Problemas práticos do romantismo teórico – X

Sinceridade é uma dessas coisas que são sensacionais na teoria, mas que tem uma aplicação muito complexa no mundo real. Sua mãe pergunta a sua opinião sobre aquele patê de frango que ficou uma droga e você não sabe o que dizer para não ferir os sentimentos dela; sua namorada te pergunta se você acha que ela está engordando e você tem que escolher entre mentir e ser pressionado ou dizer a verdade e nunca mais comer sem usar um canudo; seu amigo quer saber o que você achou daquele filme experimental dele com duras horas de duração (em que tudo que você entendeu foi que filmes experimentais não deveriam durar duas horas) e você não sabe se fala que foi uma merda e perde o amigo ou fala que foi divertido e corre o risco de não só ver aquilo de novo como estar na primeira fila na premiére da continuação. Como eu disse, sinceridade é uma coisa complicada.

E sinceridade nos relacionamentos é algo mais complicado ainda. Seja quando você está solteiro, se envolve com alguém e não sabe qual a altura certa pra dizer que não, você não quer nada sério (se você disser cedo demais, de forma preventiva, você parece um babaca. se você disser tarde demais, quando a garota já falou de você com os pais e está querendo mudar o status do orkut, você vai parecer um babaca. ou seja, provavelmente ela vai te achar um babaca de qualquer maneira), seja quando você está pensando em começar um namoro e não sabe qual o grau de informação certo pra passar para sua respectiva (“ela precisa mesmo saber que fiz aquele ensaio sensual pra pagar a faculdade?”), seja em questões de confiança mais graves, como traições e derivados.

Mas o quão sincero alguém precisa ser e de que forma essa sinceridade deve ser aplicada? O grande problema pra definir isso é que a necessidade de informações de cada um de nós é total e absolutamente diferente. Da mesma forma que existem caras que realmente não fazem a menor questão de exigir informações sobre o passado de uma garota (“você roubava? ok. você passou 5 anos numa prisão turca? tudo bem. você era do clube de caça cristão da ku-klux-klan regional Guarujá? eu posso conviver com isso. você era atriz pornô? ceeeerto…mas nada de festinhas com os antigos colegas de trabalho, por favor?e isso inclui o cabrito também”) e que não são lá muito sedentos por informações desse tipo em geral (eu não veria a graça de saber quantos caras cantaram uma namorada minha numa festa em que ela foi sozinha, por exemplo), outros são obcecados por detalhes e querem todo e qualquer dado relacionado a vida pessoal da pessoa com quem ele está (“como assim você não me contou que já tinha jogado vôlei de praia com o seu primo no verão de 1992? hein? por que você mentiu pra mim?e dane-se se vocês tinham só seis anos!”)

Por isso várias vezes o que pra você é uma coisa irrelevante, que nem vale a pena contar ou mencionar, acaba sendo pra outra pessoa um segredo que você escondeu, uma informação que você omitiu, o primeiro passo de uma caminhada que inexoravelmente resultará em dor, sofrimento, traição e ursinhos de pelúcia decapitados. Tudo isso porque a sua visão do grau de sinceridade e de informação da relação é totalmente diferente da do outro e você achou que ela não precisava saber qual era o seu Lanterna Verde favorito (e esconder de alguém a sua simpatia pelo Mogo só pode significar infidelidade, acho).

A questão talvez seja então, um pouco como num trabalho de assessoria de imprensa, saber o que dizer e como dizer. Afinal, algumas coisas precisam ser ditas por piores que sejam (“ahnn…então…tipo…eu…dormi com…a sua irmã…”), outras não precisam necessariamente ser ditas (“tá vendo aquela gostosa de verde ali? tá me dando maior mole, amor!”) e algumas devem ser ditas apenas para evitar o “ah, mas por que você não me contou isso?”,  dependendo um pouco do bom-senso e do seu conhecimento da pessoa com quem você está.

E claro, ainda que soluções como fuçar a bolsa alheia, olhar o celular ou usar o soro da verdade pareçam muito tentadoras (existe mesmo soro da verdade no mundo real ou só nos filmes do James Bond? sempre me perguntei isso) também pode ser uma boa, além de saber o que e como responder, também saber o que e como perguntar. Nem que seja só pra evitar saber demais sobre aquela história do cabrito.

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14 Comentários

Arquivado em romantismo desperdiçado, teorias

14 Respostas para “Problemas práticos do romantismo teórico – X

  1. seu texto foi bastante esclarecedor.

    a partir de hoje omitirei muitas coisas dos meus namorados.

    ser sincera demais até hoje só me rendeu dor de cabeça.

  2. Alysson

    Cara, vc devia compilar e publicar essas crônicas-do-pensamento-estratégico-afetivo-na-contemporaneidade em um livro. Eu compraria… ou melhor, não compraria pq eu leio de graça aqui, mas… conheço pessoas que comprariam ainda que pudessem ler de graça aqui. Faz até um marketing.

    • O blog do João virar um livro? Isso é muito fácil de se resolver!
      Tá vendo um link aqui do lado, à direita de quem está lendo este blog? Esse mesmo em que está escrito “Este blog pode virar livro. Vote!”

      Então, acho que pode ser uma boa clicar aí… Tá dada a dica.

      p.s: João, eu vou cobrar pelo merchan!

  3. TG

    essas confusões acontecem direto comigo. Mãe e noiva reclamam q eu não conto nada, mas a maioria das vezes as informações são coisa sem importância, besteiras de amigos, de trabalho. Nem por isso acho q estou numa “caminhada que inexoravelmente resultará em dor, sofrimento, traição e ursinhos de pelúcia decapitados”. Porque senão, coitado do Roy Corrói de pelúcia q dei pra Amanda! (como se decapitaria uma criatura dessas, sem pescoço?)

  4. Marília N.

    O pior é quando você é sincero e a pessoa te força a extrair confissões que só existem na cabeça dela. True story.

  5. soro, mesmo, não existe. mas, eu li que já usaram várias substâncias pra esse fim. dentre elas ecstasy e lsd. mas, o uso desse tipo de substância é considerado tortura pela anistia internacional. Oo

    btw, a sinceridade é a própria contradição do que pode ser considerado benção e maldição. sério. ._.

  6. Flávia G.

    Não é mesmo simples essa questão da sinceridade nos relacionamentos. Eu mesma mudei minha opinião a respeito disso (amadurecimento, será?! Ou não). Já preguei a sinceridade absoluta em todos os momentos de um relacionamento, mas sei lá, hoje acho que isso não é a atitude mais sábia a ser tomada.

    Hoje, penso assim: enquanto se está conhecendo uma pessoa o que irá aproximá-la ou afastá-la é uma afinidade que independe do passado. Essa atração, praticamente uma gravitação, não precisa ser atormentada por qualquer dado do passado, seja ele bom ou mau. Poucas coisas são tão encantadoras com um longo papo leve sobre coisas aleatórias.

    Com o envolvimento, deveria surgir uma cumplicidade o que em tese deveria possibilitar que, coerentemente, e aos poucos o passado fosse contado, sempre na medida da cumplicidade. Para mim essa é a medida complicada… mas a gente vai levando!

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  8. Fran

    É quase um contra-senso.

  9. Mila

    Eu sou muito sincera e muito curiosa também, o que as vezes me causa muitos problemas… Então quando alguém me pergunta se eu gostei de algo que é horrível, se da pra perceber que engordou ou algo do parecido eu simplesmente pergunto: “-Você gostou?” ou “-O que você acha?” E ai a pessoa começa a falar e esquece que perguntou a minha opinião… Afinal, não pergunte nada se não tiver certeza que quer saber a resposta… E omitir é sempre legal(Se não for pra pessoas que moram muito longe é claro… Embora ninguém precise saber a história do “Cabrito”)… rsrsrs

  10. Marina

    “Sinceridade, sai que a fila tem que andar” /maria rita

  11. Pingback: Fato 5: sinceridade é um troço muito complicado « Eu gosto de uma coisa errada

  12. Natalia

    É, aquele negócio de….. vc já transou com quantos?
    Ninguém fala a verdade. Os homens jogam no exponencial, as mulheres dividem por 5 e as mais experientes, por 10. E no final dá tudo certo..

  13. Sara

    Incrível, mas lendo esse texto um filme de todo o meu namoro antigo passou na minha frente.

    Eu era daquelas que não me importava tanto em detalhes, e ele obcecado. Terminou comigo depois que descobriu que eu fiquei com um cara dois anos antes de começar a namorar com ele…

    Até hoje penso que foi imbecil, mas depois do texto entendi!

    Tks!

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