Macaé, uma aventura noir… (Ep 2)

Duas semanas haviam se passado desde meu encontro com o Chefe e eu não tinha recebido nenhuma novidade. A palavra Macaé, assim como as palavras anatidaefobia e pentateuco, não havia voltado a ser pronunciada entre aqueles corredores e  os dias se arrastavam lentos e tristes como um DVD de um show acústico do Radiohead visto no slow motion. Eu não estava tendo uma boa semana. Meu melhor amigo havia brigado comigo, eu havia perdido minha garota (na verdade eu não tinha uma garota, mas a frase “eu perdi minha garota” soa bem triste, então por que não?) e se eu tivesse um cachorro eu tenho quase certeza que ele teria morrido de alguma forma estranha e dolorosa. Minha vida era desoladora e sem sentido como uma transmissão da série A3 do Campeonato Paulista com narração do Cléber Machado e comentários do Nei Paraíba. Eu era a prova viva de que inferno astral não era apenas um golpe usado no desenho dos Cavaleiros do Zodíaco.

E foi exatamente enquanto eu estava refletindo sobre em que momento uma juventude promissora havia se transformado em algo tão confuso e complexo quando um novelo de lã guardado em uma caixa cheia de gatinhos filhotes com mal de Parkinson que eu ouvi um grito vindo do outro extremo do corredor. “Johnny, venha pra minha sala, agora!”. Era o Chefe. Peguei meu chapéu e me dirigi até a sala dele tal qual um condenado à forca caminhando para a cadeira elétrica:  sabendo que iria me ferrar, mas ainda com a esperança de que fosse de uma forma diferente.

“Johnny, Johnny, Johnny…Ansioso para a viagem?”

Respirei fundo e sorri o meu sorriso mais amarelo. Ele sabia que estava tão ansioso por essa viagem quanto por uma cirurgia de canal, uma visita guiada a Chernobyl, uma noite de bate papo com Luciana Gimenez ou entrar no chatroulette e topar com um russo pelado. Mas antes mesmo que eu pudesse responder, ele, tal qual um primo mais novo vingativo e inescrupuloso jogando Mario Kart, soltou em minha direção uma bomba.

“Porque eu acabei de confirmar que em quinze dias você vai estar lá, meu garoto. Vai passar belas quatro semanas! E saiba, alimentação e hospedagem são por minha conta. Você sabe que pode confiar no Chefe. E já te falei das meninas de Macaé?”

Eu sabia o que ele estava fazendo. Por alguma razão ele queria transformar aquele exílio, aquele sumiço, que tinha tudo pra ser tão ruim quanto uma versão extendida e com extras de “Waterworld” em algo com mais pontos positivos do que um exame anti-doping da Rebeca Gusmão. Eu simplesmente precisava saber o por que.

“E claro, não pense que é só isso. Quando você voltar saiba que eu tenho projetos grandes esperando por você, Johnny. Grandes projetos. Você não perde por esperar”.

Eu sinceramente não sabia o que pensar daquilo tudo. Era uma promessa? Uma ameaça? Um trocadilho do tipo “aquele negócio que eu tava agitando ainda está de pé”? De todas as coisas que eu não tinha naquele momento, certezas e uma daquelas luvonas engraçadas que as pessoas usam nos jogos de beisebol eram as duas que mais me faziam falta. Me despedi sem dizer uma palavra e voltei para minha mesa.

Na minha mesa um bilhete com letra de mulher dizia “sua mãe ligou. e agora sabemos seu apelido de infância. hahahaha!”. Minha vida havia se transformado numa confusão sem tamanho e eu não sabia nem por onde começar a resolver, ainda que achasse que pedir pra minha mãe não me ligar mais no trabalho seria um bom começo. De qualquer maneira eu teria um bom tempo para pensar nisso enquanto estivesse em Macaé. Pra pensar nisso ou assistir Lost, porque eu ainda estava na terceira temporada e só eu sei como é terrível ouvir spoilers da própria mãe.

(continua…)

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9 Comentários

Arquivado em Desocupações, Mundo (Su)Real

9 Respostas para “Macaé, uma aventura noir… (Ep 2)

  1. “O Inferno segundo Jluismith”… Perfeito! O toque de crueldade de “agora sabemos seu apelido de infância” foi ótimo!

    Ainda bem que perdi a data de inscrição para a Petrobrás…

  2. Tô adorando essa história! Mas confesso que tenho um pouco de medo do Chefe!
    E estou curiosa para saber quais são os planos reservado para o Johnny e como ele vai se virar em Macaé…

  3. Cara, sua mãe é cruel!

  4. ThiagoFC

    Acho que você abusou das metáforas dessa vez, mas a piada da Rebeca Gumão valeu a pena.

  5. Aguardando ansiosamente a continuação. Sensacional misturar noir e Rebeca Gusmão. E spoilers de Lost são crueldade.

  6. você foi meio cruel ali com a rebeca.

    ri demais com a luciana gimenez!

    poxa, é assim tão ruim?

  7. Juninho

    Aí sim sua mãe te surpreendeu novamente!

  8. Continua isso aí, cara! Tá muito bom!

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