A arte perdida das poucas expectativas (ou minha resenha do show do Franz Ferdinand e do filme do Paulo Halm)

Uma das coisas que me pai me ensinou quando criança e que eu guardei pra vida inteira é que não devemos criar grandes expectativas, porque quando maior a expectativa maior a possível frustração. Eu sei, eu sei, é uma postura de vida meio defensiva demais, mas com o tempo eu fui aprendendo que é o tipo de coisa que acaba fazendo sentido, já que quase sempre nos momentos em que eu saio de casa pra algum evento, programa ou qualquer coisa do tipo com grandes expectativas (e talvez até algumas citações de Charles Dickens) eu volto profundamente frustrado (ainda mais porque as minhas grandes expectativas quase sempre são muito, mas muito grandes e envolvem Ellen Page, anéis energéticos do Lanterna Verdes, shows particulares do Wilco na beira de uma piscina e cachoeiras de iogurte de côco) e quando eu saio com expectativas baixas (baixas mesmo, do tipo “não morrer hoje”) eu acabo me divertindo muito mais. E foi isso que aconteceu na última terça com o filme “Histórias de amor duram apenas 90 minutos” e nesse sábado com o show do Franz Ferdinand.

Sobre o filme eu posso dizer que as minhas expectativas eram as menores possíveis. As únicas duas fontes de informação que eu tinha sobre ele eram o pôster que eu vi no site do cinema e as opiniões absolutamente divergentes que eu recebi por parte de dois amigos. Se uma amiga me disse que o filme era uma “pouca vergonha” com cenas incessantes de sexo (o que realmente me fazia estranhar que ele não tenha sido lançado sob o selo “Brasileirinhas apresenta”) outro amigo me disse que o filme era inteligente e interessante, o que me fez sair de casa esperando, sei lá, o filme pornô softcore mais bem escrito da história recente da humanidade. E chegando lá o que eu vi foi um bocado diferente.

A história do jovem escritor de quase trinta anos que não consegue terminar o primeiro livro e se vê envolvido num triângulo amoroso ao pensar que está sendo traído pela mulher (santa sinopse, Batman!) é uma daquelas histórias de geração que, se não são geniais, ao menos funcionam bem como narrativa. A trama fala bem sobre essa “crise de quase meia idade”, mistura Rubem Fonseca e Baudelaire e tem um bom roteiro, ainda que dê aquela tropeçada clássica na pretensão em alguns momentos. O elenco principal, com Caio Blat, Maria Ribeiro e Sol Cipriota se sai muito bem, com destaque para Daniel Dantas, no papel do pai do protagonista, que não só rouba a cena como ainda solta uma das frases que eu realmente terei que emoldurar e colocar numa parede do meu quarto, a pra mim já clássica “senta a bunda na frente do computador e termina essa porra desse livro”. Ou seja, saí de casa esperando pornô softcore e ganhei um bom filme nacional com um roteiro interessante. Ponto pra mim.

Sobre o show do Franz Ferdinand eu também admito que não tinha grandes esperanças. Ok, gosto da banda, mas não sou um fã apaixonado, conheço só os dois primeiros discos (com mais ênfase no primeiro) e fui lá mais for the lulz mesmo, já que vários amigos iam. Sexta-feira, solteiro, Rio de Janeiro, já tinha conseguido companhia (boa companhia por sinal), let’s go.

Chegando lá eu dei a sorte do show de abertura ser do Moptop, uma banda da qual eu, admito, gosto mais do que do Franz e que fez um pocket show tocando só as mais clássicas deles (clássicas pra mim que conheço a banda, pelo menos). Depois desse começo auspicioso os caras do Franz entraram e uma coisa eu posso dizer: eles gostam do que fazem. Com exceção do baixista (que parecia estar no palco obrigado por alguma cláusula contratual obscura) a banda toda parece estar curtindo imensamente o fato de estar ali tocando e passa essa sensação para o público. Tanto em faixas obviamente empolgantes quanto “Take me out”, “Dark of the matinee” ou “This Fire” quanto em canções menos prováveis quanto a cover de “All my friends” do LCD Soundsystem, os caras praticamente transpiram presença de palco, conexão com o público e satisfação em estar fazendo o que gostam. Isso fica exemplificado não só no número de vezes em que Alex Kapranos disse “Rio de Janeiro” (o que demonstra ou uma grande felicidade ou uma total incapacidade de dizer outra coisa em português) mas na empolgação deles, com saltos para a platéia, farta distribuição de baquetas para o público e coisas do tipo, numa apresentação legal e divertida. Em suma, saí pra ver um show que não me empolgava muito e vi não só meu primeiro grande show internacional como um show de uma banda brasileira da qual eu sempre gostei.

Acho que isso foi mais uma prova de que meu pai estava certo em relação a tentar ter poucas expectativas. Não funciona bem como terapia motivacional, mas admito que ajuda com filmes, shows e outros aspectos da vida.

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9 Comentários

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9 Respostas para “A arte perdida das poucas expectativas (ou minha resenha do show do Franz Ferdinand e do filme do Paulo Halm)

  1. Helena K.

    O show do Franz foi ótimo, e amei a abertura dos Moptops, podia ter sido um show maior, beijos e parabens pelo blog ^^

  2. ThiagoFC

    A frase do Daniel Dantas bem que poderia ser um lema de vida para você.

    E sobre ver o primeiro grande show internacional e ainda ver uma brasileira legal: isso me lembra o Rock In Rio 3. Fui ver o Guns e ganhei, de brinde, shows do Oasis, Ira, Ultraje a Rigor, Pato Fu e algumas garrafadas de água mineral no Carlinhos Brown (mas juro que eu não atirei nenhuma!).

    • Coelho, eu já te contei que quase fui nesse show?

      E sobre as expectativas, é o que eu acredito, a vantagem de ser pessimista é que qualquer surpresa será positiva porque o negativo você já esperava.

      • ThiagoFC

        Não, não me contou…

      • TG

        No Rock in Rio 3, eu quase fui no show do Iron, mas preferi ficar em casa reformando minha guitarra (cool, hem?). Ainda bem q nem eu nem o Jimmy Page fomos, pq se ele fosse, eu teria me matado por ter perdido isso…

  3. minhas expectativas com os acontecimentos da minha vida andam tão baixas, que mesmo eles sendo bons não conseguem me animar.

  4. Manter suas expectativas baixas é sempre o melhor a se fazer. Eu tenho outra teoria de que se sua expectativa está muito alta, as chances de seja lá o que for ser ruim e dar merda são muito alta. O que automaticamente costuma resultar em expectativas baixas.

  5. Pingback: Sobre a ‘arte perdida das poucas expectativas’ « Histórias de amor duram apenas 90 minutos

  6. Gostei do texto, vou tentar seguir esse conselho!

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