Pequenos diários cariocas

(Esse texto foi escrito no meio desse ano e acabou não sendo postado na época, mas  voltou a fazer um certo sentido nesses últimos dias)

Muitas vezes é complicado entender em qual Rio você mora, ainda mais se você tem pouca familiaridade com sensações conflitantes e pouco tempo de experiência nessa coisa de ser carioca. De um lado tem o Rio das manchetes dos jornais de menos de um real, das reportagens da Record e da Globo e dos pesadelos da sua mãe: pobreza, morteiros, tráfico, gente derrubando helicópteros “just for the lulz”, bandidos mirins, policiais que se vêem um cadáver aproveitam pra roubar os tênis do morto e aquele clima bacana de Faixa de Gaza em várias esquinas. Do outro tem o Rio da secretaria de turismo, das garotas de biquíni, do camarão mais barato do que em Minas, das opções de cultura, da Lapa, das bandinhas legais e dos sambas com feijoada*.

E qual Rio é o de verdade? O engraçado (ou assustador) é que os dois são e ainda ficam tecnicamente colados. Do condomínio de luxo você vê, em toda sua glória de ocupação nipônica e corajosa de espaços, uma gigantesca favela dotada de mecanismos de defesa que impressionariam Reagan, Bush e qualquer outro defensor de programas militares de alto custo. Na Lapa, reduto boêmio da rapaziadinha antenada e cult mas também da galerinha totalmente “massa véi” da noite carioca, você também consegue encontrar de quando em vez alguém armado ou ver um assalto acontecendo, além de poder ver uma boca de fumo funcionando em frente a um condomínio de luxo, o que é, no mínimo, uma experiência sociológica e pode se tornar uma experiência de cunho diferente se você andar na rua do lado errado. Cada bairro de luxo tem seu próprio morro, cada pitboy tem sua contraparte trabalhadora, cada má notícia tem a sua boa notícia, cada tiroteio tem seu bom show, tudo isso num espaço e tempo muito pequeno.

Claro, não vou fazer aquele papel de Luciano Huck escandalizado porque perdeu o rolex no trânsito (“É uma vergonha! E me seguindo no twitter vocês vão ganhar camisas!”) e culpar a violência urbana, a insensibilidade urbana e as bandas covers de Legião Urbana, mas a concentração de eventos e notícias é esquisita pra alguém que veio de uma cidade menor. Ano passado aconteceu o Festival Internacional de Cinema. Cool, legal, divertido, ver um filme do Quentin Tarantino antes de todo mundo é legal, bom morar no Rio. Poucas semanas depois teve tiroteio, chacinas e helicópteros sendo derrubados. Nada legal, esquisito, assustador, estar em um filme do Quentin Tarantino não é uma boa, quero voltar pra Minas. É mais ou menos esse o tipo de situação em que você se encontra em alguns momentos.

E o que fazer? Não acho que isso do contraste faça parte do “charme do Rio” e muito menos que seja exclusividade da “Cidade Maravilhosa”, já que toda cidade grande parece ser assim e nem vou dizer que faz sentido acreditar que essas coisas funcionem numa troca, como dizem (“ok, você tem a praia, mas em troca tolere esses tiroteios, certo, Junior?”). Mas não, esse post não é pra resolver os problemas urbanos do Rio, discutir as Olimpíadas ou reclamar da prefeitura, nada disso, mesmo porque eu acho que ainda não tenho base pra nenhuma análise mais coerente da situação.

É apenas para dizer que a minha relação com a cidade sem sombra de dúvidas evoluiu após quase um ano: se antes era um “caso” agora se tornou um namoro com uma garota  que ok, é linda, inteligente e engraçada, mas é meio bipolar e tem um leve histórico de psicose assassina nos relacionamentos anteriores. Mas eu acho que estou me acostumando – com a cidade, não com garotas psicóticas, elas sempre tem um às (ou uma faca) na manga – e cada vez mais gostando daqui. Ainda mais porque esse namoro possivelmente vai se tornar um casamento e bem, é bom eu aprender a estar preparado pra lidar com a família da noiva. Torçam por mim.

*Esse asterisco é porque, dependendo do lugar em que você for comer, a feijoada também pode acabar incluída no campo da violência e do terror.

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12 Comentários

Arquivado em Crônicas, Vida Pessoal

12 Respostas para “Pequenos diários cariocas

  1. O bacana é morrar na Barra da Tijuca. O RJ inteiro explodindo, parecendo uma guerra, e aqui na Barra, vai tudo bem obrigado. Só o transito que fica infernal, mas para uma paulista o conceito de transito infernal são 3 horas para andar 1Km e não essa velocidade de passeata que estava ontem para sair da Barra.
    O RJ tinha tudo para ser um daqueles lugares que você sente inveja de quem mora lá, mas resolveu entrar para o padrão “eu tenho dó de quem mora lá”.

  2. Só fui pro Rio uma vez e não é meu lugar favorito on earth, confesso, mas ainda quero mudar esse conceito, afinal dois dias pode ser muito pouco pra se amar uma cidade.
    Só lembro que passei muito calor, que os onibus dao voltas loucas, que pra subir no Cristo é caro pra caramba, lembro de muitas jacas, MUITAS, eu passando mal no museu de belas artes pq estava sem ar condicionado porem entrada livre, eu me achando sortuda mas no fim passando mal, sendo acudida pelo segurança, lembro tb que eu não vi o Chico Buarque bah, tudo isso somado a bronca que paulista tem do Rio, por amar a sua cidade mas sempre ter que ouvir como todo mundo prefere o Rio, pq Copacabana meus amigos não fica descendo a Augusta com a Paulista, logo mermão sua cidade fede. ( e pior que fede mesmo, mas eu amo São Paulo msm assim)
    enfim, foco, foco, foco….um dia quero mudar minha visao sobre o Rio, mas acho que agora não seria o melhor momento. :/

  3. ah e
    “e culpar a violência urbana, a insensibilidade urbana e as bandas covers de Legião Urbana…”

    HAHAHAHAHAAHHA, morri.

    • morri também!

      Por mais que esse tipo de piada não seja novidade neste blog, eu ainda racho de rir como se fosse uma coisa inédita. Tipo ver um episódio de Chavez na tv, sabe?

  4. Bom, eu só precisei de uma semana pra me apaixonar pelo Rio e tal. E apesar de tudo espero voltar praí ainda, um monte de vezes. (A Lapa além de tudo tem o catador de latinhas que mais leva a sério o lance de street dance que eu já vi na vida. Sério, o cara dança pra caramba)

  5. eu nunca fui pro rio. mas, sei lá. essa bipolaridade tão acentuada da cidade não me atrai muito.

  6. fui pro rio, e olha, é uma enorme farsa tudo isso.. 90% do turismo do rio está baseado nessa bipolaridade.. as pessoas sobem ao cristo para ver favela, nao para ver o mar. Gringos acham legal estar numa zona em que o pobre e o rico, o feio e o maravilhoso se unem, se completam e se dependem duma maneira tão unica.
    O Rio é legal.. mas é calor demais pra mim…

    • joão baldi jr.

      Eu sempre fico chocado com a idéia das pessoas visitarem morros ou regiões pobres pra “fazer turismo”, é o tipo do conceito que apenas não faz sentido pra mim. Eu não vou pegar as minhas férias e viajar pra Faixa de Gaza pra ver gente explodindo ou derivados.

      • é. o turismo favela foi algo que nunca me desceu tambem.
        se voce quer conhecer o morro vá fazer algum projeto social, conheça os locais, faça parte da realidade.
        agora entrar em uma van e ficar tirando foto que nem um mongo é demais, favela não é zoologico.

  7. Eu na Lapa ano passado sendo abordado:

    – Fala, parceiro. Tu sabe onde compra um beque por aqui?

    – Nâo.

    – Mas eu sei. Eu tenho aqui pra tu. Vai?

  8. Laura

    Pois sim, o Rio tem tudo de bom e de ruim também. Metade da minha família é do Rio, a outra parte é de Minas. Desde criança sou apaixonada pelo Rio… Já vi um cara levando um tiro bem na minha frente em plena zona sul. Já passei dias ótimos na Lapa, em Grumari, na Lagoa…Nunca fui assaltada na vida, mesmo quando meus pais, no mínimo com alguma paralisia mental temporária, deixava eu e minha irmã sairmos sozinhas pelo Rio a noite e voltávamos quando eu decidisse que era a hora. hahahaha, bons tempos…

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