra uma mulher ser considerada fácil, precisa ceder, “se entregar”, como você diz, num tempo relativamente curto, o que impossibilita qualquer tipo de análise precisa.
      E, vamos admitir, existem muitas mulheres fáceis por aí que adoram tentar se passar por santinhas (usando algum tipo de frase clichê como “é a primeira vez que me entrego assim”) com o intuito de descolar barriga e uma pensão ou simples e puramente pra sacanear mesmo.
      Agora me diga sinceramente, depois de lutar a vida inteira estudando e trabalhando pra juntar o que tens hoje, você realmente é capaz de julgar fracos os homens que fogem deste tipo de mulher, mesmo as que só aparentam ser assim?

      João, desculpe o comentário em post velho, mas não pude deixar essa passar.
      E digo mais: minha sorte é que sou meu próprio chefe. Caso não fosse, provavelmente já teria sido demitido por não conseguir parar de ler seu blog. Está de parabéns.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s