Problemas práticos do romantismo teórico – XIV

Todos nós gostamos de elogios, claro. Ainda que alguns saibam reagir a eles com graça e sutileza e outros reajam com uma falta de tato que te faz pensar “mas por que raios eu elogiei esta besta?” (vocês não podem ver, mas estou digitando com meu braço levantado agora), todos nós gostamos de ouvir palavras de incentivo, receber frases de aprovação e possivelmente ganhar um tapinha no ombro (ou na bunda, isso depende da pessoa) como sinal de que sim, essa foi boa, nos superamos e está tudo bem agora.

Mas ao mesmo tempo que temos toda essa simpatia pelas palavras positivas, pelo retorno amigável diante de algo que deu certo, também temos, várias vezes, dificuldade pra aceitar a opinião contrária, a réplica não tão legal, aquele comentário de que não, não deu certo, saiu tudo uma merda, você é um idiota e estamos profundamente impressionados que você consiga mascar chiclete e caminhar sem morrer sufocado, seu imbecil. Mas mesmo que doa, mesmo que as vezes magoe, temos que entender que em todos os aspectos da nossa vida (e principalmente em nossa vida pessoal) nós temos muito a aprender com ele: o feedback negativo.

Isso porque o feedback negativo é uma das melhores formas de conseguir um retrato claro dos nossos pontos de melhoria. Elogios são bons? Claro que são. Mas muitas vezes são falsos, tem intenções ocultas e mesmo quando feitos de forma sincera e com a melhor das intenções, são quase sempre vagos e pouco explícitos, ao contrário do comentário negativo, que mesmo mal-intencionado sempre toca em algum ponto que, ao menos para a pessoa que o faz, tem alguma nuance de verdade. Uma boa forma de medir isso é, por exemplo, comparar o comentário positivo da garota com quem você ficou ontem com o comentário negativo da sua ex com quem você namorou por meses. Enquanto de um “ah, ele era engraçado…divertidinho” tudo que você tira é que você é engraçado (e divertidinho), de um “aquele filho da puta egoísta, frio e auto-centrado com quem eu gastei meio ano da minha maldita vida e que eu espero que morra sufocado no meio de um monte daquelas revistas em quadrinhos de merda que ele tem” você pode tirar insights como “preciso dar mais atenção à minha futura parceira”, “preciso dar menos atenção aos meus hobbies” e “não devo mais tentar falar com minhas ex-namoradas”, entre outros.

Mas mesmo em situações mais imediatas, o feedback negativo também é útil. Recebeu um fora? Tente saber o porquê, extraia informações, consiga aí subsídios para evitar ou ao menos minimizar o próximo fora. Se a garota tiver te descartado porque você estava com mau-hálito devido aquele sanduíche de cebola no Subway, por exemplo, um simples aviso dela pode te levar a uma solução rápida do problema e a uma noite de final exitoso, enquanto que persistir em sucessivas abordagens resultaria apenas em vergonha, humilhação e desconforto, além de apelidos simpáticos como “boca-de-urubu” ou “gambá invertido”. (Ainda que, claro, se isso acontecer com o seu amigo seja muito engraçado terminar a noite chamando o cara de gambá-invertido. True story)

Também temos que lembrar que, claro, o feedback depende da outra parte e isso costuma apresentar alguns problemas, que vão desde a garota não ter paciência para oferecer uma opinião coesa (“sai daqui, porra…”) até oferecer insights pouco úteis (“você é um merda”) ou apontar pontos de melhoria cuja solução é demasiado complexa (“você é feio, pobre e mora longe, manolo”), o que realmente torna difícil o processo de tirar conclusões produtivas da situação, além de significar que ok, você deve mesmo parar de ir nesse bar, amigão.

Ou seja, é um processo complexo? Sim, é. Provavelmente desagradável? Claro. Doloroso em certos momentos? Pode apostar. Potencialmente constrangedor de formas que você mal pode imaginar? Não tenha dúvidas disso. Mas o feedback negativo é realmente uma das melhores formas de aprender mais sobre aqueles aspectos de você mesmo que você gostaria de poder ignorar mas precisa entender pra se tornar um cara melhor. E não, não vou mencionar o nome do gambá-invertido, isso seria sacanagem.

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9 Comentários

Arquivado em romantismo desperdiçado, teorias, Vida Pessoal

9 Respostas para “Problemas práticos do romantismo teórico – XIV

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  2. alice

    ahaha mto bom! “vc é feio, pobre e mora mal” me lembrou “hoje não, márcio” – às vezes a objetividade dói

    conselhos prévios (a comprar alguma coisa cafona, cortar uma franja, investir dinheiro em linhas telefônicas,…) são até fáceis de lidar (tato nunca é dispensável), mas qd se demanda q a pessoa estude mais, emagreça, arrume um emprego, etc. é difícil tanto pra qm faz a crítica (por mais delicado q seja, magoa) qt pra qm recebe (pq são coisas difíceis de realizar)

  3. Acho que só precisa ter um certo cuidado na hora do feedback negativo. A pessoa pode não ser tão compreensiva e simplesmente só te levar a mal pelo excesso de sinceridade. True story.

  4. Tá aí um tipo de problema que não acaba após o casamento (dependendo do caso, e felizmente não é o meu, talvez seja um problema que só aumente após o casamento).

  5. o problema é todo mundo se especializa em dar feedback negativo, mas não sabe ouvir, néah. o/

  6. Ana Spoladore

    Eu li “preciso dar menos atenção aos meus hobbits”. É, seria um problema bem maior se fosse este o caso.

  7. Num relacionamento, o feedback (seja positivo ou negativo) é sempre “viciado” – o mesmo cara que era “divertido” no começo do namoro pode virar um “piadista mala” depois de um tempo…

    Aí fica difícil confiar.

    (já comentei que adoro o título “problemas práticos do romantismo teórico”? tipo da ideia que eu queria ter tido?)

    • Verdade. Aliás, todos esses títulos eu acho geniais e pretendo um dia roubar na cara dura. Depois quando eu virar o Chuck Palahniuk de saias você me processa e ganha uma grana. Win-win (?!)

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