Problemas práticos do romantismo teórico – XI

Como eu já disse aqui antes, as pessoas quando se apaixonam tendem a, ainda que sutilmente, se dissociar da realidade e das pessoas ao redor, de certa forma se fechando em um mundo pessoal onde as nuvens são cor-de-rosa, o universo tem música ambiente e gastar 300 reais numa blusa faz sentido se ela tiver realmente achado aquilo bonito. E com isso, com essa vida imersa numa bolha de amor, paixão, sentimentos românticos e depoimentos de orkut com letras do Jota Quest, o casal começa a desenvolver um grau de intimidade que gera praticamente uma linguagem própria, tanto no campo verbal quanto no não-verbal, com gestos, silêncios, e movimentos que dizem mais do que palavras, frases ou mesmo livros inteiros jamais poderiam dizer. E claro, é nesse contexto que também surgem eles: os apelidos carinhosos.

O chamado apelido carinhoso é uma alcunha que, na intimidade do casal, surge para delimitar ainda mais a distância entre eles e o resto do mundo, fazendo com que os dois ganhem novos nomes, que apenas eles conhecem. Daí Diegos viram Ursões, Camilas viram Pupucas, Lisandras viram Coelhinhas e Tadeus, talvez um pouco mais azarados, viram Tubarõezinhos da Lindinha E claro, como acontece em quase 90% das situações que envolvem intimidade, tudo no final das contas vira vergonha.

Vergonha porque o apelido carinhoso é, assim como a energia nuclear, o relacionamento a três e a comida mexicana ingerida no almoço em dia de trabalho, um conceito que já nasce fadado ao desastre e ao fracasso desde o campo conceitual. Afinal, pode parecer romântico, bonitinho e até fofo ter uma forma mais carinhosa de se referir ao seu parceiro num momento de intimidade (“pega minha cueca na geladeira, borboletinha?”), mas como todos sabemos, na atual sociedade midiática é muito complicado que algo, por mais íntimo que seja, se mantenha privativo. Ou, sendo mais claro, alguém sempre acaba dando com a língua nos dentes.

Afinal,imagine que a sua namorada tenha lhe dado o apelido de “pinguinzinho” pelo fato de que quando vocês se conheceram você estava numa festa à fantasia junto com mais 6 amigos, todos vestidos de Happy Feet. Bizarro, porém compreensível. O apelido começa como uma brincadeira carinhosa e com o tempo acaba pegando e ela se acostuma a te chamar dessa forma sempre que vocês estão sozinhos. Normal, natural e totalmente sob controle, até o momento em que, na festa da sua prima Marcela,  a sua namorada (que você chama de Lola, por causa da camisola da Lola Bunny que ela costuma usar quando dorme na sua casa) fica bêbada e, no meio da galera solta um “me leva pra casa, pinguinzinho!”. E aí, amigo, all hell breaks loose, vamos dizer assim. O privado vira público, o particular se torna comum e você deixa de ser o Adolfo e vira o “Pinguinzinho da moçada”.

Mas não é apenas o fato de que quase todo apelido íntimo se torna público em situações vergonhosas que torna o conceito de possuir uma alcunha pessoal carinhosa algo arriscado. Existem também outras questões como o fato de quase todo apelido carinhoso ser meio boboca (você conhece alguém que apelide o namorado de “venerável roberval”, por exemplo?) e a verdade de que namoros terminam (e aquela dedicatória no cd onde se lê “com carinho, para meu chuchuco”, vai durar pra sempre).

Por isso eu sempre sugiro que as pessoas mesmo que insanas de paixão, loucas de desejo, perturbadas de amor, transtornadas de sentimento, ou praticamente hidrófobas de carinho, sempre façam uso dos seus próprios nomes (ou no máximo de variações e diminutivos carinhosos), visando manter sempre, além da saúde do relacionamento, um certo nível básico de dignidade. Porque pode ser legal, naquela noite fria, ser o Coelhão da Luciana, mas não é tão legal ser  pra sempre o Pernalonga na pelada de final de ano da empresa.

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20 Comentários

Arquivado em romantismo desperdiçado, Vida Pessoal

20 Respostas para “Problemas práticos do romantismo teórico – XI

  1. Juninho

    Ah, cara, não adianta. Por mais vergonhoso que seja quando vem a público sempre vai existir aqueles (ou aqueles) apelidinho carinhoso e “secreto”. E o insano é que estamos sempre trocando e é um ciclo interminável.

    Qual era seu apelidinho, hein, cachorrão???

  2. hahaha. meu primo chama a namorada dele de orangotango. :O me compadeci da moça.

  3. E os casais que CURTEM se chamar publicamente pelo apelidinho carinhoso apesar da vergonha alheia imensurável que causam nos amigos?

  4. Texto muito engraçado, como de costume, mas uma coisa em particular me chamou a atenção: cueca na geladeira?!?!?! Cara, nem quero imaginar como é sua vida a dois e entre quatro paredes, sob o risco de ter de fazer terapia para esquecer….

  5. Haha! Eu atentei pra mesma coisa que o Futebol… Mas eu imagino que ele se refira a quando você põe a cueca ATRÁS da geladeira, naquela grade, pra secar!

    Espero estar certo. o.O

  6. Marília N.

    Acho que é por causa desse tipo de coisa que a maioria das pessoas não conseguem manter amizade com ex-namorados.

  7. Ainda acho que apelidos fofos valem a pena *-*, mesmo depois de todos esses motivos.

  8. Hahahaha… Eu usava esses apelidos bobos com meu ex-namorado. Usava tanto que chegou uma hora que ele nem tinha mais nome. O nome dele era o apelido (não vou dizer aqui qual, mas vamos fingir que era chuchuquinho). Então… era chuchuquinho pra lá, chuchuquinho pra cá. Se eu chamasse ele pelo nome (vamos fingir que era José)… então… se eu falasse José isso, José aquilo, parecia que não era ele. Ele era o chuchuquinho e não o José. Até que um dia a gente terminou….. e como temos uma filha, o nosso contato não se perdeu. Mas eu conseguia chamar ele de José? Não! Pq ele não era José. Não sentia nada, não queria nada. mas continuava a atender o telefone e chamar de chuchuquinho…. Pois bem…. um dia eu estava acordando na cama de um carinha que eu tava ficando há um tempo. E naquela de acordar com o celular tocando, não pensei e atendi: “Fala, chuchuquinho!” HUAUHAUHAUHA…. O meu amigo riu, acho que achou estranho… e eu, super constrangida, fingi que aquilo tudo era super normal.
    Mas depois dessa ele passou a ser o José mesmo!

  9. Intimidade é um caminho sem volta mesmo… hauhauhuaa. Tentei lembrar de algum apelido carinhoso que dei pra meus ex-namorados, mas não lembrei de nenhum! Só chamava de “amor” ou “meu bem” mesmo… Será isso falta de romantismo da minha parte?

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  11. Pinguinzinho, hein? Tensíssimo. Trato algumas pessoas pelo diminutivo do nome, tipo a Ju Marton. Não sei mais que o nome dela é Juliana, então é só Ju. Mas pra homens prefiro o nome mesmo, é mais confortável, por mais que eu esteja morrendo de amores.
    Porra, tinha um guria que gostava de contar os problemas amorosos pra mim, e ela chamava o cara de “meu bifinho”. Mantive o segredo até o amor que havia entre eles virar um inferno e acabar, aí fui filha da puta, corri e falei pros amigões do W11 dele que “nossa, cês ficaram sabendo? A Eve terminou com o bifinho, gente. Eles eram um casal tão fofis, num eram?”. E foi isso. Aconteceu há 1 ano, aproximadamente. Perdura até os dias atuais.. O bifinho com molho inglês. That’s just lame.

  12. Tha

    O namorado de uma amiga a chama de “bolotinha”. haha. Adorei o texto e concordo! Algum dia acaba se tornando público. Que mantenhamos a dignidade.

  13. Hahahahaha, apelidos são muito ridículos, dignidade acima de tudo!

  14. ana tereza

    vai ser tosco contar isso mas eu tenho um padrão com apelidos amorosos: todo mundo é amor, no maximo meu bem.
    Assim não troco nomes e posso falar em publico tb sem levar ao constrangimento. Funciona e ainda é bonitinho!

    Agora eu já tive apelidos: contraditorios como branca e preta. Outro inspiração musical (rolava todo um contexto de show los hermanos, te conheci, ficamos e tal) que foi morena. Teve tb os diminutivos como TT e Ninha. Foram alguns que eu consegui lembrar, já tive alguns muitos namoros/rolos na minha vida.

  15. bia

    fico pensando se chamar de “bebê”, como eu fazia, é ridículo ou só constrangedor mesmo…

  16. quando conheci meu marido, eu tinha 17 anos e ele 21.
    É LOGICO que nós temos apelidinhos e coisas mimizentas desde essa epoca, e sim já nos chamamos pelo apelido em publico sem querer. mas sao apelidos tão inocentes e inofensivos que me arrisco a dizer que ninguem reparou. bom, pelo menos ninguem tirou sarro da gente ate hoje (8 anos juntos).
    nao sou contra apelidinhos, sério. acho que faz parte da coisa melosa que é inicio de namoro e um diferencial na relação. uma sinal de carinho e tal.

    mas duas coisas curiosas sobre esse lance de apelidar namorados:
    #1 – um ex namoradinho da adolescencia era muito conhecido pelo apelido, e não pelo nome. muita gente nem sequer sabia o nome verdadeiro dele. as únicas pessoas que o chamavam pelo nome era eu e a mãe dele. esse era meu “apelidinho de namorado”, chamar ele pelo nome, ou melhor, a abreviação dele.

    #2 – meu marido se chama ‘moisés’. nome sério. dai logo no inicio do teretete, eu comecei a chamá-lo de “moisa”. era uma coisa nossa. minha, na verdade. pra descontrair, criar intimidade se assusta-lo com apelidinhos non-sense. e pegou. hoje em dia, TODOS os nossos amigos, meus pais, minhas irmãs… todo mundo só chama ele de moisa.
    até quis pensar em outra coisa, mas não tenho la tanta imginação.

  17. Fran

    Acho que não vou comentar nada aqui..

  18. Elisa

    Eu torço, por tudo que é mais sagrado, que a sua próxima namorada só te chame de “Venerável Roberval”.

    aheuahuehauehuae

    De onde você tirou isso?

  19. A namorada do meu irmão chama ele pelo nome, ao contrário do universo, que o chama pelo apelido. Acho que a questão, ao que me parece, é ser único, especial. “Só eu o chamo dessa forma”. Mas apelidos açucarados são tenso, mesmo. Ponderemos na hora de escolher um. Melhor assim.

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