3 grandes lições sobre prestação de serviços que o Rio de Janeiro pode ensinar ao resto do Brasil

Paciência é uma virtude: Vivemos em um mundo muito apressado. As pessoas correm nas ruas, as pessoas correm com seus carros, as pessoas correm na escada rolante do metrô, as pessoas correm nos escritórios e se você for distraído as pessoas correm com a sua mochila enquanto você volta do futebol no Leme. Em suma, um mundo muito apressado, como eu disse. Exatamente por isso são extremamente valiosas as boas lições sobre tranqüilidade e paciência que, por exemplo, os garçons cariocas tem a nos ensinar.

Tranqüilidade e paciência porque eles não tem pressa pra te atender, já que sabem que todo grande relacionamento é construído com calma. Isso faz com que, tal qual num enlace amoroso, durante um atendimento de restaurante carioca você passe por todas aquelas etapas que vão desde o primeiro contato visual, o flerte, a tentativa de chamar a atenção, até a troca de algumas palavras, o processo de conquista, chegando por fim, após cerca de 50 minutos, a receber seu prato na mesa. O que, ainda que possivelmente vá matar alguns de fome e fazer com que outros voltem atrasados pro trabalho, não deixa de ter a sua beleza e de servir de lição nestes tempos impacientes em que vivemos.

O pessoal é sempre mais importante que o profissional: Um dos grandes males que afligem a sociedade capitalista industrial dos dias de hoje e que gera níveis alarmantes de stress em todas as categorias profissionais, desde altos executivos de grandes companhias até vendedores de pequenas empresas, é a priorização do trabalho em detrimento da vida pessoal. Jovens abdicam de relacionamentos para buscar oportunidades de trabalho, mulheres deixam de ter filhos para se dedicar às suas carreiras, homens na casa dos 40 se sentem bem sucedidos, porém solitários.

Mas no Rio de Janeiro os prestadores de serviço sabem sempre priorizar o que é realmente importante: sua vida pessoal. Param de te atender pra conversar com amigos, atrasam filas de caixa para falar ao celular, dedicam ao que você está pedindo menos atenção do que dedicam ao que está tocando no rádio e assistem TV enquanto dirigem o táxi. Porque um cliente é apenas um cliente, algo que vai e vem. Mas um amigo, galera, um amigo é pra sempre.

Não se luta contra o fordismo (ou “customização é o caralho”): Experimente, num bar carioca comum, pedir qualquer tipo de alteração no cardápio. Sim, peça um molho branco numa massa com molho à bolonhesa, peça queijo ou bacon numa batata frita comum, peça pra que sua carne venha bem passada e não ao ponto*. A primeira reação do garçom será de incredulidade, como se você tivesse pedido que ele, não sei,  dançasse uma polca nu em cima da sua mesa. Então peça de novo. Repare como a expressão passa da desconfiança para a hostilidade. Então insista e receba todo aquele carinho que só o típico garçom carioca sabe oferecer, como um “rapaz, não tá me ouvindo? é sem queijo. quer pedir ou não quer?”

Isso porque da mesma forma que “romance é romance, amor é amor e o lance é o lance”, o cardápio é o cardápio, e em boa parte dos restaurantes e bares cariocas ele é tão passível de alteração por parte dos clientes na composição dos pratos quanto é na escolha da capa e na definição da tipografia, mostrando uma elogiável fidelidade dos garçons e cozinheiros ao projeto culinário do local, assim como uma clara intenção de nos ensinar o estoicismo e o desapego, já que é um daqueles casos em que você precisa de “sabedoria para aceitar o que você não pode mudar” e coisas parecidas.

Ah, e não diga que aceita pagar a mais pelo queijo na batata. A questão não é dinheiro, a questão são os princípios, amigo.

*No Rio o bem passado é o que conhecemos como ao ponto, o ao ponto é o que conhecemos como mal passado e caso você peça mal passado você recebe do cozinheiro uma faca para ir até a cozinha e matar na hora um bezerro de sua escolha que será imediatamente depositado no seu prato.

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33 Comentários

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33 Respostas para “3 grandes lições sobre prestação de serviços que o Rio de Janeiro pode ensinar ao resto do Brasil

  1. N.P

    Só não concordo com a última. E que história é essa da mal passada? Sacanagem, eu gosto.

  2. N.P

    Detalhe : ficou muito estranho essa frase ” sacanagem, eu gosto”.
    Eu quis dizer que gosto da carne mal passada dos restaurantes do RJ, ok?

    • João Baldi Jr.

      Ainda que “sacanagem, eu gosto” fosse resultar numa bela estampa de camisa pra usar em certas festas.

      E já explico preventivamente que eu também sou carioca, pra evitar outro “cataguasesgate” aqui no blog.

  3. É, nada como estar em um restaurante no RJ, com a sua família e o garçom começa a tirar os pratos e logo depois vem com a conta. Muito prestativo da parte dele, pq a gente não tinha pedido a conta e muito menos terminado de comer.

    E João, acho que vc poderia dedicar um post ao excelente serviço de transporte público do RJ e ainda no mesmo post citar como os motoristas em geral são educados e respeitam as leis de transisto!

    • João Baldi Jr.

      Eu nunca vou esquecer a primeira vez que peguei um ônibus no Rio depois que já tinha me mudado pra cá:

      Entrei num ônibus onde se lia “Rodoviária” e perguntei na porta “esse ônibus passa pela rodoviária?” (sim, eu sou inseguro assim com as coisas). O motorista virou e disse “não, não passa não”. Eu falei “mas tá escrito rodoviária aqui na frente”. Ele disse “sério que tá? puuutaquepariu…agora fodeu…”.

      True story.

    • Uma vez peguei o 175 tipo 1h da manhã. Eu não acreditava que fosse possível ir do Barra Shopping à praia de Botafogo em 12 minutos. Em pouco tempo o “175 de madrugada” se tornará uma atração para fãs de esportes radicais de todo o planeta. Já posso até ver um daqueles documentaristas franceses de barba malfeita e espírito de Renata Falzoni falando para a câmera, “Já pulei de pára-quedas no Iraque, atravessei o Canal da Mancha de pedalinho, desci as cataratas do Niágara num barril, mas nada foi mais emocionante que pegar o 175 de madrugada! Urrú!”

      • Esse 175 não é o ônibus da música do Gabriel, O Pensador?

      • alice

        sempre q puder evite a Amigos Unidos (todos esse azuis)

        e, joão, o pior não é saber o destino, mas o itinerário… já peguei um 592 (ou 3? 0u 1? não lembro) ali no jardim botânico onde dizia “leme”

        só esqueceram de dizer que antes ele dava um pulo lá na rocinha -_-

        • João Baldi Jr.

          E o engraçado é que “Amigos Unidos” passa uma coisa tão legal, não? Faz pensar que o motorista e o trocador são parceirões do dono, que é amigo do mecânico e tal. Mas nada disso.

          Os ônibus cariocas valorizam o metrô, é tudo que posso dizer.

  4. João, eu ri deveras com o texto. Eu acho que aqui na minha cidade em alguns bares existem alguns garçons tipicamente mal humorados. No entanto, eu até acho que sob certos aspectos o pessoal não alterar os pratos de acordo com a demanda ajuda a manter a qualidade do prato. Eu já fui em alguns lugares que eles inventaram de diversificar demais o cardápio e acabou que alguns dos pratos novos fora da especialidade acabaram não sendo tão bons.

  5. Ana

    Só fui 1 vez pro RJ. Fui tão maltratada que quase chorei. Mas depois eu entendi, é assim mesmo. As pessoas nas ruas esbarram em vc e não pedem desculpa, ninguém fala por favor ou obrigada ao pedir alguma coisa num restaurante. É cultura, sei lá.
    Agora, concordei muito com o 1° parágrafo. Principalmente porque enquanto lia o seu texto, uma colega de trabalho GRITAVA ao telefone. Paciência é uma virtude.

    • João Baldi Jr.

      Eu não acho que seja exatamente um problema com as pessoas, vamos dizer assim. Eu moro aqui desde junho do ano passado e acho as pessoas ótimas, sério mesmo. Na maior parte elas são tranquilas, atenciosas, gentis e tudo mais. Até que você pede que elas te tragam comida ou consertem o seu cabo da NET. Aí elas apenas não se importam contigo. Ou seja, não é pessoal, é só um estilo de prestação de serviços totalmente questionável.

  6. Marília N.

    A arte de como ser ignorado por garçons. Acho que tem pessoas com um talento especial pra atrair eles até sua mesa.
    (Pushing Daisies era bem legal)

  7. hahahaha, muito bom! preciso como sempre! mas não só os garçons cariocas que agem assim… são?? tô tão acostumada com isso que pensei que garçons all over the world fossem desse jeito!

  8. ana tereza

    e o lance é o lance, mas com queijo fica bem melhor. hahaha
    destacando que no rio o atendimento para turistas também é assim…gentileza total! hahahaha

  9. alice

    e quando aceitam q vc personalize seu prato, o sujeito simplesmente não ENTENDE e traz algo diferente tanto do cardápio quanto do seu pedido

    mas acho q oq mais me irrita é essa coisa dos balconistas ficarem na maior galinhagem, com risadinhas, charminhos, cócegas e até tapas enquanto vc aguarda pra ser atendido por longos minutos (e nem OUSE reclamar, pq te olham como se vc fosse contra o amor e a amizade dos funcionários… longe de mim)

  10. No Rio:
    Jenny – Senhor, sabe me dizer se o onibus “y” passa aqui?
    Senhor random- Até passa mas o motorista não gosta de parar aqui não viu, melhor voce ir pegar na Avenida.

    Os motoristas no Rio tem muita independencia, isso sim é melhoria das condiçoes da classe trabalhadora, um exemplo!

    Ah e sobre a rodoviaria, outra lição, é bom pro turista sacar que a cidade mais turistica do Brasil não vai fazer rodoviária bonita não, em uma localizaçao agradavel menos ainda, isso é Brasil meu amigo. Rodoviária do Rio, um tapa na cara do turista deslumbrado. :D

  11. E uma coisa é fato, depois de conhecer, morar, ou ser mineiro chegar no Rio são dois pés no peito quando o assunto é simpátia.
    Tá certo que uma vez em Lavras Novas eu desisti de tres restaurantes porque a comida nunca vinha e os garçons (todos gente boa pois eram mineiros) só diziam “só mais um minutinho” e eu acostumada com a sinceridade cortante de Sao Paulo “é o seguinte mano, vai demorar pra caralho”, perdi a paciencia e fui comer na padaria, que tambem demorou. :D Mas tudo bem, todo mundo é simpatico. E em Coimbra, veja bem, nem tem onibus então a vida é linda hahaha

  12. ah, aqui resolvo tudo com um bom dia, boa tarde, boa noite. as pessoas costumam se desarmar com gentilezas. mas, sei lá. vai ver no rio os garçons e motoristas de ônibus sejam meio imunes a isso. vai saber.

    [poxa! gostava tanto de pushing daisies.]

  13. laura

    Eu realmente fiquei muito assustada com os garçons do Rio qdo lá estive pela primeira vez. Achei que fosse algo comigo…os garçons da minha cidade são tão gentis, em Minas..rsss.
    Depois percebi que até os turistas pagando em dólar, bebendo horrores, estavam quase implorando por atendimento. E os garçons sempre indiferentes…
    o que eles gostam mesmo é de ficar na praia, tomar uma cerveja nos botecos com os amigos, um pagode, um samba…mas quem não gosta né…trabalhar pra quê???

    Os motoristas de onibus são realmente malucos, insanos, não sei o que se passa com eles.

  14. Proponho um embate de titãs entre prestadores de serviço do RJ e ES,
    seria um FlaxFlu da arte de ignorar completamente as pessoas dispostas a pagar para serem atendidas.

    cara, eu gostava tanto de pushing daisies…

  15. Antonio Marcos Pantoja de Azevedo

    Ridículo. Estou cansado de fazer as coisas citadas no post, e ser bem atendido em todo o Rio de Janeiro. Coisa sem pé nem cabeça isso.

  16. Tava demorando aparecer um maluco…

    Quando eu peguei um táxi num domingo à tarde pra fazer um concurso no Rio e o motorista prestou muito mais atenção na TV do carro, que passava Turma do Didi, do que no trânsito, eu temi pela minha vida.

  17. Luciana

    Estive no Rio em julho.
    Peguei um táxi de Lins até o Centro, e o taxista achou que seria interessante passar no DVD “tropa de elite” pra me entreter. Atendeu o nextel no viva voz, dizendo pro amigo que não iria no pagode naquela noite porque a “nêga me pegou com outra na cama, mermão, to comportado agora”. A Polícia Pacificadora emparelhou com o táxi e eles ficaram me dando tchauzinho.
    Informalidades cariocas…

  18. Leandro

    Estou morando no Rio desde agosto e o tratamento que venho recebendo de vendedores e garçons, deixa muito a desejar.

    Fui comprar um tênis outro dia e o vendedor fechou a cara quando eu pedi pra ele pegar um número maior, quase me mandou comprar em outra loja. hehe

  19. serei a chata que comenta OUN ADOOOORO PUSHING DAISIES OUN

    eu so fui ao rio de janeiro uma vez.
    e minhas lembranças sao:
    1 – a cerveja caseira do pai do anfitrião (bom)
    2 – o cheiro de xixi da lapa (ruim)
    3 – gente com muita coxa e muita bunda (estranho)
    4 – mendigo cagando na rua (engraçado)
    5 – por mais que falem do calor do rio de janeiro, os tres dias que passei ai CHOVERAM.

    fim.

  20. D.S.O

    Li os comentarios mas nao li o texto.
    Seu deboche ficou chato e a escrita pedante e pior do que os textos do curso de Direito

  21. alice

    essa ideia de passar tropa de elite pro turista recem-chegado é tão boa quanto exibir, sei lá, titanic na barca rio-niteroi.

    btw, voltei aqui pq hoje saiu na veja um artigo falando super bem do rio, mas citando, como um dos 10 únicos problemas listados, o atendimento ruim dos garçons, motoristas de ônibus e taxistas

    esse sábado mesmo eu pedi pro taxista fazer um caminho e ele pegou outro, assim, sem me consultar nem nada… foi logo afirmando q por ali era melhor. senti vontade de abrir a porta e rolar pro lado de fora, como num filme de ação, mas n tinha mais jeito mesmo…

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