Do you wanna date my avatar?

Um assunto que tem sido recorrente entre amigos, colegas, familiares, conhecidos e a página inicial da UOL e do Terra é o dos sites de namoro pela internet. Eu vejo matérias sobre isso, eu ouço comentários sobre isso, eu trabalho com um cara que faz uso dos serviços (com resultados bem válidos, pelo que ele diz) e, como já mencionei antes, tem aquele parente do meu amigo que usa o Par Perfeito pra dizer que é médico e conseguir transar com uma garota diferente a cada final de semana usando um nome falso (ainda que eu ache que ele vai receber algum tipo de retribuição cármica por isso, não sei).

O conceito é aquele de sempre: você cria um perfil, você se descreve, você coloca uma foto sua (possivelmente do tempo em que você ainda era magro) em que não dê pra ver aquela falha estranha no seu cabelo ou a cicatriz em forma de gancho na sua testa e espera o contato de pessoas que se interessem ou pesquisa ali dentro pessoas que pareçam ser interessantes pra você. Simples, tranqüilo, intuitivo e bem fácil de usar. Ou seja, uma boa idéia. Ou não.

Claro, existem as vantagens. Um computador oferece possibilidades como reduzir a sua timidez (gagos amam o msn, eu acho), te dá a oportunidade de filtrar as coisas que você fala (“não, não, vou deletar esse lance sobre ter tesão em mímica…”), te permite abordar só pessoas teoricamente receptivas (e não aquela garota no bar que tem spray de pimenta no bolso) e oferece várias outras comodidades óbvias como cantar garotas enquanto joga Age of Empires II (“vou construir mais 6 catapultas e depois digo algo legal pra morena baixinha”) ou puxar papo com alguém sem estar necessariamente usando calças (mas acho que possivelmente só eu listaria isso como uma vantagem).

Mas também existem, é óbvio, as desvantagens. E não, não falo apenas do fato de que na internet você não sabe se está realmente falando com uma pessoa ou com um cachorro, todo mundo pode estar mentindo ou mesmo que cerca de 70% das pessoas que se dizem mulheres são na verdade caras quarentões chamados Walter que vão te pedir pra aparecer sem camisa na webcam cantando “Livin’ on a prayer”, nada disso. Falo de questões um pouco mais complexas.

Um deles é o fato de que a comunicação mediada pela internet sempre tem um nível de perda em relação a comunicação presencial e isso pode gerar surpresas e confusões. Aquela hora em que você estava brincando e a pessoa achou que era sério, aquele momento em que era sério e a pessoa achou que você estava brincando ou mesmo o fato de que ninguém menciona num perfil do Alma Gêmea que tem tiques nervosos ou rosna quando ri (“você é tão engraçado…roaaaaarrrrrrrr”) são apenas alguns dos exemplos clássicos de que conversar com alguém cara a cara é (se a pessoa não for uma sociopata armada) mais produtivo do que conversar com alguém pela internet. Mas ainda assim esse não é principal problema (mesmo que pessoas que riem rosnando me dêem um pouco nos nervos).

O principal problema pra mim é claramente conceitual. Isso porque o site de namoro, assim como o motel, o serviço militar obrigatório e o voto compulsivo tentam organizar e processar de forma objetiva situações cuja graça vem exatamente do fato de não haver objetividade. Não existe o fooling around, não existe a espontaneidade: se você está num motel você vai transar (sério, transe, vão te olhar estranho se você pensar em fazer outra coisa), se você foi convocado você vai servir, se é outubro você vai votar e se você está num site desses é pra necessariamente arrumar alguma coisa com alguém. Não dá pra apenas ficar bêbado,  pensar em chegar mas não ir porque não te avisaram que ia ter gente de fora e você foi pra casa do seu amigo de pijama,  tentar confirmar com o seu amigo se ela está mesmo afim e receber como resposta um “a bonita ou a que está com a cabeça no prato de macarrão ?” e todas essas outras coisas que geram a graça de conhecer as pessoas, indo desde os encontros fortuitos até as coincidências bizarras e todo o processo legal (ou nem tanto) relacionado a isso.

Ou seja é…prático demais. Simples demais. Controlado demais. E ainda que eu seja obcecado por controle, defensor da praticidade e alguém que está sempre tentando deixar tudo simples, eu acho que isso mata demais a graça da coisa. Exceto, é claro, para aquele parente do meu amigo que usa o Par Perfeito pra dizer que é médico e conseguir transar com uma garota diferente a cada final de semana usando um nome falso. Mas como eu já disse, eu acho que vai existir alguma retribuição cármica pra isso.

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13 Comentários

Arquivado em Mundo (Su)Real, romantismo desperdiçado

13 Respostas para “Do you wanna date my avatar?

  1. muito legal, e tudo verdade :]
    sou fã do teu blog

  2. praticidade é uma coisa boa, na maior parte do tempo.

  3. Praticidade é legal e tal. Mas eu concordo que algumas coisas deviam mesmo ser espontâneas, mas não dá pra negar que deve ser divertido quando você resolve usar a ferramenta pra sacanear outras pessoas. Ou fazer o que o parente do seu amigo faz.

  4. “em que não dê pra ver aquela falha estranha no seu cabelo ou a cicatriz em forma de ganho na sua testa” – isso é essencial goood.
    a propósito, quando sai o livro em q vc publicou uma história nele? . ( :

  5. Você citou pessoas com gagueira neste post. Cuidado!

  6. é verdade. as coisas inesperadas são mesmo bem mais interessantes. é bem mais emocionante fazer sexo debaixo da escada de incêndio da prefeitura de cajueiro da praia do que em motel.

    • Elisa

      Detalhes demais, Fernanda.

      Se a avó do João vir isso, ela vai ter um treco. Se crianças não batizadas vão para o limbo, então você já era.

  7. (Eu tenho muita vergonha em escrever, depois de ler teu blog.)

    Seguinte: nem todos são Walter. De todos os 90 Walteres, umas das pessoas que vai pedir pra você cantar Livin on a prayer sem camisa sou eu, então você pode ter uma chance em um milhão de encontrar uma morena baixinha mais ou menos bem intencionada se tentar por esse caminho.

    Posto isso… Conheci meu namorado pela internet. De uma maneira bem diferente do que essa dos chats – que eu abomino e acho uma coisa de gente muito desesperada, mesmo – mas, pela internet. E posso te dizer que, sim, tem suas vantagens sim, mas o ‘olho no olho’ não substitui nada.

    Até mesmo porque a graça do relacionamento está nessas coisas que a gente esconde um do outro na internet. Ele só começou me amar quando me viu com aquela camiseta velha do PT cantando Bon Jovi enquanto lavava louça. E nunca que na webcan ia ser assim ;)

  8. Marina

    Nunca namorei ninguém pela internet.

  9. sheila

    total verdade. a história do motel bem surgiu outro dia num carro com 5 mulheres, das quais só eu manifestei gosto pela coisa.

    e ontem mesmo estava discutindo com minha chefe sobre salão de beleza, e que eu faria mais as unhas se as manicures ficassem do outro lado de uma parede e a gente chegasse e enfiasse as mãos nuns buracos e pagasse por uma janelinha e não precisasse falar com elas. seria ótimo. é basicamente o mesmo motivo para meu cabelo estar sempre maior do que eu gostaria: essa necessidade de interação com a pessoa que está fazendo o serviço pra vc. tudo muito, muito difícil.

  10. Sara

    Eu tenho que admitir que encontrar alguém bacana em um bar está tão difícil como conversar com alguém que realmente fala a verdade na internet.

    Na dúvida, me divirto com meus amigos e uso a internet apenas para conversar com quem já conheço! Um pouco melodramático, eu sei, mas é o que observo ultimamente.

  11. Fran

    eu gosto de conhecer pessoas na internet. não sou paranoica..

  12. Elisa

    O bom da internet é justamente poder ser quem a gente quiser. No facebook, eu sou uma velhinha de 64 anos viciada em farmville que usa uma foto da neta no avatar.

    Mas hoje isso está mais difícil. Eu gostava de inventar coisas no ICQ (que tinha o white pages, lembra?). Uma vez já fui uma russa que estudava física nuclear. Não sei se as pessoas caiam na minha conversa, mas a vida era mais divertida.

    Acho que eu não gosto de sair de casa e ter que conversar com pessoas de verdade.

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