Problemas práticos do romantismo teórico – XIII

Uma questão complexa na existência humana é a de saber quando persistir e quando desistir em relação a alguma coisa. Seja uma jogada no futebol de segunda, seja um projeto pessoal, seja uma entrada pra um show, seja um emprego, seja uma idéia genial que você teve pra construir camas beliche de casal para praticantes de swing, existe sempre uma zona acinzentada e muito pouco nítida que separa a persistência legítima e que vai, mais cedo ou mais tarde, te levar ao sucesso (ou ao menos a uma sensação de que sim, você fez tudo que podia fazer) e a insistência idiota e que vai te levar apenas a sensações relacionadas à vergonha, degradação e possivelmente uma certa vontade de não sair de casa por uns dias (camas beliche pra casal? sério mesmo?). E claro, quando se trata da sua vida pessoal essa zona cinza e pouco nítida pode acabar se tornando também desfocada, mal-iluminada e coberta por um fungo que você não sabe identificar mas acha meio nojento.

Suponha que você esteja afim de uma garota. Bem afim. E ela é interessante, bonita e sim, ela parece com a Emma Stone quando sorri. E você conhece a garota e a chama pra sair. E ela diz não. Bem, um não pode ter vários motivos, desde…sei lá…ter que resolver um problema de trabalho até já ter outra coisa planejada para aquele dia, ou mesmo ter uma identidade secreta como combatente do crime. Então você chama pra sair de novo. E ela diz não. E de novo. E de novo. E bem, em qual “não” você deve parar? Porque afinal, sempre tem aquela coisa de certas garotas exigirem mais ou menos persistência, de ser o momento correto ou não de abordar e pode ser apenas isso, não? Timing? Mas ao mesmo tempo pode ser o óbvio: a forma dela de dizer “cara, não vai rolar, sério” sem necessariamente ter que te encontrar e dizer “cara, não vai rolar, sério”. E aí você não está sendo o romântico persistente e sim o cara que ela chama na academia de “aquele babaca que não se toca”. Mas vamos a outro exemplo.

Você namora uma garota há 5 anos. E é ótimo. Quer dizer, era ótimo. O que começou tão legal quanto um passeio pela Disney (incluindo até uma fantasia de Jessica Rabbit) rapidamente se tornou algo parecido com aquele dia em que você ficou quatro horas trancado dentro do Uno do seu pai na Terra Encantada, com brigas, discussões, um clima insuportável e uma constante tensão pra ver quem vai sacanear quem primeiro. Vocês já tentaram conversar, viajar, dar um tempo e possivelmente vão começar em breve a pensar em terapias alternativas como aulas de boxe ou quebrar pratos em casa. Mas será que vale a pena insistir? Afinal, não parece mais estar funcionando, certo? Ou isso é um teste pro relacionamento e saindo dessa vocês vão conseguir ficar melhor do que antes? O quanto você deve insistir nisso?

E muitas vezes o que vai passar pela sua mente é o mesmo que passa pela cabeça de um cara que tomou pau no vestibular de medicina 3 vezes: por quanto tempo e por quantas vezes insistir. Será que eu quero mesmo ser médico? (sendo que nesse caso ser médico é ficar com aquela garota, manter esse namoro, insistir naquela menina do bar). Será que eu não estou apenas insistindo por insistir, ou por pressão, ou por alguma outra razão que não é o tipo de razão certa pra isso? Será que eu não estou perdendo agora o tempo que eu poderia gastar com algo mais recompensador, mais interessante ou pelo menos diferente? Ou será que as grandes coisas são mesmo complicadas e exigem esforço pra que sejam conquistadas? Mas peraí, a garota do bar é uma grande coisa? Como assim, certo?

E aí, como em tudo nas relações pessoais (e é por isso que elas são complexas), você vai depender da questão de sentir, de perceber, de notar. Da mesma forma que um cara precisa saber quando ele deve desistir do vestibular de medicina pra ser um grande arquiteto ou ao menos um jornalista feliz e quando continuar insistindo porque ter o próprio jaleco vai fazer todo o processo ter valido a pena, você vai ter que saber diferenciar qual situação já perdeu o sentido, com qual garota não vale a pena gastar o seu tempo e qual é aquele relacionamento no qual você deve apostar até a última ficha e por qual beijo vale a pena esperar um pouco mais de tempo (ou muito mais tempo, dependendo do caso e da sua paciência). Mas claro, esteja sempre preparado para estar total e completamente enganado. Garotas precisam de caras assim pra ter mais assunto quando vão pra academia.

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12 Comentários

Arquivado em Crônicas, crise de meia meia idade, Desocupações, romantismo desperdiçado, teorias, Vida Pessoal

12 Respostas para “Problemas práticos do romantismo teórico – XIII

  1. Marina

    Tem um cara que tá com uns 6 meses que insiste em querer sair comigo, eu já disse ‘não’ de todas as maneiras possíveis, mas ele disse que não é insistente, mas persistente… E ele se tornou mesmo “aquele babaca que não se toca”.

    Tem uma amiga minha que já descobriu várias sacanagens que o namorado dela aprontou e mesmo assim ela insiste em insistir nessa relação, é “a corna que não se toca”

    E eu tenho amiga que desde 2005 insiste em fazer vestibular pra medicina e não passa, é o que chamo de persistir na persistência!

  2. Pouts, e eu achando que a minha idéia para beliches de casal era original…

    Eu sigo a regra dos “3 nãos”. Depois que eu tomo o 3º não da garota eu desisto… o 1º “não” é o aceitável, você tá ali investindo e poderia ser que rolasse um “sim”. O 2º “não” é pq vc não quer parecer desiteressado, e a garota pode ter usado o 1º não para ver o seu interesse. E o 3º “não” é só pra ter certeza mesmo! hehehe

  3. julianna

    Parece uma questão de referencial: quando vc está sendo rejeitado, então vc não se toca e está sendo teimoso. Quando é uma questão de lutar por um objetivo na vida, como seguir uma profissão, é persistência legítima. Sem querer ser simplista, mas acho que ajuda quando você acende a luz no meio desse cinza todo, e olha pro mundo lá fora. A relação é mesmo tão importante assim? Está realmente te trazendo benefícios que compensem as perdas? E se você for um pouquinho no mundo lá fora, aquilo vai mesmo te fazer falta? E assim por diante…

  4. Marília

    E claro, tem aqueles casos onde você acha que não tem jeito. Não é nem pra tentar quanto mais insistir e daí você descobre que era até mais fácil do que você imaginava. (Ficou meio auto-ajuda isso, credo)

    • João Baldi Jr.

      Não conhecia esse seu lado Roberto Shinyashiki, fiquei impressionado agora.
      (e sim, realmente acontece isso às vezes. o chato é quando você só fica sabendo que era fácil coisa de uns…sei lá…5 anos depois, sabe?)

  5. eu lembrei da cena em que o Mr. Collins propõe casamento à Lizzie em Pride&Prejudice. muito a cara disso.

    e depois, relacionamentos empacados não vão pra frente. conheço vários casos de gente que namorava há anos, estavam tristemente presos ao relacionamento, decidiram terminar, 3 meses depois ambos estavam casados com outras pessoas e felizes. vai entender.

    [comentário comprido, que tédio]

  6. alice

    só que é mais fácil identificar as razões pra vc insistir em (ou desistir de) uma carreira (listinha de pros e cons, com resultado razoavelmente previsível) do que numa pessoa (nunca se sabe no que vai dar!)

    ok, dá pra desconfiar se aquele namoro de 2 anos irritante está indo pro brejo, mas dificilmente dá pra saber se aquele cara daria um bom namorado só por umas cantadas focadas na sua aparência (#sualinda)

  7. N.P

    E como saber se o cara(ou a cara, né) está interessado ou não? Pra mim é o pior de todos. O resto ainda consigo ver(até agora). Todos deveriam vir com plaquinhas do tipo ” uma ficada”, “casaria”, “morra, desgraça”.
    A coisa do desistir é um problema pq quando você não sabe no que pode dar, tudo vira um sim ou um não.
    Ai, que troço difícil.

  8. laura

    Essa zona acinzentada tá muito grande!!!
    Não to conseguindo enxergar nadaa!!!

  9. Henrique

    Aconteceu comigo (conosco): nós pensamos, eu entendi que a gente podia tentar mais uma vez. Ela, pelo contrário. Acabou e até hoje, aproximadamente dois meses depois, eu ainda penso que a gente tinha chance. Às vezes oscilo, penso que realmente o namoro estava insustentável. Mas isso é gradativo, então, com o tempo, acho que pensarei que realmente não tinha solução. Não que seja verdade, mas é onde o fluxo vai levar.
    A vida é essa. São tantas incertezas, às vezes tenho a impressão de que se a gente tiver uma noção aproximada do quanto não sabemos nada, teremos mais liberade para insistir ou deixar pra lá.

  10. Mateus

    incrível, texto muito bom mesmo :D !

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