Problemas práticos do romantismo teórico – IX

Eu não sei quantos de vocês gostam de “How i met your mother” ou mesmo quantos de vocês sequer conhecem a existência da série (que por sinal é sensacional), mas teve uma cena na 3ª temporada dela que levantou uma questão que é meio bizarra nos dias de hoje: a de que o romance, assim como o açúcar e as bebidas destiladas, é algo com cujas grandes quantidades nós não sabemos lidar no nosso cotidiano. Nós pensamos nisso, talvez as garotas se ressintam da falta disso, mas em termos reais definitivamente não estamos preparados para lidar com certos graus de romantismo. Mas vamos à cena e ao contexto.

Ted, o protagonista da série, está interessado em uma médica que, por já ter uma filha, considera que não tem tempo para um relacionamento, alegando que durante o dia tem como tempo livre apenas dois minutos diários de almoço. Um problema. Um conflito. Uma barreira temporal praticamente intransponível. E o que Ted faz? Ted a encontra na porta do consultório na hora do almoço e a leva para um encontro relâmpago de dois minutos, com direito a jantar, sobremesa e filme com pipoca, tudo isso meticulosamente cronometrado e ainda sobrando tempo para um beijo de despedida. Sim, eu sei, vocês acharam fofo, algumas meninas se perguntaram porque o namorado não pode ser assim e eu desconfio que até vi um cara aí no fundo fazendo “óóóóuuuunnnn” e tentando disfarçar. Mas tente projetar isso para a sua vida real. Sério, imagine que um cara com quem você nunca saiu antes (ainda que já o conheça) se dá ao trabalho de empregar toda a engenhosidade e logística necessária a esse processo, contratando um taxista para o “transporte”, preparando a cena do restaurante, trazendo um filme pra ver contigo na TV da loja de eletrônicos ao lado, coisas do tipo. Sim, eu sei, é estranho. E é basicamente essa a questão.

Todo mundo acha que romantismo é uma coisa fofa, bonita, simpática e que está em falta no mundo, mas na verdade nós não sabemos lidar e muitas vezes acabamos nos assustando quando vemos esse tipo de coisa acontecendo na prática, nas nossas vidas, e não nas telas de cinema, nos episódios de seriado que nós baixamos da internet vemos na TV ou nos livros um tanto quanto fofos demais. Na vida real uma atitude como a do Ted iria soar muito mais no campo do “ok, ele é estranho…” do que no campo do supracitado “óóun” (que por sinal eu nunca entendi direito o que significa. óun? como assim?). Atitudes grandiloqüentes, épicas, exageradas ou apenas sensacionais demais simplesmente não funcionam no mundo real.

Mas por que? Primeiro porque existe um certo nível de padronização esperado nos relacionamentos. Se você se envolver rápido demais você é grudento, se você demorar demais pra se envolver você é insensível, se você não se expressa você é fechado, se você se expressa você é brega e por aí vai. Nós queremos alguém “diferente”, desde que não seja muito diferente, ou mais diferente do que nós estamos acostumados a lidar e também não queremos fazer nada que fuja do padrão normal, pelo medo do quão esquisito isso vá soar pro outro (sim, anões mariachis dançarinos ninjas, eu não vou pedir ninguém em namoro com a ajuda de vocês. me desculpem. mas nos vemos no futebol segunda)

Depois porque simplesmente passamos a ter mais medo e manter mais distância das pessoas, e coisas que antes eram românticas passaram a soar irritantes ou apenas levemente psicóticas. O que fica claro no fato de que hoje a grafia correta de “admirador secreto” é “stalker”, ou de que todo mundo fala o tempo todo em “manter seu espaço” (um conceito tão absurdo para os casais de vinte anos atrás quanto o de, sei, lá, usar uma barra de manteiga para viajar no tempo).

E claro, existem outras razões, que vão desde a dificuldade natural da nossa geração para se comprometer (eu vejo pessoas que lidam com namoros como lidam com celulares: “se eu achar um mais bonito, mais prático e que tira fotos melhor eu vou trocar”), e a liberação sexual (desconfio que hoje as pessoas formam não sei, 10 vezes mais casais do que há 20 anos, o que faz com que talvez levem certas coisas menos a sério) até o individualismo da sociedade (porque sempre temos que culpar a sociedade, seja qual for o tema) e que impedem que certos níveis de romantismo que existem na teoria possam ser algum dia colocados em prática.

Ou seja, ainda que um Barney Stinson seja algo plenamente viável no mundo real (por mais que eu saiba que usar terno o tempo todo aqui no Rio me mataria), um Ted Mosby, mesmo se existisse, muito provavelmente teria um nível de sucesso muito mais baixo e uma reputação muito menos legal (e isso com ou sem a tatuagem estranha). Fora que no mundo real qualquer um acaba sendo preso após roubar uma corneta azul pra dar de presente pra uma garota, seja isso romântico ou não.

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17 Comentários

Arquivado em romantismo desperdiçado, Sem Categoria

17 Respostas para “Problemas práticos do romantismo teórico – IX

  1. Fui apresentada pelo seriado citado no post em Berlin, em uma experiencia couch surfing, o dono da casa lavava louça assistindo How I met your mother todas as manhas e eu acompanhei a serie nos meus 5 dias “berlianos” e gostei um bocado, principalmente qnd vi a cara da medica namorada do Ted (e Eliot de Scrubs, de longe meu seriado favorito :)
    Citei o menino das louças, pois ela era o exemplo de um romantico moderno, namora uma guria que mora do outro lado do oceano e largava tudo pra ficar conversando com ela via skype, jogando damas online (com ela), e eles vao levando assim o relacionamento, um romantismo só, veja bem vc. ha
    Acho engraçado como o romantismo moderno se reduziu a scraps ou tweets diários e coisas sem sentido assim.

    Tambem aprendi na vida que muitos romanticos nao fazem atitudes por amar e sim pela necessidade de ser amado, devido a uma carencia que nasceu em algum momento, se fosse Freud eu diria que a culpa é da mãe do individuo, ou coisa assim.

    Enfim, esse é um assunto que dá pano pra manga, pra sempre, mas nunca é conclusivo, temos muitos problemas. ^^

  2. Josy

    O que é romantico pra mim pode ser ridículo pra outra pessoa, isso é complicado. Romantico pra mim é arrancar uma florzinha no meio do caminho e me dar. Não preciso de grandes cenas. Ou preciso também, em doses homeopaticas. Mas acho que pra mim esta engenhosidade toda, não sustenta nada. É só ter uma boa imaginação que é possível bolar planos infalíveis, cenas românticas de filme… Mas sabe que eu não sou a pessoa mais indicada pra comentar isso hoje, né? rs

  3. ThiagoFC

    Eu também acho que a culpa é da sociedade e do sistema (seja ele o sistema solar, sistema métrico, ou qualquer outro sistema). É como diria o poeta Chorão, do Charlie Brown Júnior: “Eu quero que se foda essa porra de sociedade” (incrível como essa frase se aplica a tudo, quando se tem uns 15 anos de idade).

  4. adoro how i met your mother. acho leve, ‘fofo’ e engraçadinho.
    confesso que ja quis usar o ‘have you met ted’ com alguma amiga. mas nunca deu.

    e a partir dai a gente ja ve que a vida real nao é ficção.
    mas que a vida sem esses seriados pra dar alguma esperança ou fantasia, seria insuportavel.

  5. eu nunca assisti essa série. mas, levando em consideração meus vícios em seriados, é melhor nem assistir. haha. btw, “óun” é tipo uma variação de “OMG” (oh, my god). a la, “vc” e “você”. bom, pelo menos, é nisso que eu prefiro acreditar.

  6. Concordo. E digo isso por experiência própria. Um cara que se mostra romântico demais, capaz de fazer coisas surreais “por amor” assusta mesmo. Tanto por você ter medo de não poder corresponder ao tamanho do afeto que ele está demonstrando, quanto por ter medo de que o cara seja um psicopata, e que se você acabar o namoro algum dia, você não sabe do que ele é capaz também. Tudo culpa do visão individualista da sociedade atual (por via das dúvidas, é sempre culpa da sociedade mesmo haha).

    Adorei o post, como sempre. E acho que vou baixar, digo, assistir na TV essa série.
    =)

  7. nunca assisti essa série. nunca vi esse tal de ted. desconheço cornetas azuis e nunca ouvi falar nesse tal de romantismo.

    e estou bem assim.

  8. ana

    eles mostram na telinha apenas os scripts que deram certo na vida real. os scripts que deram errado viram filmes B e sem sucesso de bilheteria.

  9. Não conheço essa série. Assim como não conheço quase nenhuma outra.

    Mas o texto é excelente. E, felizmente, beeeeem verdadeiro.

    Sinteticamente: concordo. Ser esquisito não é legal.

  10. moniquemoro

    o texto está excelente e eu amo HIMYM.
    (acredito que a série tenha umas em mil lições de vida escondidas)

    mas esse post realmente me deixou triste.

  11. é onde a mente nos sabota, nessa curva infame entre o que realmente queremos e como fazemos aquilo que achamos queremos. No meio, temos esses rostinhos que malemá encaramos no espelho, que assim como o resto, não sabem o que querem, e costumam fazer 1 força danada para não saber.

    quem sabe deixando de pensar em ser romantico pra todas e ser romantico apenas pra quem nos interessa a coisa não fica mais bacana? Já que todo mundo é cheio de manias, vontades (e nem todos os anões que jogam conosco são craques), acredito ser mais negócio conhecer muito de poucas, que nada de muitas. E dai essa que permitir-se ser conhecida fará “oouunn” (e tantas coisas mais) pra ti todo santo dia.

    Romantismo pode [diria que deve] ser prático. Se for apenas poético cai nessas contradições.

    quanto a comprometimento, é simples: a gente não dá o que não tem. E nos acostumamos a ficar buscando isso nos outros e/ou querendo que venham e nos entreguem. Parabéns para nossos pais, tão ou mais alienados que nós [salvando as devidas exceções].

  12. “How i met your mother” tem a ver com o seu post sobre “linguagem de um wigman” ou algo assim?
    Zach Braff o J.D de Scrubs, sendo excessivamente romantico é completamante diferente de ver o leonard the big band theory fazendo isso.
    p.s: o Zach Braff poderia mandar um cara míope com um alto falante em uma bicicleta gritar uma declaração pelas ruas em minha homenagem que ainda ia ser fofo. *-*
    p.s²: “se eu achar um mais bonito, mais prático e que tira fotos melhor eu vou trocar” = pegação sem compromisso. ‘-‘

  13. Uma amiga me falou desse seriado nesse feriado, achei interessante, vou baixar!!

    Já sobre o romantismo…estou tendo sérios problemas com um cara que está sendo mais romântico do que devia e eu não tô conseguindo acompanhar tanto romantismo…

  14. Romântico pra mim é o jeito que o Chris Keller demonstra ciúmes do Beecher em Oz. E realmente, “admirador secreto” é muito stalker, não curto. Vai entender.

  15. Juninho

    Eu acho legal ser esquisito, mas não sei se a ponto de ser românticamente-esquisito…

  16. Paty

    Sou romantica, realmente hoje tah dificil. Tudo se tornou descartável, até mesmo as pessoas. Triste.

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