5 princípios básicos da gestão de culpa

Todo mundo sabe que na gestão moderna de pessoas, aplicada nas empresas de ponta e que visam oferecer um ambiente de trabalho sadio e instigante, o conceito de responsabilidade é trabalhado sempre de forma a estimular a ação e a criatividade. Erros são analisados não como fonte de culpa, mas sim de lições, não como motivo pra repreensão pública no meio do corredor, mas como fonte de oportunidade de melhorias. Nas empresas que pensam no futuro existe uma preocupação em não criar um clima caça às bruxas ou um ambiente de punição que acabe sacrificando a pró atividade em nome do receio generalizado de represálias diante de um fracasso, mas sim um contexto de cooperação e aprendizado.

Mas sério, quantos de nós trabalham em empresas assim? E é para todos que ainda estão empregados em ambientes que utilizam a técnica Victor Frankenstein de correção de erros (“persigam este maldito com suas tochas, seus camponeses de merda!”), que vai esse breve guia sobre esse processo tão importante para manter seu emprego num mundo empresarial competitivo: a gestão de culpa.

A culpa nunca é sua – Ocorreu um erro grave num dos processos nos quais você está envolvido. Qual a sua primeira atitude? Descobrir exatamente a natureza do erro? Reportá-los aos superiores? Corrigi-lo? Claro que não. A primeira coisa a ser feita é deixar claro: a culpa não é sua. Seja o que for que tenha acontecido, seja qual for a merda que tenha dado, seja qual for o tamanho do prejuízo, com certeza você não tem nada a ver com isso. Estava doente no dia, não teve acesso ao relatório, estava envolvido em outra atividade, não foi informado sobre o problema e está tão chocado quanto todos os outros, assim como está sedento para descobrir quem foram os culpados e puni-los de forma lenta e cruel como os idiotas que são. É exatamente com esse tipo de discurso que você evita que vejam que sim, foi você que pediu a compra de 6 mil e não apenas seis banners de divulgação da festa de final de ano porque chegou bêbado na segunda e não entendia nada do que estava escrito naqueles malditos relatórios.

A culpa sempre é da pessoa que tiver menos condições de se defender – Deu merda, todo mundo viu que deu merda e agora querem um culpado porque, afinal, aquele empréstimo de 500 mil reais tomando como garantia a área de um terreiro de umbanda de 4×4 m em Queimados não se fez sozinho, alguém autorizou esta porcaria. Essa é a hora de fazer uso do famoso “fator Zé Luís”, que consiste em colocar a culpa na pessoa que tiver a menor possibilidade possível de se defender. O cara que saiu de férias na semana anterior, o estagiário tímido, o gago da contabilidade, a senhora idosa da faxina, quem você conseguir culpar com o máximo de velocidade e o mínimo de chance de ser descoberto. Também pode ser uma boa tentar rasgar o contrato pra evitar que vejam a sua assinatura nele e acabem ligando o problema à você.

Se conseguirem provar que a culpa é sua divida-a com alguém – Foi um daqueles erros que não dá pra esconder. Não que não dê pra culpar outra pessoa por vocês terem perdido a conta daquela empresa de iogurtes, não que não dê pra culpar toda a equipe pela campanha ter saído fraca, mas quem foi que meteu o dedo na cara do cliente coreano e disse que ele era um ninja imbecil que não entendia nada de propaganda e merecia morrer apanhando do Michael Dudikoff? Você, meu amigo. Então a saída, já que esteira cósmica que o Flash usa pra voltar no tempo não está disponível, é convencer a todos de que a culpa não é só sua, é de outra pessoa também, reduzindo assim em 50% o volume do esporro e a chance de ter que voltar a acessar todo dia a página da Catho. Pra isso valem os mesmos princípios do mandamento anterior, com a diferença de que você possivelmente vai ter que pensar numa história bem melhor pra conseguir culpar a velhinha da faxina.

Se não conseguir dividir a culpa com ninguém, apenas negue que existam culpados – Como a gente sabe, existem duas formas totalmente diferentes de lidar com o conceito de culpa: uma quando ela é sua e outra quando ela não é. Se quando os outros dão alguma bola fora sutil como errar a grafia de uma palavra num powerpoint ou esquecer um pendrive você é o primeiro a chamar a inquisição, apontar o erro e dizer que “é por isso que estamos na merda que estamos”, “pessoas como você que não deixam o Brasil ir pra frente” ou apenas “ai, que burro, dá zero pra ele”, quando o erro é seu a postura deve ser totalmente diferente. Use um sorriso compungido e tente falas conciliadoras e agregadoras de inocência como “é mais importante buscar soluções do que culpados”, “erros servem como aprendizado” ou “e desde quando um prejuízo de 3 milhões vai derrubar uma empresa forte como essa, hein, galerinha?”

Se tudo falhar “queime sofás” – Uma das táticas de mais famosas para lidar com um erro é a da “queima de sofá”, que consiste em culpar um objeto inanimado ou uma entidade incorpórea/espiritual/inatingível pelo problema, evitando que alguém que realmente pode ser punido sofre represálias. O atendimento está lento? Culpa do sistema. O projeto saiu uma merda? Demos azar. Perdemos aquela licitação de 3 bilhões no Caribe? Deus não quis. O diretor de marketing decidiu investir milhões naquele refrigerante sabor repolho? Claramente estava possuído pelo capeta, a culpa não é dele e por isso o cara deve ir procurar o padre Merrin, não a Cristina do RH. O importante é culpar algo que está acima do controle humano, que ninguém pode realmente demitir (não dá pra, por exemplo, colocar São Pedro na rua por causa do mau tempo e ainda mandar um “onde está o seu Deus agora?”) e que, claro, não seja você.

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10 Comentários

Arquivado em Mundo (Su)Real, teorias, vida profissional

10 Respostas para “5 princípios básicos da gestão de culpa

  1. e é por isso que o Brasil não vai pra frente, meus caros.

    [hahahahaha. adorei, João]

  2. Não poderia haver ilustração melhor que Michael Scott para este post.

  3. utilizo muito a última opção. é sempre culpa do cosmos, que esta contra mim.
    sempre.
    cosmos, esse grandecissimo filho da puta.

    ou então uso a filosofia homer j simpson: JA ESTAVA ASSIM QUANDO EU CHEGUEI.

  4. Annia

    Quando você é novo no emprego ainda dá pra virar o jogo… Eu peço desculpas, repito em voz alta o que aconteceu pra dar errado e todos terem certeza que aprendi com aquilo e pedir novamente desculpas por tentar fazer x usando y sem dominar a ferramenta, mas é que só queria muito aprender e poder ajudar melhor o setor.
    HAEUHAEIuahIEuhae

    Quando é cagada homérica assim mesmo é tenso. Quando trabalhava em Hotel admitia o erro e pedia desculpas muito brevemente, logo quando acontecia durante o atendimento e nem parava de trabalhar. Ninguém ia gritar comigo ali e até ter tempo de falar em particular a coisa já tinha esfriado um pouco.

    Mas não funcionaria em qualquer lugar, imagino.

    Em tempo: THIS IS WHY WE CAN’T HAVE NICE THINGS. Argue cat ftw

    • alice

      eu, na qualidade de estagiária e potencial bode expiatório, sempre utilizo essa técnica (“estou aqui para aprender”, “sou nova”, “achei q fosse assim”, “ninguem me ensinou, “ninguem me corrigiu”)

      para dar certo é essencial sempre mudar de setor, de meses em meses, de modo q vc seja sempre a novata

  5. Fernanda

    fazia tempo que eu não ria tanto lendo uma coisa!

    (ei, a catho funciona mesmo?)

    • joão baldi jr.

      Comigo nunca funcionou e até hoje eu devo 15 reais pra eles por um período de teste gratuito que eu peguei e esqueci de cancelar.

      Sim, 15 reais pelo teste gratuito. Mundo esquisito.

  6. Em 90% dos casos o melhor é botar a culpa no estagiário.

  7. hahaha, eu sempre uso o ‘ai que burro, dá zero pra ele’. tipos, sério mesmo, eu uso.

  8. Eu recorro diversas vezes ao dia ao clássico “a culpa é do sistema” para justificar falhas humanas.

    E há ainda mais uma opção, caso o culpado seja do sexo feminino: chorar copiosamente. E esperar pela compaixão alheia.

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