Movie Review #8 – “Os Mercenários”

O cinema é, se formos pensar bem, uma máquina de realizar sonhos. Assim como uma lâmpada mágica ou um anel de Lanterna Verde, ele tem a capacidade de permitir que vejamos diante de nossos olhos coisas que habitavam apenas as nossas imaginações, os cantos mais profundos das nossas mentes, e que nós possivelmente nunca enxergaríamos no mundo real. No cinema nós chegamos mais cedo à lua, no cinema nós fizemos contato com civilizações de outros planetas, no cinema nós descobrimos como seria a vida após a morte, no cinema nós vimos como seria Scarlett Johansson ruiva usando uma roupa de couro (e eu nunca poderei lhe agradecer o bastante por isso, Sr. John Favreau).

E se você foi um garoto na década de 80 possivelmente sempre imaginou que o filme de ação máximo, o auge do cinema cheio de som e de fúria, seria algo envolvendo Stallone, Schwarzenegger e Bruce Willis juntos. E haveria bombas, explosões, mortes, carne voando, piadinhas sendo lançadas e talvez, sim, talvez, um cara com uma roupa camuflada lançando um míssil com as próprias mãos. E se você era um desses garotos, meu amigo, eu posso dizer que, sem dúvidas, “Os Mercenários” realizou o seu sonho.

Primeiro pelo elenco, uma espécie de Dream Team da chutação de bundas, um  New York Cosmos da porradaria, uma seleção de 70 do badasserismo. Temos uma equipe de mercenários composta por Stallone, o Rambo; Dolph Lundgren, o Ivan Drago dançarino; Jet Li, o chinês que voa pendurado em cordas; Jason Statham, o cara que trouxe a insanidade de volta ao cinema de ação com “Adrenalina” e “Carga Explosiva”; Terry Crews, o pai do Chris (e também o Latrell de “As Branquelas”); e Randy Couture, que eu tive que procurar no Google, mas que parece ser bem mau também. E onde eles se encontram? Na garagem do Mickey Rourke. E pra quem eles trabalham? Para o Bruce Willis. E com quem eles disputaram esse trabalho? Com a equipe do Arnold Schwarzenegger. E na missão eles vão enfrentar quem? Steve Austin, Gary Daniels e o vilão máximo interpretado por Eric Roberts. É, eu sei, este foi o parágrafo mais violento que eu já escrevi na minha vida e meu teclado está agora manchado de sangue. Vou limpar essa bagunça e já volto.

Bem, como eu estava dizendo, mais do que o elenco épico, do roteiro que faz com que “A Origem” pareça uma redação com o tema “minhas férias no furgão que cai em slow motion”, ou das cenas de ação com o sangue mais falso que eu já vi desde que dirigia curtas na faculdade, “Os Mercenários” se torna uma das grandes estréias do ano por resgatar uma tradição do cinema de ação que parecia perdida desde o começo dos anos 90, salvo raras exceções: a de não se levar a sério. Porque mais do que um filme violento, um filme acerebrado ou um filme simples, ele é um filme…divertido. Sim, muito divertido.

Divertido pela metralhadora de referências e piadas internas que são disparadas a cada segundo na direção do espectador (a cena inicial é brilhante, a cena da igreja é épica e quando Dolph Lundgren olha para Jet Li e diz “bring it on, Happy Feet” você sabe que cada centavo do seu ingresso valeu à pena); divertido pela interação entre os atores, que conseguem ter atuações que são ao mesmo tempo canastronas e geniais (se Dolph Lundgren não garantir seu Oscar com esse filme a Academia terá falhado miseravelmente) e divertido pelo total descompromisso com qualquer nível de coerência, lógica ou bom-senso. Esqueça Jason Bourne, esqueça o novo 007. Aqui não nos importamos com detalhes, aqui fazemos as coisas só pelo lulz e nosso roteiro pode ter tantos buracos quanto os corpos dos vilões ao final do filme. Mas não porque vamos na onda “massa véio” e sim porque é assim que se fazia nos bons anos 80.

Isso é “Os Mercenários”. Um filme de ação que cumpre exatamente o que promete. Um evento cinematográfico épico, que provavelmente só será compreendido adequadamente daqui a duas ou três gerações. Uma história que envolve caras lançando mísseis com as mãos. Um sonho que se realiza.

E antes que eu me esqueça, obrigado novamente, Sr. Favreau.

[Atualizado: clique aqui para ver o sensacional pôster com a contagem de mortos anterior de cada um dos atores]

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12 Comentários

Arquivado em crise de meia meia idade, Movie Review

12 Respostas para “Movie Review #8 – “Os Mercenários”

  1. Josy

    Jason Statham é a melhor parte do filme, com certeza. Não considero que o Schwarzenegger e o Bruce Willis estejam envolvidos na trama, eu pisquei no segundo em que eles aparecem e não vi mais os dois no filme. Muitas coisas não fizeram sentido, mas ok, já entendi que muitas críticas boas a respeito do filme estão baseadas justamente nisso. E claro, quando saí do cinema não comentei nada sobre o filme, já que como você pode notar, não foi exatamente um sonho realizado pra mim… mas a cena do Jason Statham na quadra de basquete, sensacional não? rs

    Ah, sim… boas piadas, tenho que concordar com isso.

  2. Marília N.

    Os Mercenários trata-se simplesmente de um pastiche de um gênero já anacrônico. E nesse momento o Terry Crews entra e metralha o crítico babaca e sem alma. Porque se um sujeito leva esse filme a sério e não consegue se divertir, não tem alma. No mais, é o filme do ano. E quando Schwarzão entra na igreja, só posso dizer que é emocionante. Assim como todas aquelas explosões são poéticas. As piadas são o máximo. E claro, Eric Roberts. Vou parar por aqui, mas eu poderia falar sobre essa pérola cinematográfica o dia inteiro e ainda não seria o suficient.

  3. Ainda não vi o filme (mereço morrer?), mas seu terceiro parágrafo me deu a exata dimensão da ideia. (Principalmente quando você diz “Dream Team da chutação de bundas, um New York Cosmos da porradaria, uma seleção de 70 do badasserismo”. E é sempre bom lembrar que o Terry Crews é o pai do Chris e participou de As Branquelas).

    O Stallone e Dolph Lundgreen repetem a luta que fizeram em Rocky IV? (Era o meu favorito da série Rocky, quando eu tinha uns 10 anos. E Rocky e De Volta para o Futuro são filmes que marcaram minha infância… Se tivesse o Michael J. Fox dirigindo um DeLorean nessa película, aí sim era um sonho se realizando)

    • João Baldi Jr.

      Para evitar falsas expectativas já explico que ocorre apenas uma porradinha softcore, nada tão épico. Mesmo porque acho que nada conseguiria ser tão épico quanto aquela luta, a não ser…não sei…aquela luta, com sabres de luz, montados em dinossauros, dentro de um vulcão em chamas num país invadido por romulanos enquanto a Federação prepara uma defesa e Scarlett Johasson caminha de biquíni carregando a plaquinha que informa os rounds.

      É, isso poderia servir.

      • João Baldi Jr.

        Esclarecimento: quando eu disse “vulcão em chamas” eu não estava tentando dizer “vulcão em erupção”, ok? Eu realmente estava imaginando um vulcão pegando fogo.

        • Marília N.

          Eu me empolguei de verdade, mas também não supera a fantástica luta do Gorn vs Cap. Kirk. O duelo mais épico já visto.

  4. tg

    daí tem sempre um babaca pra observar: “o filme estreou numa sexta-feira 13, hem?!”; ou que “um filme não pode ser de ação máxima sem Van Damme e Chuck Norris”. Mas reunir todos aqueles egos numa só película já deve ter dado um trabalhão pros produtores, né não?

    • Ana

      Aí, João, comentário de um amigo o Randy Couture:
      ” Esse Randy Couture é um lutador da Elite do Vale Tudo Internacional. Já assisti lutas dele e é um excelente lutador já tendo sido campeão do mundo.
      No filme, também tem a presença do Rodrigo “Minotauro”, brasileiro e grande ídolo e campeão do vale-tudo Internacional.”

  5. Ronaldinho

    João, meu nobre padawan, duas coisas:
    1) badasserismo (?) essa foi show!
    2) Só faltou o Van Damme e o Danny Trejo (que nem sei se está morto ou vivo) no filme cara. Aí sim seria maxmegaultrasplashhard fight! Mais que a propaganda do PCO!
    3) O sonho se realizou! Anos 80 rules! Podia também incluir o Kevin Bacon e o saudoso Cris Penn dançando!

  6. Luis

    Adorei o filme, é um sonho juvenil realizado… Só senti que faltou o Van Damme e o Steve Seagal, mas seria pedir demais.

    Abraços!

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